Por EVA PAULINO BUENO
Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teachi ng in Japan (JPGS, 2003).

 

Epidemia e terrorismo

 

Kin Cheung/ReutersCom a aproximação das férias de verão nos meses de junho e julho, os estudantes universitários aqui nos Estados Unidos se preparam para voltar para a casa dos pais, e para arrumar um emprego de verão. Este é um tempo também um pouco angustiado por aqui, com muitos dos estudantes passando as noites em claro, tentando aprender de última hora o que não aprenderam durante o semestre. Nesta última característica, acho que alunos no mundo inteiro são todos iguais.

Aqui em St. Mary’s University, com a nossa população estudantil que vem principalmente de cidades texanas próximas, este também é um período em que é comum ver-se grupos de jovens combinando encontrar-se na nossa cidade praiana mais próxima, Corpus Christi. Outros grupos se juntam para passar informações de possíveis empregos. Enfim, apesar dos exames finais que se aproximam, há um ar de quase festa em todos os corredores e pracinhas do campus.

Por isso estranhei que uma de minhas alunas, Ivy, um dia desses chegou à sala de aula acabrunhada. Ela sempre foi alegre, entusiasmada, pronta pra oferecer suas opiniões e participar da aula. No fim da aula, enquanto os outros alunos saíam, perguntei a Ivy se ela estava bem. Ela disse que sim. Então eu lhe perguntei se ia passar o verão com a família. De repente, foi como se uma represa tivesse explodido, e esta mocinha, em geral tão alegre, começou a chorar e dizer que a família não quer que ela volte pra casa neste verão.

A família de Ivy mora em Hong Kong. Ela me disse que tanto a mãe como o pai lhe haviam proibido de voltar para casa por causa da epidemia de pneumonia que está avassalando a cidade. "Meus pais não querem que eu volte agora, e não sabem quando vamos poder nos ver, se esta epidemia continua. Eu estou preocupada por eles, e eles não querem que eu me arrisque."

O caso de minha aluna não é único, logicamente. Em várias partes do mundo pessoas originárias da China estão impossibilitadas de voltar para suas casas. Chamada SARS–Severe Acute Respiratory Syndrome--nos países de língua inglesa, esta epidemia começou na China em novembro do ano passado. O potencial mortífero da doença não foi detectado, e a doença começou a se espalhar em progressão geométrica. Agora quase todos os países do mundo têm casos da pneumonia asiática. Seis por cento dos que contraem a doença morrem.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde alguns países estão em na categoria de lugares a serem evitados, devido ao alto índice de transmissão da doença. Esta semana de 21 a 25 de abril, quando escrevo este texto, viu vários protestos da cidade de Toronto, onde já algumas pessoas morreram da pneumonia asiática. Ao verem sua cidade colocada na lista da OMS, administradores de Toronto argumentaram que a epidemia está sob controle.

Mas como controlar uma doença que nem os médicos dos hospitais mais avançados sabem definir exatamente? Ao que tudo indica, a síndrome respiratória aguda severa é uma mutação do vírus que causa o resfriado comum. Mas esta mutação parece ter vindo da incorporação de um vírus que vem de porcos, e um que vem de galinhas. E, para fazer tudo ainda mais complicado, os trabalhadores em hospitais (médicos, enfermeiros, funcionários) tem sido a população mais afetada. Este fim de semana, o governo chinês cercou e colocou em quarentena mais dois hospitais na cidade de Pequim: um total de mais de 4 mil pessoas, entre os trabalhadores e os pacientes destes hospitais têm que ficar retidas até que se abata a doença.

Outras medidas drásticas: nos aeroportos internacionais de várias cidades no mundo inteiro, os passageiros chegados de países onde há alta incidência da doença têm que preencher um formulário onde indicam se tiveram os sintomas. Em outros lugares, os passageiros são saudados por um exército de enfermeiras que tomam a temperatura de cada um e os entrevistam para saber se apresentaram os sintomas da doença.

Mas estas coisas são conhecidas em quase todo mundo, e creio que até no Brasil o interesse pelo assunto aumentou desde que se diagnosticaram dois casos no país. O que me interessa mais, aqui, é traçar um paralelo entre esta epidemia e a epidemia de terrorismo que vem avassalando o mundo.

Quando os dois aviões se chocaram contra o World Trade Center em Nova Iorque, o mundo inteiro viu a forma espetacular do terrorismo, e suas terríveis imagens. Aquele ataque, ocorrido numa das cidades mais ricas do mundo, o centro nervoso e financeiro dos Estados Unidos, afetou gente dos confins do planeta. Quantos pastores de rebanhos no Afeganistão (pra tomar este exemplo apenas), tiveram seu modo de vida, suas vidas, destruídos pela guerra em busca de Bin Laden? A linha entre Nova Iorque e aquelas aldeias afegãs não poderia ter sido mais direta.

Agora, uma doença que se desenvolveu nos confins ultra-subdesenvolvidos da China, foi nutrida pela necessidade do governo chinês de ignorar muitas das coisas que afetam a sua população, sua mania de impor silêncio a tudo que não lhe agrada (o caso de como a AIDS se espalhou pelas áreas mais pobres da China através da coleta e redistribuição de sangue é um crime que ainda não foi punido) está afetando o mundo inteiro, inclusive uma cidade rica como Toronto, no Canadá. E a epidemia não dá sinal de parar.

Com a epidemia, aliada às tensões provocadas pela guerra contra o Iraque, a economia mundial certamente vai sofrer danos. No nível humano, há já várias histórias que nos fazem repensar o sentido da responsabilidade de administradores de todos os países. No caso específico desta epidemia, o descaso e a arrogância de alguns, na China, agora estão afetando pessoas como minha aluna Ivy, ou como um amigo australiano que trabalha em Singapura, e agora não tem coragem de voltar ao seu país porque tem medo de, sem saber, levar o vírus consigo para sua família.

Quase já não se fala mais em globalização, pelo menos aqui nos Estados Unidos, desde que Bush se elegeu. O que esta epidemia assim como os ataques terroristas no mundo inteiro demonstram é que a globalização é um fato. Já ninguém pode assumir que o que se faz em uma aldeia pode ficar naquela aldeia. Mas talvez este momento de grande medo tenha, a longo prazo, um impacto positivo. Se nenhum homem ou mulher é uma ilha, a gora está mais do que claro que nenhum país é uma ilha também.

Quanto à minha aluna Ivy, penso que vou passar este verão conversando com ela um pouco mais sobre a China, e tentando saber como ela – que mal lembra quando Hong Kong pertencia à Inglaterra – vê estas questões todas. Vou aproveitar para falar com ela sobre o Brasil, do qual ela só conhece o de costume: futebol e carnaval. Já é um bom começo.

 

EVA PAULINO BUENO

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