Palestras e palestrantes, em baixa!

 

Por RAYMUNDO DE LIMA
Psicanalista, Professor do Departamento de Fundamentos da Educação (UEM) e doutorando na Faculdade de Educação (USP)

O festival de palestras que ainda vem acontecendo no Brasil, atraindo muita gente aos auditórios e anfiteatros, principalmente nas cidades de médio porte, no momento, parece entrar em fase de esgotamento.

Alguns palestrantes são contratados a peso de ouro como gurus da "auto-ajuda"; tem o poder pessoal ou conhecimentos que despertam a “auto-estima" de empresários a professores desmotivados, sofrendo com a falta de perspectiva encontrem sua bússola perdida, para reorientar sua vida com mais otimismo, geralmente de modo individual e empreendedorista.

O governo defunto de FHC colaborou indiretamente com o abuso dessa metodologia de ensino. Afinal, era a perspectiva neoliberal tocada pelo discurso valorizador do “capital” conhecimento e informação, digamos, pretensamente apolinista. O novo governo, petista, injetou otimismo e levantou o moral de todos com uma nova perspetiva de filosofia política, principalmente nos setores que mais precisavam de palestras como meio mágico de cura. Mesmo assim, devem surgir novos nomes de palestrantes melhor sintonizados com os novos ventos, embalados pelo atual momento político dionisíaco. Os novos palestrantes provavelmente abandonarão as fórmulas mágicas da "qualidade total" cujo foco era primeiramente o "resultado", para uma preocupação mais social, humanista, talvez messiânicos, passionais, porém ainda não desligados do especialismo acadêmico.

No campo da educação, o reconhecimento de que era necessário um oferecimento sistemático de "formação continuada" dos professores, ainda vem levando secretarias de educação ou escolas públicas com iniciativa própria e, principalmente as particulares, a promoverem algumas palestras de "emergência" ou pseudo-seminários distribuídos em "semanas" de Educação, de Pedagogia, de Psicologia, de Administração, de Economia, etc. Parece que o campo da educação bate o recorde com esse tipo de evento, na maioria das vezes organizados sem se saber com profundidade o porquê de tal evento, com temas fora do interesse da audiência, mas certamente segundo os interesses de quem está no poder de decisão. Até os chamados "cursos de especialização", fornecidos pelas universidades particulares, foram -e ainda são- ministrados segundo os "critérios de mercado ou demanda", geralmente conduzidos no estilo de "palestras-shows", desenvolvidas por nomes expressivos do meio profissional. Alguns viraram estrelas de tão famosos que se tornaram com suas palestras “estilizadas”, acostumaram-se a viajar de avião, a dormir em bons hotéis, como se fossem artistas. Não raro esses palestrantes estrelas causam ciúme e inveja nos seus pares, acirrando os mecanismos de defesa do ego, bem descritos por Anna Freud. Freqüentemente o professor preterido destila o seu veneno com um colega de sucesso, dizendo "... sua palestra é cheia de lugares comuns", ou "é bom artista, mas não é bom professor", etc.

Como acontecem as palestras?

O clima das palestras geralmente lembra um culto-show religioso neopentecostal. Costuma se dizer meio de brincadeira ser uma "palestra-show", visto que, tudo depende da performance de ator do palestrante e do cenário escolhido para a palestra. Enquanto a palestra tende a ser mais informal, dinâmica e fácil de ser acompanhada, uma conferência tende a ser enfadonha se o conferencista, o expert, seguir o ritual de ler ou "conferir" o texto que trouxe de casa. Alguns criticam a técnica da palestra segundo o argumento que esta se preocupa mais em "inculcar" certas crenças ou idéias pasteurizadas (ideologia), por exemplo, despertar a motivação e a auto-estima canalizadas para o empreendedorismo, a qualidade total, etc, do que propriamente levar a platéia a pensar, a refletir ou questionar uma determinada problemática. A maioria dos palestrantes da era FHC foram selecionados e contratados para "injetar" otimismo nos profissionais vistos como desanimados, sem confiança na sua bússola existencial e profissional. 

Observa-se facilmente um público heterogêneo muito mais interessado na "estrela" que fará a palestra-show e sua performance, do que propriamente na profundidade do assunto a ser desenvolvido. Já me dei ao trabalho de observar que muitas pessoas saem do encontro sem ter gravado o título da palestra. Há mesmo os que lá vão mais interessados na oportunidade de verem e pedirem um autógrafo do profissional que é visto na televisão ou escreveu um livro ora sendo divulgado ou já conhecido, que em geral ele não leu.  O jornalista Victor Gentilli escreveu: "palestras são monólogos em que os palestrantes, embora profissionais, portam-se como celebridades".

