Por JOSÉ APÓSTOLO NETTO
Historiador e doutorando em História (UNESP - Campus de Assis, SP)

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Dos Racionais aos Emocionais Emecis:
um olhar marginal da relação música, favela e dinheiro

 

O seu jogo e sujo e eu não me encaixo (Racionais MC’s)

 

CD: Sobrevivendo no InfernoA arte marginal [1] , produzida nas favelas e nos morros do Brasil, é uma das tendências artísticas mais produtivas e criativas da cena cultural afro-brasileira das duas últimas décadas. Fecundada no solo fértil das áreas periféricas das grandes cidades brasileiras, desde a década de 1980, elacompreende um microcosmo artístico que abrange a poesia, a prosa, a mídia eletrônica, a dança, as artes gráficas e visuais, a moda e, principalmente, a música. Além de contar com um rol de artistas, autores e personagens consagrados pela periferia e pela mídia oficial.

Vale lembrar que essa relação com a mídia oficial é feita com certa reserva. Os artistas marginais, embora necessitem do dinheiro advindo do sucesso para garantirem a sua reprodução, seguem, em contrapartida, uma rígida norma do campo artístico periférico que, grosso modo, resume-se na preservação da obra diante da força alienante do dinheiro ou, em outros termos, do sucesso e da fama. Isto explica, em parte, por que os artistas obedientes aos ditames do mercado e embriagados pelo sucesso comercial são colocados na berlinda pelos que resistem à entrada incondicional.

Dentre os artistas marginais surgidos nas duas últimas décadas, os Racionais MC's são os que melhor expressam essa dualidade no projeto criador. O grupo, formado por Mano Brown, Ice Blue, KL Jay e Edi Rock, surgiu no final dos anos de 1980, na esteira da afirmação do hip-hop na cena paulistana. Agenciados, inicialmente, pelo produtor musical Milton Sales, os Racionais MC's declararam a sua independência em Sobrevivendo no Inferno (1997), produzido pelo selo independente Cosa Nostra, de propriedade grupo.

É também nas letras de Sobrevivendo no Inferno que se verifica uma reformulação temática. Os trabalhos anteriores, de Holocausto Urbano (1992), passando por Escolha o seu Caminho (final de 1992) até Raios-X do Brasil (1997), a problemática girava em torno da violência, racismo, pobreza circunscritos à periferia da zona sul de São Paulo. As músicas dessa fase funcionaram como verdadeiro instrumento de denúncia e crítica social.

Já em Sobrevivendo no Inferno e Nada Como um Dia Após o Outro Dia o discurso torna-se messiânico. Nele, o céu e o inferno, Deus e o Diabo travam uma luta sem trégua na consciência do periférico, que vivendo no mundo das incertezas e simulações não visualiza outra saída senão a de cuidar de si e dos parceiros de batalha. A vida na favela ensina que, num mundo dominado pelos vermes e pelo Zé povinho, poucos são merecedores de confiança. Aliás, a confiança é vista como uma mulher ingrata que te beija, te abraça, te rouba, te mata. (Vida Loka, Nada Como um Dia Após o Outro Dia, 2002).

O projeto criador dos Racionais MC's será, desde o início, assinalado pela dualidade sucesso/autonomia artística. E os conflitos daí resultantes estarão inscritos nas letras de suas músicas, o que nos dá uma ótima oportunidade de pensarmos a problemática da percepção dos artistas da periferia quanto à produção cultural no capitalismo brasileiro.

Comecemos dizendo que dinheiro é admitido e previsto pelos Racionais MC's. Eles têm a percepção do circuito monetário que os envolve. Sabem que o mercado é uma realidade da qual não podem fugir, mas sabem também que sua ação precisa ser relativizada, sob pena de perderem uma certa faixa de liberdade artística. Essa relativização será realizada pela ética e o modo de vida instituído pelo campo de produção artístico marginal no qual foram formados.

A acumulação de riqueza, ao longo da carreira, [2] sem, contudo, a incorporação de valores burgueses da moda – casas suntuosas em bairros ricos, carros de luxo importados, e afins – ao lado do fortalecimento e o reforço dos laços comunitários e sociais com a periferia demonstram o modo como o grupo desenvolveu o seu trabalho artístico, que se caracteriza por uma administração racional dos conflitos entre o mundo da fama e o mundo periférico.

