Por HENRIQUE RATTNER
Professor da FEA (USP) e membro da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças (ABDL)

 

Guerra e paz: por que resistir às pressões norte-americanas [1]

 

A mídia tem noticiado diariamente a profunda divisão do mundo com relação à planejada invasão do Iraque pelas forças conjuntas dos Estados Unidos e Grã-Bretanha. O que pretendia ser mais um capítulo na cruzada contra o “eixo do mal” resultou em confrontação direta entre os governos Bush e Blair, por um lado, e o resto do mundo, por outro. Sem falar das manifestações de milhões de pessoas em diversos outros países, nos próprios Estados Unidos e Grã-Bretanha têm acontecido inúmeras manifestações contra a guerra que constituem sinais inconfundíveis do estado de espírito das populações.

Em que pesem os esforços incansáveis dos diplomatas norte-americanos no sentido de pressionar e “convencer” os representantes dos países membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas para autorizarem o ataque, o que asseguraria sua legalidade, todo esse episódio vem lançando uma luz extremamente desfavorável sobre o processo decisório e a fragilidade do sistema, supostamente democrático, das Nações Unidas. Apesar de cinco dos quinze membros do Conselho de Segurança disporem de direito a veto, os porta vozes da superpotência têm se arrogado o direito de proclamar a abertura do conflito, mesmo se os outros membros recusarem-se a votar a favor da abertura das hostilidades.

Interessante frisar que o Conselho não é formado por delegados eleitos mas por burocratas das respectivas elites dominantes, acostumados de deliberar sem considerar as opiniões populares. Afinal, uma decisão envolvendo os destinos de milhões de pessoas, que seriam inevitavelmente atingidos pela máquina militar, deveria ser submetida forçosamente à consulta popular mediante referendo. O fato do destino do mundo estar nas mãos de poucos constitui uma demonstração cabal do fracasso da chamada “democracia representativa”.

Contra a promessa de Bush de uma guerra rápida, com poucas vítimas e “efeitos colaterais”, basta lembrar a campanha recente contra o Talibã no Afeganistão que [2] completou a destruição do país e de sua infra-estrutura, já abalada desde a invasão dos exércitos da ex–União Soviética, nos anos 80. Os órgãos competentes da ONU calculam milhões de refugiados e desabrigados, sem falar dos famintos e dos mutilados em conseqüência de bombardeios e minas terrestres.

Soa hipócrita a exigência de desarmamento do Iraque após anos de fornecimento de todo o tipo de material bélico – inclusive para a fabricação de armas biológicas e químicas – pelas principais potências, compreendendo os próprios Estados Unidos. Foi a França que financiou e construiu o reator nuclear do Iraque, destruído pela aviação de Israel pouco tempo antes do início de seu funcionamento.

Inquestionavelmente, ninguém morre de simpatias por Saddam Hussein, ditador brutal e sangrento que, além de dilapidar as riquezas de seu país com a compra de armamentos, lançou-se em dois conflitos absolutamente inúteis, contra o Irã e o Kuait. Foi Hussein quem usou armas químicas contra os soldados iranianos e contra as populações curdas e shiitas, no próprio Iraque. Naquela época, nem as Nações Unidas, nem os Estados Unidos levantaram a voz para protestar porque não interessava aos norte-americanos apoiar o movimento popular em prol da autonomia curda, o que também contrariaria os interesses dos turcos e dos outros países vizinhos.

O que explicaria então o empenho dos Estados Unidos de se lançar numa guerra cujo desfecho é dificilmente previsível? Os analistas apontam alternadamente para o desejo de apoderar-se das imensas reservas de petróleo iraquianas, ou o desafio aos brios da maior potência após o desastre do World Trade Center, embora não tenha sido possível comprovar qualquer ligação entre Osama bin Laden e Saddam Hussein.

A disputa com a França e Rússia – que têm investimentos e interesses econômico-financeiros no Iraque – constitui um desafio à hegemonia dos EUA. É exatamente essa ameaça à sua hegemonia militar e econômica em um período de profunda recessão que estaria levando os dirigentes norte-americanos a brandir a espada de guerra para reafirmar sua posição imperial, interna e externamente. São inúmeros os antecedentes nos países considerados como territórios de sua influência exclusiva, na América Central, Guatemala, Panamá, El Salvador, Nicarágua; no Caribe, Granada, República Dominicana e Haiti e, na América do Sul, o apoio indisfarçado aos golpes de estado no Brasil (1964), Chile (1973) e Venezuela (2002).

Sem guerra, George W. Bush certamente perderá as próximas eleições, entretanto uma campanha militar rápida e bem sucedida, levando à deposição ou fuga de Saddam Hussein, serviria para demonstrar a superioridade militar incontestável dos EUA: Os falcões falam de uma nova era de prosperidade econômica, com o dólar em alta e a volta da confiança no potencial da economia norte-americana, com insensibilidade total quanto ao sofrimento causado a milhões de pessoas ou à possibilidade de intensificação dos movimentos terroristas.