Hoje existem grandes celebridades, como o ex-presidente dos EUA, Bill Clinton - talvez o mais caro palestrante do momento. O nosso ex-presidente Fernando Henrique Cardoso parece inclinado a seguir esse mesmo caminho. Mas, existem palestrantes pouco conhecidos; por exemplo, ao publicar um livro de auto-ajuda, recebem orientação do  marketing da editora para dar palestras, quase de graça, com a meta de fazer subir as vendas de seu livro. Atualmente, o escritor Michel Moore é um famoso palestrante, nos EUA, divulgando suas idéias e críticas ao sistema econômico norte americano. No Rio de Janeiro, um camelô de estilo carismático vem despertando o interesse de empresas que fazem concorrência para ouvi-lo. Disse no Jô Soares, ganhar muito mais fazendo palestras do que vendendo bugigangas em sua barraquinha.

Os limites da técnica e do estilo

Assim como o ator deve saber se relacionar com os expectadores, também o professor deve saber lidar com as diferenças individuais e das turmas durante todo o curso ministrado por ele, porém o palestrante dispõe somente de um único encontro para criar laço efetivo (transferência) e transmitir suas idéias ao auditório

Palestras podem ser ótimas, o palestrante pode ser muito carismático, competente nas frases de efeito e nos movimentos pseudoteatrais, mas jamais substitui as aulas de um curso ou uma orientação face-a-face. Tal como uma aula, também a palestra é um discurso situado no “lugar de mestre” (Lacan), ambas tendem a repetição de lugares comuns usados para outros encontros; talvez a palestra marque melhor esse "lugar de mestre", lacaniano, na medida em que visa vender as idéias previamente tomadas como “certas”. Muitos palestrantes têm um discurso dogmático, quase religioso. Contudo, se o palestrante for consciente do limite ou ética de sua função, evitará reduzir o discurso "teórico" ou "técnico" em um discurso moral, visando dirigir comportamentos. Dito de outro modo, em vez de se posicionar no lugar epistemológico, de dúvida metódica ou teórica, convidando todos a problematizar as coisas, pode ser tentado em apresentar soluções ideologicamente prontas. Esse problema é sentido especialmente nos cursos pertencentes as Ciências Humanas, geralmente impregnadas mais de moral (ou ideologia) do que de cientificidade.  

Como sabemos, os cursos prometem determinado caminho de formação que fundamentalmente é composto por aulas que envolvem a fala conteudista do professor e a escuta interessada dos alunos, formando uma conversação - quase um "diálogo"-, causando reflexão, troca de opiniões, a produção de idéias e a sistematização de conhecimentos pelo aluno. O professor com sabedoria espera que alguns de seus alunos irão superá-lo, tanto no conteúdo como na técnica e no estilo. Já o professor-pesquisador [1] ou expert sente-se despreparado com a realidade do ensino, fundada no corpo a corpo das relações pessoais entre professor e aluno. Situada melhor na dimensão do “conhecimento especializado”, do “expert”, as palestras são monólogos descompromissados, os cursos (ou percursos) não oferecem continuidade, nem compromisso de retorno dos ouvintes, nem avaliação alguma quanto ao que foi exposto. Sendo assim, podemos dizer que as palestras constituem já um estilo que caminha fora do canonismo universitário [2] .

Não pretendemos nesse artigo criticar o uso de palestras, afinal, por experiência própria sabemos que elas servem para algum setor do desenvolvimento da aprendizagem de conhecimentos e assimilação de informações, porém temos dúvidas quanto a ser principal técnica de boa e ampla formação ou de aperfeiçoamento de profissionais para além da técnica. Enquanto técnica e linguagem, a palestra parece sintonizada com o estetismo, o espetáculo das palavras e dos movimentos, o pragmatismo, a rapidez, a crença do preenchimento dos vazios não preenchidos pela sociedade de consumo, próprios de nossa época.

Existem palestrantes que acreditam que seu estilo de palestra funcione como uma técnica de cura das aflições humanas. Acreditam ser a palestra mais uma forma de terapia, porém barato, de efeito rápido e divertido. Boa parcela dos freqüentadores das “palestras de ajuda” demanda exatamente isso: "auto-ajuda", palavras "amigas", expectativa de abertura de horizontes, alimento laico para o espírito combalido, e, ao mesmo tempo, ser um encontro para ver e ouvir.