Podemos concordar que a primeira fase do grupo foi marcada por uma certa indulgência aos ditames comerciais. Ela está assinalada nos três primeiros discos, cujas músicas seguem muito de perto o estilo musical dos grupos de rap americanos, em especial Public Enemy [3] .

Donos de um modo de cantar agressivo e debochado, o grupo americano destilava um discurso musical anti establishment, ritmado por scracht e samplers de mestres da velha guarda da soul music, principalmente, James Brown e George Clinton.

Assim o rap engajado encontraria um forte representante nacional na figura dos Racionais MC's. De saída, as músicas "Voz Ativa" e "Pânico na Zona Sul" encontraram acolhida junto ao público jovem da periferia. Talvez porque elas combinassem o peso da batida black com letras rimadas, recheadas de gírias, onomatopéias de ação e o enfoque dos problemas das periferias da capital paulista, especialmente, zona sul e zona norte.

“Voz Ativa” sinaliza o rap como porta voz do negro da periferia, denunciando o apagamento da africanidade na cultura nacional através do racismo, do comodismo, do medo e da atuação alienante dos meios de comunicação de massa. É, portanto, na condição de porta voz da negritude que a letra começa na forma de recado aos silenciados:

Eu tenho algo a dizer /E explicar pra você (...)/Para os manos daqui Para os manos de lá/Se você se considera um negro/Pra negro será (Voz Ativa, Escolha Seu Caminho, 1992).

Um recado que além de anunciar o despertar de uma consciência étnica quer denunciar a mentalidade racista do brasileiro:

Todos eles com medo generalizam demais/Dizem que os negros são todos iguais/Você concorda...(Ibidem)

Ainda mais: quer chamar todos os ofendidos para uma reação:

Eu não convivo com isso naturalmente/Não proponho ódio/Porém acho incrível que o nosso compromisso já esteja nesse nível/Afrodinamicamente manter a nossa honra viva.(Ibidem)

Em “Pânico na Zona Sul” o discurso gira em torno problemática social, que se traduz na falta de segurança, na violência policial e na ação dos grupos de extermínio:

Justiceiros são chamados por eles mesmos/Matam, humilham e dão tiros a esmo/E a polícia não demonstra sequer vontade/De resolver ou apurar a verdade (...)/E por que ajudariam se eles nos julgam delinqüentes/E as ocorrências continuam sem problema nenhum/Continua-se o pânico na Zona Sul (Pânico na Zona Sul, Holocausto Urbano, 1992).

Nessa fase do rap engajado, o grupo procurou, ao lado do trabalho artístico, desenvolver trabalhos sociais, bem como associar sua imagem aos partidos de esquerda, em especial, o Partido dos Trabalhadores (PT). A aparição na mídia crítica e criativa [4] era uma preocupação constante do grupo nesse período. Era uma forma de garantir uma coerência entre o discurso, a ética e prática política do grupo, assegurando assim um significativo capital social e simbólico que, não raro, convertia-se em capital econômico. [5]

Na fase que compreende Sobrevivendo no Inferno e Nada Como um Dia Após o Outro Dia, uma reviravolta: o grupo inscreve a sua originalidade artística ao apresentar o projeto, ainda em elaboração, do autêntico rap nacional, sem laivos e traços do rap americano. Do rap engajado, o grupo passa para a proposta do rap messiânico. Ou, como sugeriu o próprio Mano Brown, em entrevista `a TV Cultura, passou de racionais para emocionais emecis [6] .

Nessa proposta, as músicas ganharam um tom mais intimista e as letras, mais subjetivas, estruturam-se na forma de solilóquios reveladores do ser angustiado, em conflito consigo, com os seus valores, com os valores dominantes e com as suas atitudes.

Todo favelado é um universo em crise. (Mano Brown, Ensaio, 2003).

