Por EVA PAULINO BUENO
Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teachi ng in Japan (JPGS, 2003).


VERSÃO WORD (ZIP)

 

Criando memoriais

 

As cadeiras  vazias no Oklahoma City representam as pessoas que morreram no ataque de 19 de abril  de 1995No mês de março passado, enquanto em viagem ao estado de Minnesota, parei na cidade capital do Estado de Oklahoma, Oklahoma City. Nessa ocasião, tive a oportunidade de visitar um lugar que não existia na última vez que fiz uma viagem por carro passando por Oklahoma, o "Oklahoma City National Memorial" - O Memorial Nacional da Cidade de Oklahoma.

Para relembrar: foi neste lugar que, no dia 19 de abril de 1995, às 9:01 da manhã, um carro-bomba explodiu o Prédio Federal Alfred P. Murrah, que abrigava, além de escritórios de várias agências locais do governo federal dos Estados Unidos, também uma creche. A explosão matou 168 pessoas, incluindo algumas que estavam em prédios vizinhos.

A visita a este memorial de Oklahoma é talvez mais emocionante que uma visita ao lugar da baía em Pearl Harbor onde ainda se pode ver o óleo saindo dos cascos dos navios afundados pelo ataque japonês durante a segunda guerra mundial. Duas razões me emocionaram mais em Oklahoma City. Uma delas é obviamente o fato de este ataque ter acontecido em minha geração, e portanto tenho uma conexão mais direta com as imagens do ataque e das tentativas de salvamento das pessoas soterradas. A outra razão é devida ao fato de que a maioria absoluta dos que morreram neste ataque eram civis, e 19 eram crianças (bebês, realmente), que estavam na creche na hora do ataque.

As famílias dos que morreram, junto com pessoas que sobreviveram ao ataque, escolheram homenagear as vítimas com um monumento ao ar livre que é, ao mesmo tempo, comemorativo do sofrimento e da perda destas pessoas, e de esperança no futuro. O que restou do prédio Alfred P. Murrah foi implodido depois que a busca por sobreviventes e por restos mortais terminou. A área --uma parte central do cidade—foi toda usada para este monumento.

A característica que chama mais a atenção, e que virou a "marca registrada" deste memorial são as 168 cadeiras vazias. Estas cadeiras, dispostas em nove filas para simbolizar os nove andares do prédio, são construídas de bronze e vidro. Durante o dia, as cadeiras parecem flutuar no espelho d’água que fica diante delas. À noite, a parte de vidro se ilumina, e a silhueta das cadeiras, vazias, representam a ausência e a saudade. Na entrada norte do monumento, está marcada a hora, 9:01, quando a explosão ocorreu. Mas o monumento, que toma dois quarteirões, tem outras características, como a cerca de arame trançado onde pessoas colocam mensagens, imagens, fotos, bandeiras, brinquedos. Do lado de dentro do monumento, se encontra uma árvore enorme, chamada "Survivor Tree" - árvore sobrevivente - que tem no tronco marcas da explosão; ao lado desta árvore foram plantadas  árvores jovens e fortes, para indicar que há esperança, e que os que morreram não serão esquecidos.

Devo admitir que me emocionei. Quem não se emociona em um lugar em que vidas inocentes foram tiradas assim, bestamente? Quem não sente um pouco da dor daqueles que viram seus filhos e filhas, maridos, esposas, irmãs, irmãos, retirados dos escombros, em pedaços? E, sempre, aquela pergunta, "por quê?"

Nas horas imediatamente após este ataque, enquanto o país todo assistia em choque as cenas transmitidas ao vivo de oklahoma City (onde fica mesmo este lugar?—muitos se perguntavam), muitos achavam que este tinha sido um ataque perpetrado por estrangeiros. Uma das primeiras manchetes em um jornal dizia, "Eles agora estão matando criancinhas!" "Eles," naturalmente, não são "nós." Uma outra frase que ficou marcada daqueles primeiros momentos foi, "In American soil" - no solo americano—indicando que "eles" tinham tido a ousadia de "nos" atacarem dentro da nossa própria casa. Como todos sabem, em pouco tempo o perpetrante do ataque, um antigo militar, e americano, Timothy McVeigh, foi apreendido. Em tempo, ele foi julgado, condenado, e executado.

De uma certa maneira, apesar da grande tristeza que um lugar como este memorial em Oklahoma City provoca, pelo menos se pode ter um sentimento de que o "culpado" foi identificado, embora ainda existam tipos dentro dos Estados Unidos que a) acreditam que McVeigh era inocente, b) crêem que a causa dele era justa (Há um grande número de pessoas que estão contra o governo federal, se acham no direito de viver como querem, sem pagar impostos e sem seguir as leis do país. Entre pessoas deste grupo estão extremistas que acham que matar inocentes, incendiar clínicas, tudo é justificado para fazerem seu ataque ao governo). Mas em muitos outros lugares, tanto aqui nos Estados Unidos como em outros países, este sentimento é impossível, e a dor não oferece o consolo da esperança. [1]

Uma vez mais, o país que pode oferecer o exemplo mais pungente de como o sofrimento causado a toda uma população pode ser transformado em uma força positiva nos vem do Japão. Aqui me refiro especialmente ao povo da ilha de Okinawa, que fica ao sul do arquipélado.