O uso abusivo das palestras é sustentado na crença de que o conhecimento deve ser tratado segundo o modelo empresarial, organizado racionalmente visando a objetividade, mas que, para criar efeito nos ouvintes, precisa de um tom passional, quase místico. Também a tradição escolástica [3] , ainda tão presente nas aulas das universidades, negando os novos recursos didáticos e tecnológicos, vem sendo questionada como método e estilo eficaz de ensino. Ora, a técnica moderna de palestras ensina aos professores que uma aula deve ser desenvolvida com paixão, entusiasmo e leveza. Elas têm a função de ser um "despertar" dos ouvintes para uma problemática, algumas idéias, ou o aprofundamento de alguma temática, porém de modo sintético. A palestra não é análise, mas somente síntese. As aulas e seminários cumprem a função metodológica de fazer análise, de aprofundar e extrair novas perspectivas de estudo, de incentivar e traçar metodologias para pesquisas e ações.

Começa a aparecer uma nova geração de palestrantes "chapa branca petista" vem "substituindo" a anterior, marcadamente de ideologia neoliberal, que fazia elogios a globalização, as privatizações, a qualidade total nas empresas e até escolas e universidades, etc. Mas, como todo governo – mesmo de esquerda - gera dissidências ou oposições de diversos matizes, vemos surgir no grupo petista, os "radicais", caminhantes na linha contrária ao governo Lula.

Enfim, palestras, aulas, conferências, seminários, dinâmicas de grupo, debates, são métodos não neutros que despertam, informam, formam, mas também podem deformar o processo de ensino-aprendizagem. Há que se ter bom senso e discernimento para saber escolher entre palestras, aulas, conferências, seminários, dinâmicas, etc., pois cada técnica deve ser mais ou menos apropriada para determinados conteúdos, momento e estilo pessoal de quem vai ministrar o assunto.

 



[1] Segundo Pereira (2000), citando vários autores, privilegia-se hoje, sobretudo na universidade pública, a formação do professor-pesquisador, que é visto como o "primeiro escalão", "os eleitos" para  "fazer ciência em paz", "vivendo em sua torre de marfim, isolada da realidade". Ao se privilegiar a formação do professor-pesquisador, "a universidade deixou a Licenciatura a cargo das instituições particulares". (Cf.: Pereira, J.E.D. A formação de professores; pesquisas, representações e poder. BH: Autêntica, 2000).

[2] Observa-se que, por um lado, hoje existir professores universitários de estilo  ‘tradicional’, ainda influenciados pelo espírito escolástico, e, por outro, existe também, na mesma instituição, os professores ‘modernos’, voltados para a pesquisa. Entretanto, nesse último caso, a virtude não chega a ser completa visto que a dedicação extrema à pesquisa os fazem displicentes em relação ao ensino e com falta de interesse na didática ou em melhorar o próprio estilo de ensinar. (Ver: Pereira, 2000). É esse modelo de universidade displicente em investir também na arte de ensinar – começando pela "arte de falar em público" – que muitos alunos timidamente reclamam, dizendo “o professor fulano de tal sabe muito, mas não sabe transmitir...”.

[3] Escolástica era a filosofia cristã das universidades da Europa, entre o séc. IX a XVII. Compreendia, em geral, um ensino ministrado na forma de leitura [lectio], e comentário de textos, mais tarde se introduziu a discussão [quaestio]. Historicamente, a escolástica consiste no paradoxo de ser uma filosofia, ao mesmo tempo, racional e religiosa. Segundo E. Gilson, discurso ensinante se torna “escolástico” sempre que, em lugar de refletir sobre a realidade existente, a fim de aprofundá-la, penetrá-la e esclarecê-la, passa a aplicar fórmulas pré-concebidas (formalismo), visando mais “con-vencer” (vencer resistências) do que “esclarecer”. Lalande refere-se ao sentido pejorativo de escolástico, “o que manifesta um ar espírito escolar, uma tendência para se fechar em teses ou questões tradicionais formuladas de uma vez por todas, em vez de se renovar pelo contato imediato da observação e da vida” (Lalande, A. Vocabulário técnico e critico de filosofia. M.Fontes,  1993,  p. 318. Para Corbisier, “a transformação da filosofia em escolástica, no mau sentido, corresponde, pois à esclerose do pensamento que se esvazia de conteúdo, perde o contato com a realidade e se torna mero jogo intelectual, ocioso e inconclusivo”. (Corbisier, R. Enciclopédia filosófica. Petrópolis, Vozes, 1974,  p. 34-6.

 

RAYMUNDO DE LIMA

     


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