A dúvida, ou melhor, o ser em dúvida é o tema central. Como um Hamlet da favela, o eu poético musical tem de escolher caminhos ou alternativas inconciliáveis: ser ou não ser bandido. Trilhar o caminho do bem ou do mal? Nesse universo dos possíveis, a dialética reconciliadora do amor e da moral não opera muito bem. Na favela as escolhas não são tão fáceis:

Eu tô confuso, preciso pensar/Me dá um tempo pra eu raciocinar?/Eu já não sei distinguir quem tá errado/sei lá/Minha ideologia enfraqueceu/Preto, branco, polícia, ladrão ou eu/quem é mais filha da puta/ eu não sei/ ai fudeu. (Formula Mágica da Paz, Sobrevivendo no Inferno, 1997).

Entrementes, uma saída é possível; e ela está na peregrinação obstinada em busca da paz, perdida com o pecado original:

Eu vou procurar/Sei que vou encontrar/A fórmula mágica da paz.(Ibidem)

Por outro lado, o eu cindido sabe também que esse retorno não é para o aqui e agora da vida terrena, e que, no limite da existência periférica, a alternativa é, além da observância de um rigoroso código de ética da favela, a afirmação dos ideais humanistas, do espírito romântico revolucionário e virtuoso:

Eu não tenho dom pra vitima/Justiça e Liberdade/A causa é legitima/Meu Rap faz o cântico dos loucos e dos românticos/Vou por um sorriso de criança/Aonde for/Aos parceiros tenho a oferecer a minha presença/Talvez, até confusa, mas Real e Intensa (Vida Loka, Nada Como um Dia Após o Outro Dia, 2002).

 


[1] Entendemos por arte marginal toda arte produzida nas regiões periféricas e pobres das cidades brasileiras e que mantém uma relação de conflito com os canais oficiais de divulgação e difusão artístico e cultural; e que procuram, na medida do possível, meios alternativos e independentes de mídias.

[2] O Cd Nada Como um Dia Após o Outro Dia vendeu mais de 500 mil cópias, desde o seu lançamento, em outubro de 2002. Cifras nada modestas para um grupo que não conta com o aparato da grande mídia para se estabelecer. Esses números mostram também que eles não ficam atrás dos grandes artistas comercias.

[3] Não é por acaso que os Racionais MC's fazem a abertura do show do Public Enemy no Anhembi, em 1992. Os rappers americanos funcionavam como modelos e combustível para a verve criativa do grupo brasileiro.

[4] Estamos nos referindo basicamente às TVs públicas, MTV, rádios comunitárias e afins.

[5] O grupo ao longo de sua carreira vem desenvolvendo inúmeros trabalhos sociais e defendendo bandeiras progressistas. Entre elas, podemos citar: participação no projeto Repensando, da Secretaria da Educação, no Projeto Musica Negra, em Campanhas de amparo aos portadores de HIV, Campanhas contra a fome, Shows filantrópicos, passeata em protesto ao 13 de Maio, entre outras.

[6] Ensaio, TV Cultura, 28/01/2003.

JOSÉ APÓSTOLO NETTO

     

Bibliodiscografia

ANDRADE, Elaine Nunes de. Movimento negro juvenil: um estudo de caso sobre jovens rappers de São Bernardo do Campo. São Paulo, 1996. Tese Mestrado (Universidade de São Paulo).

BORDIEU, Pierre. As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. Trad. Maria Lúcia machado. São Paulo, Companhia das Letras, 1996.

Ensaio, TV Cultura, 28/01/2003.

KALILI, Sérgio. Mano Brown, líder dos Racionais MC’s. A periferia vai à guerra. Caros Amigos. São Paulo, Ano 1, n. 10, Janeiro, 1998. p. 30-34. 

Racionais Fazem ‘Canudos da Periferia’. Folha da São Paulo, São Paulo, 13 de Novembro, 1997. Caderno 5, p. 3.

Escolha seu Caminho, Zimbabwe, 1992.

Holocausto Urbano, Zimbabwe, 1992.

Nada como um Dia após o outro Dia, Cosa Nostra, 2002.

Raios-X do Brasil, Zimbabwe, 1994.

Sobrevivendo no Inferno, Cosa Nostra, 1997.



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