Okinawa, como lembramos, foi o palco do ataque americano ao Japão, por terra. Na ilha morreram 200.000 pessoas, entre os próprios residentes japoneses, soldados do imperador, soldados das forças aliadas, coreanos e chineses que estavam aprisionados e eram usados como escravos pelos japoneses  (para fins de comparação, basta recordar que no ataque com bomba nuclear a Hiroshima aproximadamente 140,000 pessoas morreram dentro de um ano). Duzentas mil pessoas é um número muito grande, se se considera que Okinawa é uma ilha relativamente pequena. A maioria dos mortos eram civis, gente que na realidade não era bem aceita nem respeitada pelos japoneses das ilhas ao norte (Okinawa tem uma cultura tradicional polinésia). [2] Depois da guerra, o Japão "cedeu" Okinawa aos Estados Unidos, que mantiveram controle da ilha por muitos anos. Quando afinal os americanos devolveram Okinawa ao Japão, eles mantiveram na ilha bases militares, que interessam ao Japão para sua proteção, e aos Estados Unidos que assim mantêm bases firmes na Ásia. E Okinawa? Ainda hoje a ilha paga o preço da segunda guerra mundial, sendo obrigada a carregar o peso da maior parte da responsabilidade—e da dor de cabeça—de ter este elemento alienígena dentro do seu seio. [3]

Ainda hoje Okinawa e seus cidadãos são tratados como uma parte inferior do Japão. Mas eles perseveram nos seus sentimentos de que a paz é necessária, possível, e preferível a qualquer guerra. No dia 23 de junho de 2003, quando a ilha comemorava os 58 anos do fim da luta em Okinawa (devolvida ao governo japonês em 15 de maio de 1972), o governador Keiichi Inamini reiterou o propósito de continuar explicando para a geração presente o que a guerra significou e significa para a comunidade.

Okinawa, então, carregando seu fardo de soldados estrangeiros que geralmente só se misturam à comunidade local para causar danos, sentindo ainda hoje o preço de ter sido invadida tanto pelos japoneses como pelos americanos, ainda tem força para emitir apelos de paz ao mundo. [4]

Então, se compararmos Oklahoma City a Okinawa, vemos que o sentido do perdão e da renovação, por mais duro e mais testado que seja no dia a dia, continua forte, sendo realmente um exemplo para a humanidade. Cada uma destas comunidades, uma nos Estados Unidos e outra no Japão, tenta dar seu recado ao mundo, de maneiras diferentes.


* Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000).

[1] Se falarmos do Brasil do presente, por exemplo, onde colocaríamos um memorial aos assassinados pela polícia? Às crianças  mortas de fome e abuso? Aos trabalhadores sacrificados no dia a dia? Às vítimas da violência urbana diária?  E nem sequer estamos pensando em falar do Brasil do passado, porque se estivéssemos, o território inteiro teria que ser convertido em memoriais a chacinas, torturas, violências contra os mais  fracos.

[2] Só para marcar aqui como estas bobagens de “superioridade étnica” acabam sendo transmitidas de geração a geração, quero relatar uma memória. Em meus tempos de escola em Maringá, nos idos 1960 e 70, muitas coleguinhas minhas, “japonesas,” diziam para quem quisesse ouvir, que “gente de Okinawa não é gente.”  Duvido que minhas colegas tivessem visto alguém de Okinawa, e mesmo que tivessem visto, não teriam reconhecido a diferença entre elas mesmas e o grupo étnico desprezado. Na realidade, seguramente seus pais e avós—a maioria dos imigrantes japoneses que vieram ao Brasil eram da ilha de Honshu—trouxeram com eles o preconceito contra os habitantes de Okinawa, que provavelmente nunca tinham visto, e passaram o feio sentimento a seus filhos e netos. O que minhas colegas de colégio transmitiam era, seguramente, um memorial à ignorância de seus pais e avós.

[3] Há problemas constantes causados pelas atitudes de alguns soldados americanos  com relação especialmente à população feminina da ilha. Até recentemente, soldados americanos não podiam ser presos pela polícia japonesa, não importando o grau e severidade da acusação contra eles. Em 1995 três soldados foram acusados de violentarem uma garota de 12 anos, e iam somente receber uma advertência. A população de Okinawa fez protestos pacíficos nas ruas, chamando a atenção para a barbaridade de tal decisão, e pedindo justiça. Apesar de tudo isto, outros casos como este, envolvendo estupro, aconteceram depois de 1995. Alguns dos soldados americanos estacionados em Okinawa ainda acham que o território está ocupado, e que como força de ocupação, eles podem se servir das mulheres locais a seu gosto. Estes tarados são a minoria absoluta, mas sua atitude torna a virtual ocupação de Okinawa ainda mais dolorosa para os habitantes, e a posição das bases militares ainda mais difícil de manter.

[4] Recomendo o artigo de Daniel Karasik, "Okinawa: A Problem in Administration and Reconstruction," Far Eastern Quarterly, Vol. 7, No 2, February, 1948, p. 257, para uma discussão mais abrangente sobre a situação de Okinawa.

EVA PAULINO BUENO

     

 

 

 

 

 

 

 

 

 



http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2003 - Todos os direitos reservados