RESENHA

Maurício Tragtenberg: Uma vida para as Ciências Humanas

Doris Accioly e Silva e Sonia Alem Marrach (Organizadoras)

São Paulo: Editora UNESP, 2001

327 p.


Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Professor no Departamento de Ciências Sociais (UEM) e doutorando na Faculdade de Educação (USP)

 

A difícil arte do elogio

“E o pior de tudo é a impertinência ocasional e antes inocente, tão típica dos adoradores profissionais que se encontram em torno da maioria das celebridades.” (Hannah Arendt)

Em 1998, entidades vinculadas à USP, Unicamp e  Unesp, mais a Adusp e a Fundação Perseu Abramo, organizaram o evento Pensamento e militância em homenagem a Antonio Candido. O homenageado resistiu à idéia e condicionou a sua participação ao compromisso de que não se falaria dele nem da sua obra, a não ser em situações inevitáveis, como na abertura do evento. Sua obra e experiência de vida foram definidores dos temas abordados e discutidos.

Eis um raro exemplo altruísta num meio em que, via de regra, arde a fogueira das vaidades. Porém, o desprendimento do homenageado gera dificuldades aos que homenageiam: como controlar as emoções quando a admiração e a estima encontram-se no tênue limite entre a manifestação de estima e o culto à personalidade? É possível, quando falamos e escrevemos sobre os que gostamos e admiramos, evitar a apologia?

Não esqueço a experiência de ler a biografia de Karl Marx, publicada sob os auspícios do Instituto de Marxismo-Leninismo vinculado ao Comitê Central do PCUS: à medida que avançava a leitura tinha a impressão de que Karl Marx não era humano mas quem sabe um desses heróis que permeiam a imaginação dos homens e mulheres comuns. Embora jovem tinha senso crítico suficiente para diferenciar o reconhecimento factual da mistificação apologética. Parei de ler o tal livro e só voltei a me dedicar à leitura de obras biográficas no período atual e por obrigação do ofício de pesquisador...

Se os vivos não conseguem impor limites à maneira como sua obra é incorporada por leitores, interpretadores e eventuais discípulos, a obra dos mortos fica à mercê das interpretações e usos dos epígonos. O legado das celebridades periga se tornar um bem simbólico disputável no mercado. O alcance da influência da obra dos intelectuais de relevo coloca o problema da apropriação e sacralização do seu discurso. Sua herança pode transformar-se em argumento de autoridade e objeto de disputa e corre-se o risco do autor ser alçado ao status de profeta, fundador de uma ordem sacerdotal. O ‘discípulo’, membro desta ordem fictícia ou real, posa de “guardião da autoridade da mensagem” e tem a pretensão de delimitar o que é verdadeiro — ou seja, sua interpretação sacerdotal da obra do mestre — instituindo as dualidades entre as leituras legítimas e as ilegítimas. Como alerta BOURDIEU (1996: 160), “o eu sacerdotal deriva sua autoridade do profeta de origem”.

Todo autor cuja obra ganha destaque arrisca-se, ainda que não seja a sua intenção, a conquistar discípulos. O reconhecimento do seu valor e a merecida homenagem comporta duplo perigo: reprodução acrítica e a bajulação intelectual - fenômenos nem sempre perceptíveis pelos que os praticam. A repetição de conceitos, frases e fórmulas, pode parecer o meio correto para a preservação da mensagem legada; a lisonja pode se confundir com a estima. De qualquer forma, é compreensível que assim seja: muitas vezes, constituem formas de sublimação da dor que sentimos com a perda daquele que consideramos o mestre.

A atitude idólatra do discípulo concede ao texto um caráter dogmático e hagiográfico. Isso dificulta o debate científico e tornam imperceptíveis a riqueza da sua obra e os caminhos apontados pelo autor. A melhor homenagem que podemos prestar a um autor é, a partir do seu reconhecimento, tentar ir além dele – tarefa dificílima e nem sempre possível. Por mais que gostemos de um autor, por mais que o respeitemos, devemos superar a relação de encanto e manter a postura crítica: o contrário é desqualificá-lo. A estima não deve ser confundida com a bajulação.

