Por EVA PAULINO BUENO
Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teachi ng in Japan (JPGS, 2003).

 

As feias que me perdoem, mas...

 

Quando fui à Tailândia pela primeira vez, em 1999, aprendi que nem todo mundo que mora numa tribo é índio. Também não é branco. Na Tailândia, país localizado ao norte da Malásia, encostado na Indonésia, Vietnam, Myanmar (antiga Burma), e China, os moradores nas “Hill Tribes” – “Tribos das Colina”s – não são índios. Eles são gente de várias procedências na Ásia, exilados, fugitivos deste ou daquele sistema político (principalmente da China), migrantes que chegaram à Tailândia e por lá ficaram, constituindo-se nas várias minorias étnicas do país. A história da presença dessas “Tribos das Colinas” na Tailândia é complexa e fascinante. Sua situação política dentro da Tailândia também é extremamente complicada, porque eles não têm a cidadania tailandesa, e muitos começaram a reclamar de terem que levar consigo sempre sua “carteira de identidade” que identifica a tribo de origem, e indica quando podem sair e onde podem ir.

A maior concentração destas tribos é na região norte da Tailândia, especialmente na região próxima à cidade de Chiang Mai, um centro turístico e comercial localizado a um dia de viagem por trem de Bangkok. Também há tribos perto da cidade de Chiang Rai, que fica ao Norte de Chiang Mai. Há outras em cidadezinhas como Tha Tong, Mae Sai, e Mae Hong Song.

Embora as tribos da Tailândia tenham algumas características em comum — e a maior dela é que todos eles foram, em algum tempo, refugiados que encontraram abrigo na Tailândia — elas são todas diferentes em tipo físico, língua e cultura.

Um dos grupos mais importantes é o dos Hmong, que vieram da China. Os membros deste grupo cultivam a papoula. Sim, aquela mesma que produz a heroína. Os Hmong usam uma parte da flor para suas cerimônias religiosas, e o governo da Tailândia lhes deu permissão especial para cultivar esta planta. Mas se algum membro da tribo é encontrado for a da comunidade com a papoula, é preso imediatamente, e a comunidade inteira sofre conseqüências. As pessoas Hmong com quem conversei não queriam discutir o assunto, mas pelo que tudo indica eles só produzem mesmo para suas cerimônias.

Outros grupos, como os Lanna, Akha, Padaung, trabalham com prata e outros materiais para produzir não somente suas próprias roupas e ornamentos, mas também para vendê-los em feiras nas cidadezinhas, ou mesmo nas próprias aldeias, que têm partes dedicadas exclusivamente ao comércio. Alguns membros da família real, especialmente a mãe da rainha (que morreu há alguns anos), tem um carinho especial por eles, e desenvolvem projetos especiais para mantê-los empregados, participando da sociedade. Cada um destes grupos merece uma apresentação especial, mas desta vez o grupo em que quero concentrar-me é a nação Karen.

De acordo com a literatura sobre as Tribos da Tailândia, a maioria dos grupos Karen vive nas colinas do leste de Burma. Não se sabe há quanto tempo eles moram nesta região, mas como as línguas Karen parecem estar relacionadas com a língua tibetana-burmesa, é possível que eles tenham vindo do norte da Ásia há muito tempo. A presença dos Karen na Tailândia data somente do século XVIII, quando o príncipe Kwaila mandou expedições para trazê-los à região de Chiang Mai, Mae Hong Son, e Lamphun. Destes lugares, eles se espalharam a outras regiões da Tailândia.

Na nação Karen há bastante diversidade, tanto nas vestimentas como nos costumes tradicionais. O grupo que mais me fascinou durante minha viagem foi o grupo conhecido como “Long Neck Karen,” ou “Karen do Pescoço Comprido,” que vive em Mae Hong Sorn. Poucos grupos no mundo exemplificam o fato de que a beleza não é um conceito universal.

Neste grupo, quando a menina atinge os cinco anos de idade, a mãe, juntamente com outras mulheres da comunidade, colocam argolas de bronze em volta do pescoço da garota. À medida que a menina cresce, mais argolas são colocadas. O resultado final seria, para nossos padrões de beleza, no mínimo bizarro. Quando estas mulheres atingem a idade adulta, parecem ter o pescoço extremamente comprido, e por isso em algumas informações turísticas do país elas são chamadas “mulheres girafa.”

Durante minha visita, tive a oportunidade de assistir um documentário sobre a estrutura óssea das mulheres Karen. Elas teriam realmente o pescoço alongado? Será que os ossos que sustentam a cabeça teriam ficado maiores? Teria algum tecido esponjoso se formado entre as vértebras devido ao espaço aberto pelo uso das argolas? De acordo com exames de raios X mostrados no documentário, o que as argolas fazem é deformar a clavícula, e fazer com que o pescoço das mulheres pareça mais comprido, quando na realidade, é o seu ombro que é pressionado para baixo.

Então, é claro, o que estas mulheres têm que sofrer é a lenta deformação de seu corpo para atingir um ideal de beleza que só têm validade dentro do grupo delas. Ouvi alguém aí suspirar e dizer isto é um absurdo?

Mas, um momento, senhoras e senhores. Antes que comecemos a descartar os costumes dos Karen como uma barbaridade contra as mulheres, basta dar uma olhada rápida nos costumes das mulheres ocidentais. Podemos mencionar, por exemplo, a tortura diária de andar com sapatos de saltos altos, depilar as sobrancelhas, depilar as pernas e axilas com ceras dos mais variados tipos (todos dolorosos), produtos químicos para esticar, enrolar, alourar ou escurecer o cabelo, horas e mais horas na academia tentando aumentar isso, diminuir aquilo, sem mencionar as operações plásticas para mudar várias partes do corpo para fazê-las conforme um ideal de beleza muitas vezes completamente alheio ao nosso tipo físico. E dá-lhe silicone, e botox, e outras substâncias que estão inventando dia a dia. E não podemos esquecer de outras coisas a que as mulheres se sujeitam (ou têm que sujeitar-se) em várias outras culturas não ocidentais, como a mutilação genital em alguns lugares na África, ou o antigo costume chinês de amarrar os pezinhos das meninas para que ficassem pequenos, “pés de lírio.”

Desta rápida discussão, acho que podemos chegar a algumas conclusões. Uma delas: quer aqui como ali ou acolá, a beleza é um conceito puramente cultural, portanto mutável, e às vezes, cruel, e doloroso. Uma outra: as mulheres sempre acabam tendo o conceito de beleza da sua cultura escrito nos seus corpos. Talvez, para os Karen, a rebolante garota de Ipanema (vinda de qualquer praia, bairro, estado,etc), seria considerada a pata feia da tribo, com seu pescocinho sem definição alguma. Acho que uma outra conclusão que se pode tirar é que especialmente para a mulher, admitir o próprio corpo do jeito que ele é requer uma tonelada de segurança, auto-confiança, força interior que vai muito além da necessidade de conformar-se à opinião dos outros. As bonitas que me perdoem, mas...

EVA PAULINO BUENO

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