Por CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO
Doutoranda em Filosofia (Universidade Paris X - Nanterre)


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Sindicalismo

 

A França, muito mais do que outros países industrializados, conhece mais movimentos sociais decorrentes de contestações das reformas. Isso acontece por causa das origens do sindicalismo, bem como de suas particularidades e de suas evoluções. Comprovando a indiferença, desinteresse e ausência de engajamento dos assalariados, o país é visto como sub-sindicalizado e, até mesmo, "a-sindicalizado", tendo um dos mais fracos sindicalismo do mundo com uma taxa de sindicalização, com relação à população ativa assalariada, de apenas 8% em 2002.

Há sete especificidades ligadas à história e à organização do movimento sindical que contribuíram consideravelmente para a atual situação:

§         A recusa do mutualismo - o movimento operário foi construído na clandestinidade e nas lutas sociais, tendo a característica de revolucionário por influência do socialismo e do anarquismo. Pela lei Waldeck-Rousseau de 21 de março de 1884, a República outorgou aos sindicatos o direito de constituir-se livremente sem autorização do governo. Sendo, então, enquadrados em um sistema de serviços, são convidados a desenvolver bibliotecas, agências de empregos e cooperativas. No final do século XIX, o sindicalismo passou a preferir a luta das classes adotando o capitalismo como inimigo comum à classe operária (Marx); não sem razão, pois em 1893 a implantação de sindicatos é definida como uma "mancha vermelha". Entretanto, a recusa ao sindicalismo de serviços explica a desafeição original dos assalariados.

§         Opção revolucionária - a CGT*, criada em 1895, é revolucionária, anticapitalista, antimilitarista, anticlerical e prega a ação direta para o desaparecimento do proletariado e do patrão. Nasce, em 1919, a CFTC*, com base na encíclica papal Rerum novarum, hostil à luta de classes e com o objetivo de remodelar a sociedade pela aplicação dos princípios de justiça e de caridade cristã. Visando uma revolução, sem nunca chegar a ela, a CGT adota por arma a greve geral preconizada pelos anarco-sindicalistas, lutando pela suspensão universal da força produtiva em todas as profissões.

§         Divisões políticas - a Carta de Amiens, texto fundador da independência do sindicalismo, adotada pela CGT em 1906, proibia a cada sindicato a introdução de idéias professadas exteriormente e definia um sindicato auto-suficiente para mudar a sociedade. Porém, cada sindicato foi fundado com base em uma recusa política, sendo modelado, desta forma, por divisões políticas que enfraquecem a apreciação sindical.

§         A "grevecultura" antes da negociação - o sindicalismo tem necessidade da cultura da greve, profundamente enraizada, para tentar impor uma relação de negociação entre proletário e patrão. Obtendo vitória, ao contrário de vários países europeus, o benefício é para todos e não somente para membros de determinados sindicatos, apesar disso, muitos consideram os parcos resultados positivos e o constante desprezo de patrões para com empregados.

§         Queda do domínio do setor público - com o passar do tempo, o setor privado ganhou terreno nos sindicatos diminuindo a atuação do setor público, desencadeando, assim, a redução da defesa operária.

§         Representatividade - existem cinco confederações representativas que não têm necessidade de grande número de adesão para serem representadas (CGT, FO, CFDT, CFTC, CGC.*), sendo legitimadas como interlocutores privilegiados do governo e dos patrões. Isso aumenta o enfraquecimento dos sindicatos menos favorecidos.

§         Reticência às reformas - com o aumento da classe de homens de negócios e, consequentemente, com a redução das categorias operárias, acompanhadas de uma diversificação e mesmo de uma individualização das aspirações dos assalariados, fez com que o sindicalismo fortificasse ainda mais sua idéia anti-reformista, preferindo a revolução e a reivindicação uniforme para todos os assalariados, em todas as empresas e setores de atividades; quer se trate de salários, emprego, formação, aposentadoria, direito sindical, duração ou condição de trabalho.

Sem desertar suas funções tradicionais de reivindicação e protesto, o sindicalismo francês, que sempre recusou incluir cláusulas de "paz social" nos acordos sociais, tem se aventurado por novos caminhos, procurando valer-se da negociação e inaugurando um sindicalismo reformista. Tem adotado, desta maneira, diante de patrões e governo, a postura de "sindicalismo de propostas". Continua, no entanto, hesitante perante seu contínuo enfraquecimento pelas constantes divisões.

 

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*- CGT - Confédération Générale du Travail - Confederação Geral dos Trabalhadores.
- FO - Force Ouvrière – Força Operária
- CFDT - Confédération Française Démocratique du Ttravail - Confederação Francesa Democrática do Trabalho.
- CFTC - Confédération Française des Ttravailleurs Chrétiens - Confederação Francesa dos Trabalhadores Cristãos.
- CGC - Confédération Générale des Cadres - Confederação Geral dos Quadros.

CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO

     

 



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