A veneração não é o melhor caminho para se analisar ou homenagear um autor. Há momentos em que é preciso praticar, à maneira freudiana, uma espécie de assassinato da figura paterna. Isso significa romper com a tendência de transformar homens em heróis, em tratar a sua vida e obra de maneira hagiográfica e de subtraí-los do mundo dos homens comuns, repletos de acertos e erros. Não é fácil: corre-se o risco da incompreensão e de ser declarado infiel ou traidor.

Essas reflexões não imputam equívocos aos que fazem a merecida homenagem a Maurício Tragtenberg, e sim, expressam a angústia inquietante e individual de quem abraça o desafio de resgatar, compreender, analisar e contribuir para o registro histórico do legado de Maurício Tragtenberg.

As homenagens são necessárias e uma maneira eficaz de não se impor a segunda morte à qual todos estamos sujeitos: o esquecimento. Maurício Tragtenberg: Uma vida para as Ciências Humanas, organizado por Doris Accioly e Silva e Sonia Alem Marrach, cumpre esse objetivo. Essa obra reúne depoimentos e análises sobre Maurício Tragtenberg e constitui uma contribuição fundamental aos que não o conheceram, aos que lembram-no com saudades e aos que desejem aprender e aprofundar, a partir da senda aberta por sua produção intelectual. Por outro lado, sintetiza o dilema do ato de homenagear

Maurício Tragtenberg: Uma vida para as Ciências Humanas, resulta de um evento promovido na Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp (Campus de Marília/SP), nos dias 23 a 27 de agosto de 1999, e foi organizado em três partes: na primeira, reproduz-se parte das memórias autobiográficas do homenageado e publicam-se depoimentos de amigos dos idos da juventude à maturidade.

Na segunda parte, analisa-se a contribuição da obra de Maurício Tragtenberg às Ciências Humanas. Aqui os autores debruçam-se sobre temas como: a autogestão, a burocracia e as teorias administrativas, suas leituras da obra de Rosa de Luxemburgo e Marcuse, a sua contribuição na área da educação, a universidade e a política; chama-se a atenção para o caráter heterodoxo, herético e libertário do seu pensamento e ação política e até mesmo para a sua influência pioneira a respeito de autores desconhecidos no Brasil.

Na última parte, os autores analisam a relação entre a teoria e a prática e a busca incessante da difícil coerência entre ambas. Um aspecto assinalado é a preocupação ética de Maurício Tragtenberg e a solidariedade expressada em suas relações pessoais, como intelectual e militante. A sua generosidade é um valor reconhecido por todos os que o conheceram: a solidariedade orientou a sua conduta.

As homenagens prestadas, ainda que necessárias, cobram o preço da emoção. Quanto maior o envolvimento emocional maior o tributo que pagamos. Mas os homens e mulheres não são apenas razão, mas também sentimentos. Em certas circunstâncias, o equilíbrio entre razão e sensibilidade é muito difícil – e ainda bem! Maurício Tragtenberg: Uma vida para as Ciências Humanas é uma obra onde a emotividade se faz presente: a análise racional se mescla com a saudade, o carinho e a estima sincera.

Como assinala as organizadoras, o conjunto de textos apresentados “constitui um balanço inicial do pensamento de Maurício Tragtenberg e aponta a necessidade de um aprofundamento nos campos da história da educação, da sociologia e da história das idéias”. (p. 10)

Maurício Tragtenberg mereceu esse livro; o leitor também...

 

ANTONIO OZAÍ DA SILVA
     

Bibliografia

AGUIAR, Flávio. (Org.) (1999) Antonio Candido: Pensamento e Militância. São Paulo: Ed. Fundação Perseu Abramo; Humanitas/FFLCH/USP.

ARENDT, Hannah. (1999). Homens em tempos sombrios. São Paulo: Companhia das Letras.

BOURDIEU, Pierre. (1996) Economia das trocas lingüísticas: o que falar quer dizer. São Paulo: EDUSP.

TRAGTENBERG, Maurício. (1999) Memórias de um autodidata no Brasil. São Paulo, Escuta. (Organizado por Sonia Alem Marrach)


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