Por CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO
Doutoranda em Filosofia (Universidade Paris X - Nanterre)

 

Marcha, soldado!

 

“Marcha, soldado…”. A marcha continua veemente, cantigas de roda transformadas em cantigas de liberdade… “Marchons! Marchons!” Brincadeiras bélicas transformadas em sangue. É a guerra que deveria ser justa, como se pudesse existir uma guerra justa.

Não faltam manifestações nas principais cidades francesas, onde os gritos inaudíveis do país parecem não ressoar. As faixas com inscrições do tipo: “Crianças do Iraque, crianças da Palestina, é a humanidade que está sendo assassinada.”, ou “Nem Saddam, nem tio Sam”, não conseguem atingir seu objetivo : a catástrofe continua.

Franceses comentam que isso parece mais uma guerra religiosa, onde, ao contrário do que diz a Bíblia, Deus luta contra Deus. “God” não quer ceder, tampouco “Allah” e “Dieu” continua em sua posição desfavorável a tal situação. Em nome de “Deus misericordioso” o “estandarte sangrante é erguido” (La Marseillaise. Trad. minha), há uma missão a ser cumprida. Segundo o presidente americano Bush:

“A liberdade que nós pregamos não é o dom da América para o mundo, ela é o dom de Deus para a humanidade. ” (Jornal La Croix, p. 7, 21/03/03. Trad. minha).

Cabe, aqui, a famosa frase pronunciada, em 1793, pela feminista Roland, no cadafalso, antes de ser guilhotinada:

“Ó liberdade! Quantos crimes se cometem em teu nome!”

“Marcha, soldado, cabeça de papel…”, quantas cabeças de papel estão fazendo rolar cabeças valiosas de gente inocente, ou simplesmente, gente ! “Eles vêem, até em nossos braços, decaptar nossos filhos, nossos companheiros…” (La Marseillaise. Trad. minha).

A maioria dos 3.820 iraquianos residentes na França, dos quais 1.056 naturalizados franceses, têm apoiado “Dieu” e metade dos americanos também. Entretando, é cruel a discriminação sob os olhares da “Grande Dama”. Os americanos têm sido vítimas de destratos, ainda que contra a guerra. Em um colégio americano, o vigia noturno foi esfaqueado só porque trabalha no estabelecimento. Até as crianças têm medo de falar a língua universal e, mesmo os brasileiros têm que tomar cuidado por causa do sotaque facilmente confundido. Muçulmanos têm sido evitados, como se fossem, todos, kamikases.

O racionalismo francês não permite a canonização de nenhum dos dois chefes, cada vez mais famosos no mundo inteiro. Os próprios iraquianos afirmam:

“Saddam Husseim consegue, sempre, fazer-se passar pelo agredido, sendo que é o único agressor, o único criminoso.” (depoimento de um iraquiano ao jornal La Croix de 24/03/03. Trad. minha).

De outro lado, ouvi de uma americana : “Bush sempre precisando guerrear!”.

“Marcha, soldado, cabeça de papel. Quem não marchar direito…”  Chirac, provocando a ira americana, declara esperar que Bush, abandonando a posição dominante, quase hegemônica em que se coloca, acabe com os bombardeios e que as operações sejam mais rápidas e menos mortíferas possíveis, para que não conduzam a uma catástrofe humanitária. Nada mais sensato: com o número de imigrantes muçulmanos - que é o maior do mundo, e com o exército francês – que, não é lá grande coisa, se a França mudasse de opinião seria “extinta do universo”, como brincam, os franceses.

Avenidas adornadas pelo azul das fardas, olhares atentos, sorrisos desconfiados (quando existem), o sol brilha e as flores brotam em meio aos ares preocupados. “…quem não marchar direito, vai, preso, pro quartel!” O povo francês não sabe qual será o futuro da guerra, mas sabe que pode ir preso, pro quartel. Questionam se será somente um quartel de boicote, de discriminação, ou se as consequências serão maiores? Onde será construída essa prisão? Esses soldados poderiam acabar por “marchar direito”? Marchez! Marchez! Isso não é coisa pra intelectual, entretanto, é coisa pra homem moderno:

“Assim como os cavaleiros no cavalo desenfreado, largamos as rédeas perante o infinito, nós, homens modernos, semibárbaros que somos – e sentimos a nossa felicidade apenas onde também nos sentimos mais – em perigo.” (Niezsche, F. Para além do bem e do mal. § 224. Martin Claret, S.P., 2002).

Como designar-se-ão os pós-modernos? Seriam, por acaso, os bárbaros mascardos que, por vezes, deixariam cair a máscara só encontrando a felicidade muito além do perigo, encharcados de sangue?

CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO

     

 

 


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