Por RAYMUNDO DE LIMA
Psicanalista, Professor do Departamento de Fundamentos da Educação (UEM) e doutorando na Faculdade de Educação (USP)

 

Alimentados e subnutridos

 

É fato conhecido e divulgado que muitas crianças de hoje consomem alimentos que não são nutritivos.

Orientadas por adultos, crianças vêm processando na justiça norte-americana a rede de fast food McDonald's, por fornecer sanduíches que supostamente não desenvolvem "hábitos", mas criam “dependência” ou "viciam" as pessoas.

Especialistas colocam no mesmo grupo como "dependência doentia", tanto o consumo de álcool, fumo e drogas, como o de sanduíches e refrigerantes. Essas "coisas saborosas" são maquinadas inteligentemente pela propaganda enganosa como "meios mais rápidos para se chegar à felicidade". Evidentemente, uma falsa felicidade, vendida em forma de produto que gratifica a oralidade. Promete preencher os vazios humanos com a satisfação gratificada na forma de gozo do paladar, que os antigos chamavam "gula", ou seja, um dos sete pecados capitais. Operando desse modo, ganham três vezes: a) gratificando as demandas infinitas e simbólicas do sujeito inconsciente; b) escondendo a possibilidade real de doenças advindas do mau hábito alimentar, que os médicos sempre falam, mas que poucos respeitam; 3) colonizando os todos os povos do mundo a substituírem à alimentação nativa, cultural e saudável, por outra alheia a sua cultura e industrializada. Á muito tempo, estamos nos rendendo aos costumes alimentares importados principalmente dos EUA, que vem fazendo lá a obesidade e suas conseqüências na saúde ser um problema epidêmico naquele país.

Doa a quem doer: dependência por um produto é vício, é doença ou patologia, não é simples hábito. Podemos mudar hábitos, mas o vício é mais complicado, talvez impossível, uma vez que sabemos que ninguém se cura da narcodependência, do alcoolismo ou do tabaco. O vício esconde motivações não conscientes, que reaparecem em forma de imperativo categórico, além da auto sustentação repetitiva.

A psicanálise se refere a "compulsão à repetição", ou seja, o sujeito diante dessas "coisas saborosas" trabalhadas pela propaganda, perde a sua condição de sujeito-que-escolhe, como querem os crentes no homem apenas determinado pela força racional-consciente.  É por ser um “sujeito dividido” que se torna um objeto ou dependente do que elas representam.  Por exemplo, conhecemos inúmeros casos de pessoas que sabem dos malefícios do cigarro, das drogas, de comer alimentos errados e em demasia, mas não conseguem ser verdadeiramente "sujeito".  Ou seja, “ele é onde não se pensa ser”, disse Lacan, invertendo a sentença cartesiana. Daí, muitos se voltarem ao Pai-Todo Poderoso (já que ele se vê como um fraco); isto é, ele precisa crer  numa "força maior" para se manter como "sujeito" no seu limite e pagando algum preço.

Como fator exógeno, sem dúvida, a propaganda contribui nos influenciando em todos os espaços disponíveis para sermos respondentes passivos aos seus apelos e da ideologia consumista. A ideologia subjacente da propaganda é que nos tornemos, não "pessoas" ou “sujeitos independentes”, mas "consumidores passivos ou dependentes", tal como em relação às drogas. Desde cedo, as crianças são seduzidas pela propaganda que certos alimentos são mais gostosos: batatas fritas, sanduíches, pastéis, pizzas, doces... sempre acompanhados de refrigerantes. Mais tarde, dizem o mesmo da cerveja e das demais bebidas alcoólicas.

Mesmo sabendo o quanto tais alimentos são gordurosos e causadores de problemas de saúde, sobretudo se a criança é sedentária e tem a tendência a obesidade, os pais terminam deixando-se levar pela "onda" do consumo oral. Será por impotência diante da sedução ostensiva ou é por comodismo? Ou seria porque eles também se viciaram em tais comidas, como se não mais existisse o pecado da gula? Afinal, o apelo da propaganda é tão forte e a sedução dos pequenos é tão implacável que terminam fazendo com que até os pais mais conscientes – ou de esquerda - também se rendam ao “consumismo capitalista”. Foi o tempo em que os pais esquerdistas conseguiam fazer com que os filhos não bebessem Coca-cola, lessem gibi do Pato Donald e usassem jeans. Não são poucos os que ainda se sentem tomados de culpa corrosiva, traindo os preceitos do pai, ao tomar uma cola, por exemplo. 

Ter-se-iam também os pais rendidos às promessas de felicidade oral e garantia de status das comidas industrializadas, em vez de seguirem o saudável costume de consumir frutas, sucos, arroz com feijão, carne e salada?

Pesquisas apontam que o brasileiríssimo "arroz-feijão-e-carne" está sendo substituído pelo sanduíche, batata frita e pizza, comidas muito calóricas e pouco nutritivas. Existem escolas que, na contramão dos ensinamentos de salas de aula, nas cantinas vendem comidas gordurosas e industrializadas, em vez de frutas e comidas mais naturais. A maioria das crianças de hoje não levam lancheira para a escola para não "pagar mico".

Tudo bem que escolhamos, vez por outra, ir às cantinas ou lanchonetes comer essas "coisas" industrializadas. Contudo, se não tivermos consciência e autocontrole, o hábito de comer nesses lugares "ideologizados" poderá virar vício.

Não precisamos chegar ao extremo de processar os McDonald's, os Habib's, os Roberto’s, afinal, esse é o negócio deles. Porém, quando escuto uma mãe dizer “que fazer se meu filho só quer sanduíche todo o dia?”, ou "ela está gordinha, não sei porque", logo, penso: será que não foi a mãe (ou pai) que deixou acontecer esse “todo o dia”?  Onde fica a responsabilidade dos pais na educação dos filhos?

Na outra ponta, há quem sugira, em vez de processar os McDonald’s, porque não processar os pais, pois são eles que autorizaram ou se omitem quando os filhos se inclinam para as comidas industrializadas. É mais cômoda tal atitude do que tomar posição preventiva à saúde e à compulsão alimentar advinda desses hábitos.

Acho exagero processar as tanto as lanchonetes como os pais pela sua falta de educação alimentar. Em vez de  pensar que só com a lei, a polícia, a justiça, o governo, enfim, uma medida repressiva qualquer, que tal tentarmos mudar nosso modo de pensar? Em vez de culpar o McDonald’s ou a Elma Chip’s que tal os pais assumirem sua responsabilidade de melhor orientar os filhos, desde pequenos, quanto ao que comer? Que tal melhorar nossa educação alimentar?

 

RAYMUNDO DE LIMA

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