Por EVA PAULINO BUENO
Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teachi ng in Japan (JPGS, 2003).

 

As lições de Hiroshima

 

Talvez Hiroshima seja uma das cidades desconhecidas mais famosas do mundo. Se perguntarmos, acho que qualquer pessoa com nível de escolaridade do segundo grau no mundo inteiro reconhece o nome desta cidade. Para todos, a imagem que vem imediatamente à cabeça é da explosão, da bomba atômica.

Pouco mais se sabe. É como se a enormidade do que aconteceu nessa cidade japonesa no dia 6 de agosto de 1945 bastasse pra apagar qualquer coisa que ela possa ter tido antes e depois daquele nefasto momento, às 8:15 da manhã, quando o avião apelidado de "Enola Gay," um dos vários aviões bombardeios B-29 que voaram sobre Hiroshima naquele dia, abriu a comporta e deixou cair sobre a cidade a bomba conhecida como "Little Boy"–"Menininho." A explosão ocorreu a 2.000 pés acima do prédio que hoje é chamado "A cúpula da bomba atômica."

A devastação, como se sabe, foi imensa num rádio de uma milha e meia de onde caiu a bomba. Pessoas foram pulverizadas instantaneamente, estruturas de metal derreteram, prédios desapareceram no ar. As montanhas que circundam Hiroshima seguraram o vento gerado pela força do "Little Boy," e o retransmitiram mais uma vez à cidade, atingindo-a com uma segunda onda de morte e destruição. Calcula-se que mais de 140.000 pessoas morreram em Hiroshima até o fim do ano 1945, entre elas não somente japoneses, mas também coreanos e chineses que haviam sido trazidos à força a Hiroshima para trabalharem nas fábricas, quase como escravos. Um grand e número de pessoas morreram nos primeiros dias. Outros morreram devagar, em longa e terrível agonia. Ainda hoje muitos carregam na pele, nos órgãos internos e nos genes a herança daquela bomba.

Tudo isso está documentado em livros, em arquivos de documentos, em fotos, e até em filmes. Uma pesquisa rápida na Internet, por exemplo, dará muitos endereços onde se podem encontrar desde discussões sobre a necessidade (ou não) desta bomba, até listas de livros e de cursos sobre o assunto no mundo inteiro, em muitas línguas. Mas Hiroshima hoje é muito mais que uma cidade vítima de uma guerra desastrosa. Logicamente, o que aconteceu ali em 1945 jamais poderá ser esquecido pela humanidade, já que Hiroshima tem a dúbia "honra" de ter sido a primeira cidade a ser bombardeada com uma bomba atômica (Nagasaki foi a segunda, recebendo o impacto da bomba atômica "Fat Man"–homem gordo–no dia 9 de agosto de 1945.)

Morando no Japão, para mim a atração em conhecer Hiroshima era muito grande desde minha chegada, embora eu tivesse também um pouco de receio da atitude das pessoas da cidade contra estrangeiros. Logicamente, qualquer pessoa que vai ao Japão sabe que Hiroshima tem uma infra-estrutura turística para receber aos que se interessam por esta parte da história. Mas, precisamente por ter morado no Japão por algum tempo, eu sabia que a xenofobia corre funda na cultura, e sempre é possível sentir-se uma sutil hostilidade em alguns lugares do país, especialmente naqueles considerados históricos.

A primeira vez que passei por Hiroshima, eu tinha a impressão que ia ver ou sentir alguma coisa relacionada com a bomba atômica e com o status especial que o povo da cidade deve sentir. Eu estava viajando rumo à cidade de Matsuyama, na ilha de Shikoku, e o "Shinkansen" (trem bala) fez uma parada rápida, de praxe, na estação de Hiroshima. Na ocasião, eu escrevi no meu diário que, pelo menos vista da plataforma da estação de trem, a cidade me parecera bastante "normal," até desinteressante. Algumas pessoas saíram, outras entraram, e o trem continuou sua viagem rumo ao sul. Os passageiros abriram suas caixinhas de lanche – o obentô - bateram papo uns com os outros, foram dormir. Eu olhava pela janela, entre um túnel e outro, tentando descobrir na paisagem alguma cicatriz deixada pela bomba. Nada estava visível. As mesmas casas, as mesmas árvores, as mesmas fábricas que se vêem em cidades do mesmo tamanho.

Em janeiro de 2001, quando recebi visitas do Brasil, resolvemos ir todos a Hiroshima. Antes de ir, lemos alguma informação sobre a cidade, fizemos reservas em um hotel, sem saber ao certo o que esperar. O que eu sabia com certeza é que desta vez iria além da estação de trem.

O que recebe o turista em Hiroshima, logo de chegada, é uma cidade é moderna, com muitos carros, muitos prédios. As ruas são largas, arborizadas, e nada na redondeza da estação de trem a separaria das outras cidades do mesmo porte no país. Chegamos, apanhamos um mapa grátis no escritório de turismo da estação ferroviária, e caminhamos até o hotel, que ficava a apenas duas quadras.

