Por RAYMUNDO DE LIMA
Psicanalista, Professor do Departamento de Fundamentos da Educação (UEM) e doutorando na Faculdade de Educação (USP)

 

A invasão anglo-americana e o nazi-fascismo: algumas semelhanças

 

“Na guerra, o que se perde jamais é recuperadoJoel Silveira, repórter na 2ª Guerra Mundial

Muitos analistas estão dizendo que a atual invasão anglo-americana ao Iraque é uma “loucura”. Ao nosso juízo, a guerra não é um ato irracional, na medida em que cada vez mais ela exige diversos tipos de inteligência para implementar a logística, a estratégia, a tática junto com o emprego da tecnologia operacional, todos esses fatores visam destruir, esvaziar o moral dos supostos inimigos e vencer as batalhas.

Se por um lado, a guerra não um ato irracional, por outro, ela também não é totalmente racional.  Freud chegou a ver nesse ato uma forma de psicose coletiva, e como sabemos onde existe psicose – individual ou coletiva - existe sim a constatação de doença mental, mas não necessariamente deixa de existir a participação da inteligência. Evidentemente que nas guerras há um período de tempo em que grupos humanos retrocedem ao estágio mais atrasado e baixo de sabedoria, imperando nesse lugar as piores paixões sobre as razões.  Depreende-se que a alta tecnologia, o raciocínio estratégico e o discurso pseudo libertário e humanitário contemporâneos, não representam que o ser humano verdadeiramente avançou em termos de sabedoria, muito pelo contrário. Noutros termos, o avanço na dimensão do conhecimento científico e tecnológico quase que boicotou os avanços da sabedoria, haja vista a mediocridade e falta preparo da diplomacia norte-americana. 

Alguém disse que os generais sabem como começar uma guerra, mas ninguém sabe como terminar. E, a verdade é a primeira vítima numa guerra. Portanto, é pura retórica enganosa da estratégia dos “falcões” do governo G. W. Bush, quando no seu início prometia  “uma guerra curta”, “preventiva”, com “ataques cirúrgicos” para “libertar” o povo do ditador iraquiano. Hoje já se fala de que “guerra vai durar o tempo necessário”, isto é, será longa e cruel para com o povo iraquiano e qualquer outro que se meter nesse conflito. Será dura também para os soldados da “coalizão”, pois como disse H. C. Hoover, “os homens idosos declaram as guerras, mas são os jovens que têm que lutar e morrer”.

O fundamentalismo cristão que sustenta o governo do aiatolá cristão G. W.Bush, carrega no seu fundo o “protofascismo” [1] , (U. Eco, 1995). Tal ideologia se ramifica em vários setores chegando ao sistema midiático norte-americano, sonegando informação das perdas de vidas dos jovens e faltando com a verdade sobre as vítimas civis. Também ambicionaram ideologizar a educação das novas gerações, segundo um falso moralismo puritano, o  patriotismo fanático, cheio de ‘Heróis” e “Super Heróis” defensores da América –  só para os americanos. Essa ideologia sutilmente vem desprezando os mais fracos do mundo, incluso nesse grupo os pacifistas, os africanos, os pobres do mundo, todos os que rejeitam o modo de viver americano e, as organizações e tratados que representam a “sabedoria” da sobrevivência do planeta. 

Há também um fato mundial novo. O crescente anti-americanismo. Os EUA – principalmente a direita evangélica fundamentalista - querem ser vistos como defensores do “bem” e da “liberdade” e até do meio ambiente (eles ou são tão mal informados, não sabem que foram os EUA que não assinaram o tratado de Kyoto, ou vivem de auto-enganos); estão tão convictos de sua “boa intenção” nessas invasões que não entendem os motivos de defesa legítima do povo. (Se os EUA, a pretexto de combater o narcotráfico ou defender a Amazônia da derrubada predatória daquela floresta, invadissem aquela área grande brasileira, será  que também nós – brasileiros –não estaríamos dispostos a lutar contra os invasores?). Os americanos ficam surpreendidos quando ficam sabendo que o povo da Coréia do Sul querem que os EUA sumam de vez de seu país [2] .  Parecem desconhecer o significado de soberania e de autonomia de um povo desejar ou amadurecer para se livrar de “seu” ditador.