Especialistas estimam os gastos para manter a mobilização dos 250 mil soldados atualmente estacionados nas portas do Iraque em US$ 50 bilhões anuais. A eventual reconstrução da infra-estrutura econômica e social – escolas, hospitais e universidades – exigiria outros US$ 50 bilhões. É ilusória a expectativa de utilizar receitas provenientes da futura exploração dos poços de petróleo. Segundo peritos, isso levaria até dez anos e exigiria investimentos da ordem de US$ 20 bilhões, contando que as tropas de Saddam não incendeiem os campos como fizeram em 1991 durante a Guerra do Golfo.

Contudo, a luta em 2003 não será mera repetição daquela de 1991. Os iraquianos aprenderam que não podem enfrentar a aviação e o poder de fogo superior das armas norte-americanas em campo aberto. Tentarão recuar e atrair os invasores para as cidades as quais historicamente invalidaram as vantagens da tecnologia superior. O número de vítimas, sobretudo de civis, e a destruição da infra-estrutura urbana serão enormes, o que desencadeará revoltas populares no mundo árabe–islâmico ameaçando o precário equilíbrio dos regimes autocráticos “moderados” com prováveis quedas de governo na Arábia Saudita, Kuait, Egito, Jordânia e Paquistão. Bush promete poupar os “inocentes” e instalar um regime democrático. O precedente do Afeganistão não autoriza tal conjectura.

Como o Afeganistão, o Iraque também é um país de sociedade patriarcal profundamente dividida em clãs, tribos, seitas religiosas e grupos étnicos, além da estratificação em classes sociais.

A guerra significaria também um golpe mortal nas Nações Unidas, revelando sua inoperância face às transgressões das normas internacionais. De certo modo, repetir-se-ia o destino da Liga das Nações, que desmoronou quando a Itália de Mussolini invadiu a Abissínia usando equipamentos bélicos modernos, inclusive gases tóxicos, e a Alemanha nazista, desprezando as cláusulas do tratado de paz sobre o território do Saar, ocupou essa região sem que houvesse reação das potências ocidentais.

De um ponto de vista ético, será que basta a autorização do Conselho de Segurança para atacar o Iraque? Mesmo que o Conselho aprove a nova resolução, cogitada por Tony Blair, isso não seria suficiente para legitimar a guerra, tendo em vista os esforços dos EUA para “convencer” os outros membros, recorrendo inclusive à oferta de bilhões de dólares para conseguir a aprovação do parlamento turco. As resoluções da Assembléia Geral das Nações Unidas são tomadas por quem? Não são representantes democraticamente eleitos das nações e suas decisões não estão sujeitas à aprovação e às sanções de tribunais internacionais, o que reduz sua legitimidade já bastante enfraquecida pelo poder de veto dos cinco países que detêm também armas nucleares.

Para alguns Analistas, a guerra é uma camuflagem da rivalidade histórica entre os diferentes blocos de capital na corrida pela hegemonia mundial, ilustrada pela tensão permanente entre as áreas do Dólar e do Euro. Nos últimos anos, França e Rússia investiram pesadamente no Iraque, cujas reservas externas foram convertidas de dólares para euros, e esperam um retorno que se tornaria problemático com a imposição da “ordem” norte-americana. Por outro lado, dentro da União Européia ocorreu um desafio à hegemonia franco-alemã pelo bloco liderado pela Grã-Bretanha, com o apoio de Espanha e Portugal. O que está sendo apresentado como um conflito entre as civilizações ocidental e oriental continua sendo a disputa entre as principais potências capitalistas.

Todas as manobras e discursos diplomáticos não conseguem ocultar a persistência de relações sociais e políticas assimétricas, de desigualdades e injustiças, internas a cada país e em âmbito internacional.

A guerra não deve ocultar a imensa concentração de riquezas nas mãos de poucos em regimes corruptos e violentos, cuja tendência à imposição de medidas de coerção e controle autoritárias (vide a nova legislação sobre segurança interna nos EUA) será reforçada. Além de inútil e criminosa, a guerra ceifará a vida de inúmeros jovens que lutarão no front e de civis, vítimas de “efeitos colaterais”.

A supressão da liberdade e dos direitos civis, não só dos estrangeiros mas também dos americanos é o preço inicial cobrado pelos falcões que dirigem a política norte-americana.

Resistir e deter a marcha da violência é dever de todos e constituirá o primeiro passo na construção de uma sociedade sustentável, única capaz de evitar o perigo de autodestruição da humanidade. Além dos problemas conjunturais – o desemprego, as desigualdades sociais e a deterioração do meio ambiente – é preciso também enfrentar as causas profundas de uma crise que pode levar à destruição da espécie humana e da vida no planeta. Se continuar a atual corrida de mobilização de tropas e armamentos de destruição em massa, esta se tornará um mecanismo retroalimentado que funciona com efeitos multiplicadores crescentes. Contrariamente ao que pregam os arautos da guerra e da violência, a evolução das formas superiores da vida e da espécie humana têm se realizado pela cooperação e solidariedade dos membros do grupo, desde os agrupamentos tribais primitivos até as nações modernas. A violência semeia a violência e sua rejeição consciente será um ato de fé em nosso destino de seres humanos que caminham em direção à liberdade e à fraternidade universal.

A guerra de Bush está na contramão da História!

 

 

HENRIQUE RATTNER

     

[1] Escrito em 17 de março de 2003, às vésperas da eclosão do ataque americano ao Iraque

 


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