Por WALTER LÚCIO DE ALENCAR PRAXEDES

Doutor em Educação pela USP e professor de sociologia na Universidade Estadual de Maringá e Faculdades Nobel. É co-autor dos livros O Mercosul e a sociedade global (12ª Ed. 2002) e Dom Hélder Câmara: entre o poder e a profecia (1997)

 

Transnacionais, globalização e trabalho escravo na Segunda Guerra Mundial

 

Stalin, Roosevelt e Churchill: encontro no Irã, em 1943Muito se fala em globalização, mas nem todos entenderam que o termo surgiu para dar nome ao processo de expansão das grandes empresas existentes no mundo, principalmente nos países mais ricos do hemisfério norte.

Somente as 500 maiores empresas do mundo faturaram 5 trilhões de dólares em 1992. É muita riqueza controlada por pouca gente.

Em 1994, as 10 maiores destas empresas, 7 do Japão, 3 dos Estados Unidos e uma da Europa, faturaram 1 trilhão e 400 bilhões de dólares. Isto representava muito mais do que o PIB (soma dos bens e serviços produzidos anualmente em cada país) de toda a América Latina e Caribe no mesmo ano.

Vamos discutir um pouco mais sobre como atuam as empresas transnacionais:

1.       Na lista dos dez conglomerados de empresas transnacionais que mais faturaram em todo o mundo no ano de 1994, nos dois primeiros lugares encontramos os grupos Mitsubishi e Mitsui, de origem japonesa;

2.       Numa reportagem do Jornal Folha de São Paulo, de 9 de dezembro de 1999, os dois conglomerados estão também em outra lista. Desta vez aparecem entre as principais empresas acionadas judicialmente por pessoas que foram vítimas de trabalho escravo durante a Segunda Guerra Mundial. Segundo consta, muitos milhares de prisioneiros de guerra foram "cedidos pelo Exército japonês para serem usados por empresas privadas na mineração, na siderurgia e na construção em áreas ocupadas";

3.       Mitsubishi e Mitsui hoje estão entre os respeitáveis gigantes que promovem a globalização da economia mundial;

4.       Diretamente envolvidas com trabalho escravo, desta vez na Alemanha da época do nazismo, vamos encontrar mais dois conglomerados que constam da lista dos dez que mais faturaram em 1994, Ford e General Motors, e um gigante do mercado financeiro internacional, o Chase Manhattan;

5.       A colaboração da Ford, com o aval direto da família Ford, ficou mais conhecida internacionalmente: "A Ford colaborou de bom grado com os nazistas, e isso ao mesmo tempo fortaleceu muito suas perspectivas econômicas e ajudou Hitler a preparar-se para a guerra (e, após a invasão da Polônia, em 1939, a conduzi-la)", escreveu Ken Silverstein em artigo reproduzido pelo Jornal Folha de São Paulo de 27/02/2000;

6.       Franceses, russos, ucranianos e belgas trabalhavam na fábrica da Ford na Alemanha por  12 horas por dia, com apenas um intervalo de 15 minutos, tendo como alimentação diária uma xícara de café puro e 200 gramas de pão pela manhã, nada no almoço e três batatas com espinafre no jantar;

7.       Graças ao trabalho escravo dos prisioneiros a Ford  "tornou-se uma das maiores fornecedoras de veículos do Exército alemão";

8.       Além dos três conglomerados de origem norte-americana mencionados acima, dezenas de outras empresas multinacionais, dentre as quais a Bayer, BMW, Volkswagen e Daimler-Chrysler colaboraram ativamente com o regime nazista e se utilizaram do trabalho dos prisioneiros dos campos de concentração.

***

Ao avaliarmos a riqueza e o poder concentrados por essas mesmas empresas na sociedade global construída após a Segunda Guerra Mundial pode-se concluir que o crime compensou!

Para entendermos as razões que motivaram os executivos das transnacionais a promoverem, ontem, a desumanidade do nazismo, e, hoje, a desumanidade da globalização, no Relatório do Desenvolvimento Humano 1999, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, aparece uma excelente explicação:

"Quando as motivações de lucro dos atores do mercado ficam fora de controle, desafiam a ética das pessoas e sacrificam o respeito pela justiça e direitos humanos."

 

 

WALTER LÚCIO DE ALENCAR PRAXEDES

     

 


http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2003 - Todos os direitos reservados