Bom seria se, a exemplo da tática de M. Gandhi, se esses sentimentos fossem traduzidos em ações de boicote aos produtos símbolos do capitalismo americano, tais como a Coca-cola, o McDonald, os filmes, etc... Mas, existe um problema: se tal boicote for levado ao extremo, também deveríamos boicotar muitos remédios, aparelhos hospitalares e mesmo algumas idéias e métodos tipicamente americanos que hoje dominam o meio universitário brasileiro? Será que as pessoas ainda estão preparadas para viver sem consumir esses produtos ideologizados?

Observa-se cada vez mais que, muitos que tiveram pena dos norte-americanos vitimados nos ataques de 11 de setembro de 2001, hoje quase-desejam uma nova edição terrorista, porque parece ser o único modo de retaliação para com a nação mais poderosa do mundo. O conteúdo das declarações de Bin Laden, hoje parece ter mais sentido, mesmo não concordando com seu método de luta.

Ë isso. Voltando a Freud, ele disse que  todos os empreendimentos humanos, “a guerra confunde as inteligências humanas mais lúcidas”. Contra ou a favor ficamos meio confusos diante da guerra. Geralmente a posição “a favor” da guerra, não se importa com o com o montante de vidas injustamente perdidas, o patrimônio histórico da humanidade destruído e as seqüelas que ficam para sempre na alma da nação atingida. A própria ciência – tida em tempos de paz como o exemplo de racionalidade e neutralidade – no período de guerra perde sua imparcialidade e neutralidade, e se revela um instrumento muito perigoso nas mãos dos mais fortes.

Semelhanças com o nazi-fascimo

Os atos de guerra da chamada “doutrina preventiva” idealizada por Paul Wolfowitz, o número um dos  “falcões” (neo conservadores ou neo fascistas) do governo direitista do aiatolá cristão G W. Bush, lembram o comportamento dos nazistas alemães, senão vejamos alguns pontos:

a) na auto promoção de ser escolhido por Deus para levar o Bem ao mundo;

b) na crença de serem os eternos lutadores agentes do “bem” contra o “mal”;

 b) nas ações objetivas de guerra de “grande missão” são decorrentes de fantasias ou delírios de perseguição [3] ;

 c) de desejar ser ‘o país mais forte do mundo”, tal como a Alemanha nazista também aspirava ser a nação mais forte do mundo, hoje são os EUA que já são “um império”, segundo os analistas. Hitler com toda a sua arrogância ariana escreveu: “o mais forte tem que dominar e não se misturar com o mais fraco, e assim sacrificar sua grandeza (Hitler, “Minha luta”, citado por S. Becker, 1999, p. 145).

Não é sem sentido que muitos cartazes usados nas manifestações em todo o mundo aparecem desenhados a suástica (ou cruz gamada dos nazistas) na bandeira norte-americana e a imagem de Hitler vir associado a imagem do G. W. Bush usando um bigodinho.

Outro detalhe de semelhança entre Hitler e G. W. Bush: “a luta pessoal se transforma em luta nacional”. Se Hitler soube captar o “espírito alemão” da época, fazendo com que o estado nazista defendesse como princípio a superioridade da raça ariana, os EUA de hoje ao demonstrar sua hegemonia, sua presença bélica em várias partes do mundo, transmitem ao seu povo, principalmente aos jovens, que a superioridade militar vale muito mais do que a capacidade política-diplomática. Ensina que em lugar da palavra – da política – devemos  exercer a força; em vez do respeito aos tratados, organizações (ONU) e demais princípios (multilateralismo) vale mais o unilateralismo. Ou seja, sendo “superior” aos demais estados, os EUA não precisam de ninguém para atacar qualquer país, mesmo que para isso seja odiado pela maioria dos povos do mundo. E esse exemplo ser estendido a várias situações [4] , da geopolítica às nossas complicadas relações humanas.

