Por JOSÉ APÓSTOLO NETTO
Historiador e Jornalista


 

Globalismo Pop

 

Grassa por aí uma série de conceitos que, a despeito da sua falta de precisão, tem sobrevivido por conta da força maior da mídia oficial. É o caso, por exemplo, do conceito de globalização que, em pouco menos de trinta anos, foi transformado em enlatado teórico mais consumido no mercado de bens simbólicos.

O seu sucesso reside justamente na sua imprecisão, proporcionada, fundamentalmente, por um dos truques mais sutis do capitalismo contemporâneo: a desterritorialização, processo este que consiste em criar produtos cada vez mais desenraizados histórico e culturalmente para que possam ser palatáveis em escala planetária.

É o que permite, por exemplo, que escritores, como Paulo Coelho, dispam os seus escritos de uma prática discursiva mito/poética/maquínica, dos anos 70, e os vistam de um misticismo multirreligioso . Ou que bandas de rock, outrora com forte traço nacionalista, como U2, silenciem os rifes de guitarra imitativos dos ritmos tradicionais e transmude a sua música em tecnopop. Estiliza-te: eis o imperativo categórico do mercado cultural, cuja pretensão não é senão a de criar a ilusão de um “zeitgeist” cultural.

Toleima, pois o mesmo processo que, por assim dizer, “mundializa” também rotiniza a mercadoria, tornando a repetição a alma do negócio. Em contrapartida, a repetição exaustiva, feita, em última análise, para obter o máximo de retorno de capital investido, leva, em sentido inverso, ao esgotamento do valor de uso da mercadoria, e, por conseguinte, a sua adulteração.

Theodor Adorno vaticinou, num dos seus estudos americanos sobre a música contemporânea, que a repetição mecânica da canção de sucesso levava inevitavelmente a uma regressão do ouvido e ao desaparecimento do som. O que, em outros termos, significa dizer: a época que mais tratou o som contribui, paradoxalmente, para a perda do seu sentido.

Estendendo o fenômeno ao campo de nosso interesse, podemos dizer que o mesmo pode acontecer com as palavras e os conceitos. Quando usados de forma abusiva, como os são pela imprensa em geral, viram garrafas vazias, pura forma. E o que já era infundado e impreciso torna-se completamente abstrato, revelando sua verdadeira origem: discurso forjado nos seios fartos dos interesses particulares e, posteriormente, elevados à condição de verdades universais.

Alusivamente, o fenômeno da rotinização da mercadoria-palavra assemelha-se a brincadeira de repetir, em voz alta, uma mesma palavra até ela esgotar o seu sentido.

Acreditamos que o mesmo ocorre com o conceito de globalização que, em poucos anos, entrou no repertório conceitual das massas, sem sequer anunciar a sua genealogia e historicidade. Pior: foi transformado em determinismo explicativo da nossa contemporaneidade pelas mais novas vedetes da mídia eletrônica: o sociólogo e o economista.

E não parou por aí: fez escola, inaugurando um estilo de escrita que, em pouco tempo, desembocou em clichê literário. Há algumas décadas, tornou-se muito comum ler artigos de jornal com frases do tipo: “em tempo de globalização”, “o mundo globalizado”, “com a globalização” entre outros que, no entrecho, cumpriam o papel de tudo explicar e nada explicar. Mas que no cômputo geral serviram e ainda servem para aumentar a confusão em torno dos fenômenos abordados.

Talvez seja a confusão nada mais que uma estratégia dos grandes beneficiários da Nova (Des) Ordem Mundial para preservarem e multiplicarem os seus privilégios aqui na terra. Até meados do século 20, a idéia imperialista era dividir para dominar, mas notamos que, de lá para cá, com o apoio das novas tecnologias de informação, a estratégia mudou: a idéia agora é confundir para conquistar.

Não nos deixemos ludibriar pelo canto da sereia. Dediquemo-nos, além da produção de conceitos teóricos, a uma postura crítica em relação à participação do intelectual no campo de poder da mídia. Mesmo porque, caso os argumentos anteriores não convençam, não existe nada mais servil que reproduzir o discurso do dominador.


JOSÉ APÓSTOLO NETTO

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Bibliografia

ADORNO, T. W. Sociologia. Org. Gabriel Cohn. São Paulo: Editora Ática, 1994

BORDIEU, Pierre. As Regras da Arte: gênese e estrutura do campo literário. Trad.: Maria Lucia Machado. São Paulo: Cia das Letras, 1996

FOUCALT, Michel. As Palavras e as Coisas: uma arqueologia das ciências humanas. Trad.: Salma Tannus Muchail. 6 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992

GUATARRI, Félix. Revolução molecular. Pulsações políticas do desejo. Trad.: Suly Rolnik. São Paulo: Brasiliense, 1981


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