Como ainda era cedo, apesar do vento de inverno, decidimos seguir o conselho da funcionária do escritório de turismo, tomamos um ônibus até o cais, e de lá tomamos uma lancha até a ilha de Miajima, da qual só sabíamos que tem um portão muito bonito. A viagem leva cerca de 40 minutos.

Esta ilha, cujo nome significa "Ilha Templo," tem como edifício principal o templo de Itsukushima, que é muito antigo, e está localizado à beira do mar. O portão do templo, que foi construído na baía, é pintado de um alaranjado forte. Quando a maré está alta, a água vai até o templo, que parece estar flutuando sobre a água, e o portão parece estar no meio do mar. É um espetáculo muito bonito. Segundo lemos nos folhetos explicativos, durante várias comemorações anuais, pessoas de Hiroshima e de outras cidades fazem procissões de barco e passam dentro do portão, carregando tochas acesas.

Nós não vimos nenhuma comemoração, porque não tinha nenhuma programada para esta ocasião do ano, e quase tudo em Miajima estava deserto naquele dia. Mas aproveitamos para caminhar pela ilha toda, nos esconder dos animais sagrados do templo, veados muito mal acostumados que–tais como os que se encontram no templo Todai-ji em Nara–pensam que todo turista é uma fonte inesgotável dos biscoitinhos especiais que eles gostam. Tiramos fotos, recusamos comer ostras (uma das especialidades desta região), visitamos vários templos menores, atravessamos pontes, compramos alguns objetos turísticos pra levar para os amigos (no Japão sempre trazemos lembranças das viagens para distribuir entre os amigos), e afinal voltamos para o hotel em Hiroshima quando já estava escurecendo.

Quando saímos para jantar, vimos dois homens vestidos de roupa preta, na esquina do hotel. Ambos tinham uma tira branca amarrada na cabeça, com alguma coisa escrita que não pude ler devido à distância. Um deles trazia nas mãos uma espécie de pergaminho, e o outro trazia um instrumento muito comum no teatro tradicional do Japão. Este instrumento consiste de dois pedaços de madeira, que quando batidos produzem um som especial. Então, um dos homens batia o instrumento, e dava tempo para o outro homem ler alguma coisa do pergaminho. Eles faziam isso no começo, no meio e no fim de cada quarteirão. Ficamos imaginando qual seria a mensagem dos dois. Como na região de Osaka e Kyoto nos últimos tempos tínhamos tido uns malucos de direita passando com auto-falantes pelas cidades e dizendo que os estrangeiros eram a causa dos males do Japão, naquela noite em Hiroshima ficamos achando que talvez os dois homens tivessem a mesma mensagem. Tratamos de caminhar mais rápido e buscar refúgio no primeiro restaurante. Quando terminamos de jantar, os homens já não estavam mais na rua.

O dia seguinte, havíamos decidido, íamos dedicar a conhecer a parte histórica relacionada à bomba atômica. Minhas visitantes brasileiras sabiam relativamente bastante sobre o assunto, e estavam interessadas em conhecer de perto as ruínas. Eu estava receando que tudo seria como uma espécie de Disneylândia atômica, enfeitada, reconstruída, reinterpretada, numa outra explosão, desta vez de "kitch." Mas o receio foi desnecessário.

Quando se chega ao prédio chamado "A Cúpula da Bomba Atômica," se está bem perto do rio que corta a cidade, já se nota que a cidade tomou decisões corretas para memorializar o acontecido. O prédio – uma construção em estilo ocidental que lembra uma igreja – está parcialmente em pé, com a cúpula mostrando a armação de arame que faz lembrar um esqueleto. Não há muitos outros prédios remanescentes do período. Da cúpula se segue por uma calçada que vai levando aos diversos locais onde há placas simples explicando, ensinando. O nosso destino final era o Memorial Hall of Peace, que é o museu principal da cidade, e onde se encontram objetos, fotos, arquivos relacionados ao bombardeio de agosto de 1945, e à luta das vítimas pela sobrevivência apesar das queimaduras horríveis, da falta de remédio, e até de uma compreensão médica de como tratar as doenças oriundas de uma explosão nuclear.

A experiência de ir a este museu é talvez uma das mais emocionantes que se pode ter no Japão. No hall de entrada h á fotos da cidade antes da bomba, e textos explicando como era a vida da cidade então. Depois, nas paredes, há textos também esclarecendo que o Japão estava engajado em uma guerra longa e cruel.