Enfim, penso que tal quadro narcísico onipotencial dos EUA de hoje se aproxima muito do estado narcísico prepotente do fascismo de Mussolini ao invadir a Abissínia usando equipamentos bélicos modernos, inclusive gases tóxicos, e da Alemanha nazista-racista de Hitler, fanatizada pela idéia de  superioridade da raça ariana, levando-a a perseguir e assassinar judeus, ciganos, homossexuais, comunistas, e desprezar as cláusulas do tratado de paz sobre o território do Saar, ocupou essa região sem que houvesse reação das potências ocidentais [5] .

O fator complicador nessa comparação entre a invasão anglo-americana e o nazi-fascismo é: Por que será que a política dos EUA hoje faz vistas grossas aos contínuos crimes de Israel que jamais distinguiu um militante suicida de civis? Uma resposta pseudo moral e aparentemente ridícula vem se firmando no grupo de direita evangélica do governo do aiatolá cristão Bush. Eles esperam que os judeus se convertam ao cristianismo “renovado”. 

Ora, esperar que os judeus se convertam tão docilmente ao “cristianismo renovado”, é uma estratégia tão ingênua como acreditar que os iraquianos não vão lutar contra os invasores de seu país ou que receberiam os “libertadores” com alegria e festa. Essa estratégia apesar de ridícula tem causado sérias reações de repulsa no meio judaico, segundo a reportagem do “60 minutos”. Afinal, a longa história dos judeus, mesmo ofuscada com os atos criminosos da ultra direita de Sharon, tem muitos elementos a seu favor, para se prevenir contra mais essa ideologia de dominação neo fascista norte americana.

 

 

RAYMUNDO DE LIMA

     

[1] Para o protofascista (sic!), “o pacifismo é um mal porque a vida é uma guerra permanente”  (U. Eco, 1995, p. 5)

[2] O programa norte-americano  “60 minutos” constatou junto aos coreanos do Sul, uma nova geração anti-americana. Declaram que temem muito mais  “a loucura” de um Bush do que do ditador da Coréia do Norte. Além do mais,  ambos os povos se pensam enquanto “Coréia” , rejeitando “do Sul” ou “do Note” e desejam veementemente que os americanos volte para suas casas.

[3]   Michel Moore, ao receber o Oscar 2003, foi duplamente corajoso: ao fazer o documentário que mexe no lobby pró armas  nos EUA,  e também ao declarar quando recebeu o prêmio: “temos  um presidente de ficção, eleito segundo um resultado fictício, levando o país para uma guerra por motivos fictícios”.

[4]   A invasão norte-americana à pretexto de fazer uma “guerra preventiva” contra armas químicas e de “libertar” o povo da ditadura de Sadam, abre vários precedentes, tanto para os próprios, como é caso do Irã, da Coréia do Norte, da Síria, e também de países não menos arrogantes, como é caso da China, se daria  no direito de invadir Taiwan, além de “legitimar” sua invasão ao Tibet, segundo os comunistas chineses constituía uma ameaça mística a sistema ideológico chinês; da Rússia em relação as suas “ex colônias”, etc.

[5] . Cf.: H. Hattner. Guerra e paz: por que resistir às pressões norte-americanas

_____________

Referências bibliográficas

Becker, S. A fantasia da eleição divina. Rio de Janeiro. C. de Freud, 1999.

Chomsky, n. Os combates do presente. Folha de S. Paulo-cad. Mais!, 31/01/1999.

Eco, U. Nebulosa neofascista. Folha de S. Paulo-cad. Mais!, 14/ 05/ 1995.

Freud, S. Reflexão sobre os tempos de guerra e morte. Edição Standard. Rio: Imago, 1974. vol. 14.

Hillman, J. Paranóia. Petrópolis: Vozes,1993.

___________


http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2003 - Todos os direitos reservados