Não muito mais sobre a razão ou razões porque a bomba foi jogada na cidade. Acho que os japoneses, de maneira geral, querem esquecer o que aconteceu, e esta parte de entrada do museu não serve muito para esclarecer a história. O museu prefere concentrar-se ou no depoimento estarrecedor dos objetos retorcidos, derretidos, pela explosão, ou no testemunho de algumas pessoas que viviam em Hiroshima naquele dia. É como uma despolitização que foi decidida a uma certa altura da construção do museu. Nem as atrocidades que o Japão cometeu na Ásia são mencionadas, nem as razões para a bomba são colocadas. De repente, a bomba atôm ica em Hiroshima parece alguma coisa que "aconteceu" e as pessoas tiveram que lidar com ela. Num dos andares superiores do museu há uma série de televisores que transmitem, com traduções em várias línguas, entrevistas dadas por estas pessoas, sobreviventes da explosão.

Algumas delas eram estudantes do primário. Outras eram donas de casa. Outras eram operários. Outras eram enfermeiras. Para todos, a experiência de ver o fogo, as explosões, as pessoas morrendo completamente queimadas, está marcada na memória. Eu me lembro especialmente do testemunho de um homem que era estudando no grupo escolar, e estava em sala de aula quando houve a explosão. Nos minutos depois que a bomba caiu, ele se levantou do chão, onde tinha sido atirado, se pôs em pé, e viu que alguns coleguinhas estavam se levantando também. Então eles viram que o professor estava morto, e os prédios em volta da sala de aula estavam em chamas. Neste momento, os meninos começaram a cantar o hino da escola. E, o homem narra, com lágrimas nos olhos, de um em um os coleguinhas foram se calando, até que ele era o último cantando o hino da escola. Ele foi o único que escapou com vida.

Outras histórias são igualmente terríveis. Cada uma destas pessoas não culpa ninguém pela tragédia que mudou suas vidas e determinou tantas coisas no seu futuro. Elas dão o relato humano. Nenhuma delas diz ter ouvido o discurso do imperador, cuja voz foi ouvida pela primeira vez anunciando aos seus súditos que o Japão estava se rendendo. Talvez, se alguma destas pessoas tiver ouvido o imperador, a fala dele não teve a menor importância, o menor impacto, embora até então ele era considerado divino e ninguém (a não ser os mais próximos a ele) podiam olhá-lo.

Nenhuma destas pessoas também conta qualquer coisa sobre as dificuldades e o sofrimento durante o período da ocupação americana. Nenhuma delas conta da discriminação que elas sofreram dos próprios japoneses de outras regiões, que–diga-se de passagem–até hoje não querem que seus filhos se casem com gente que é descendente de pessoas que estavam em Hiroshima durante o bombardeio. O que cada um destes sobreviventes da primeira bomba atômica a ser usada contra uma cidade enfatiza é que a guerra é uma coisa ruim, e que eles esperam que o Japão jamais entre em outra.

Ficamos no museu quase três horas, nas quais todos nós nos emocionamos com o que vimos e ouvimos. Quando saímos do prédio, paramos diante de um monumento para tirar uma foto. Um homem da cidade, vestido no tradicional terno e gravata que os funcionários japoneses usam todos os dias, se ofereceu pra tirar nossa foto. Aceitamos, e agradecemos. Ele sorriu e fez o sinal dos dois dedos, que no Brasil dizemos que é o "V" de vitória, mas que no Japão é o sinal da paz.

Naquela tarde, quando íamos para a estação para apanhar o trem de volta a Osaka, vimos mais uma vez os dois homens que estavam na esquina do hotel na tarde anterior. Desta vez eu pude ver o que estava escrito na tira que eles estavam usando na cabeça. Era um "kanji"–ideograma–que eu não conhecia ainda. Tratei de copiá-lo num papel pra poder procurar o significado mais tarde. Quando chegamos em casa, vi no dicionário que a palavra significa PAZ.

O que vi naquela breve visita a Hiroshima me deu esperanças. Afinal, a cidade que mais sofreu com um bombardeio atômico tem tanta ge nte que não está buscando vingança (nem dos americanos que jogaram a bomba, nem do sistema imperial japonês que criou a situação para que a bomba fosse jogada), mas que está tentando transmitir a lição de que a paz vale a pena, e deve ser buscada a qualquer custo, porque o preço da guerra é sempre alto demais. Hiroshima, então, transcendeu a sua situação de vítima e passou a ser uma cidade que ensina pelo exemplo. Hiroshima ressurgiu, feito um fênix, das cinzas, e se fez bonita mais uma vez, mas sem esquecer de onde veio nem o quanto custou chegar onde chegou.

Neste momento em que o Japão parece estar vacilando entre as posições pacifistas assumidas depois da Segunda Guerra Mundial, e uma possível retomada de uma postura mais militarmente agressiva, as muitas pessoas de boa vontade e perspectiva histórica do país esperam que as lições de Hiroshima sejam ouvidas. E que nunca mais tenham que ser reaprendidas, nem no Japão, nem em nenhum outro país do mundo. Infelizmente, os últimos acontecimentos mundiais, no momento em que termino este artigo, em março de 2003, indicam que bem provavelmente outras Hiroshimas estejam em vias de serem criadas.

EVA PAULINO BUENO

     

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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