Turismólogos: consciência crítica para o desenvolvimento de um turismo em um país que tem vários tipos de fome

 

Por JOÃO DOS SANTOS FILHO

Sociólogo, Turismólogo, Professor da Universidade Estadual de Maringá e Faculdades Nobel

Getúlio Vargas no Trem da vitória, Revolução de 1930.Juscelino em visita à Volkswagen (São Bernardo do Campo), em novembro de 1959. Este texto pretende resguardar a compreensão política correta da proposta do excelentíssimo presidente da república eleito em 27 de outubro de 2002 que colocou como programa prioritário de governo o combate à fome.

Essa questão me despertou preocupação em razão da existência de pessoas acostumadas a mandar nesse país (a mesmice) que de forma sutil, mas marqueteira, contrapõem as idéias  desse programa por meio de falas irônicas ou  falsas falas, tentando com isso insinuar que o governo Lula reeditará a volta do estado populista - assistencialista, repetição do período Vargas a Juscelino.

Em primeiro, lugar temos a esclarecer a esses críticos vulgares, que a história é impossível de repetir, e quando isso ocorre, explicita-se como comédia ou como tragédia. Esse encolhimento abstrato para interpretar os fatos é decorrente de uma visão funcionalista e fenomenológica que é meio e fim no pensar desses sujeitos, amarrados pela hegemonia de bases empíricas. Portanto, incapazes de entender de a lógica do capital que governa a ideologia de suas opiniões e os fazem escravos de um saber anacrônico e rudimentar que alimenta procedimentos extremamente arcaicos, em que a leitura do real espelha uma quantificação ufanista plasmada em dados estatísticos.

A esses repetidores dos números quantificados pelo Capital, em que a realidade explica-se e basta-se por si mesma, onde o fetiche molda o seu perceber cognitivo. Em uma parábola, são bestas feras que a ciência salva onde qualquer fenômeno é mais rico que seu próprio conceito. Portanto, querer entender a proposta explicitada pelo novo governo como limitada, por se prontificar a acabar com a fome de milhares brasileiros, sinaliza que devem existir grupos poderosos que vivem da miséria alheia.

O combate contra a fome se constituiu em uma visão moderna de fazer política, onde o ser humano está na frente de qualquer prioridade e somente com essa visão ontológica do ser social, estaria capacitado para a retomada da cidadania e recuperação da dignidade de ser brasileiro.

A proposta não se reduz a distribuir comida, mas alavancar um processo em que todos os seguimentos da sociedade criem e atuem nas bases de um desenvolvimento gerador de emprego aliados na defesa das necessidades básicas do ser humano como; ampliação e defesa da escola pública democrática, competente e moderna; reforma agrária e uma política agrícola consistente e sem disfarces; ampliação e modificação radical no atendimento a saúde; favorecer o surgimento de uma nova ética na política nacional.

Nesse sentido, entendemos a fome como um processo que se estende estruturalmente em todas as áreas da sociedade de forma endêmica pela falta de alimento, educação, terras, dignidade, respeito, saúde, habitação, cultura, segurança e lazer. Portanto, a visão política do presidente eleito não se limita à aparência dos fatos, mas a atitudes abrangentes onde as condições estruturais e históricas deverão tipificar uma nova forma de fazer política.

Fome acadêmica

Nada se torna mais angustiante para nós turismólogos, quando a mídia e os curiosos do fenômeno turístico trabalham com um discurso salvador da pátria, em que a determinação econômica  abre as portas por meio de uma "economia política" baseada no clássico de Adam Smith. A quantificação decorrente dessa miopia empirista agrega adeptos e atraí para si uma leitura do real falseada e extremamente quantitativa, em que o reducionismo se torna o limite do pensamento científico.

Um dos intelectuais sérios que combateu essa visão de censo-comum e contribui até hoje para que possamos ter ferramentas acadêmicas capazes de compreender e combater ao mesmo tempo a visão economicista é a professora Marutscha Moesch que nos esclarece:

“A vertente pragmática, que o apresenta como uma atividade de forte apelo econômico, reduzir sua compreensão a ela é desconhecer a essência de um fenômeno que exerce uma pressão crescente sobre a produção da subjetividade social, o ecossistema, o modo estético e a herança cultural das localidades visitadas. Superar tal compreensão reducionista só será possível por meio de uma teorização mais complexa, em que a categoria econômica seja articulada às demais categorias.” (MOESCH, 2000: 37)

O excelente estudo permite perceber as bases teóricas e filosóficas que sustentam as interpretações que transitam nos discursos cotidianos daqueles que ainda hoje dominam as estruturas públicas e alguns setores dentro da academia. Cabe lembrar, que apesar da critica as visões reducionistas, a existência das mesmas alimentam o esforço de intelectuais e pesquisadores que direcionam seus estudos para repensar o fenômeno do turismo.

Aos que pensam pelo lado só do econômico, preocupados com a ampliação da mais-valia e encaram o fenômeno turístico nesse viés, cabe aqui ressaltar sua identidade com aqueles que estão ansiosos em comemorar seus índices de produtividade. Essa ânsia por querer justificar seu poder econômico, acaba sacrificando o meio ambiente e/ou a população nativa, isto é, impossibilita a aplicação de um verdadeiro turismo sustentável e sim surge a insustentabilidade entre o meio e o social. Esse impacto quando provocado pela multinacional, comprova a fragilidade política do estado nacional diante de estruturas econômicas estrangeiras, o que ratifica nossa subordinação aos interesses alheios.

Com relação à preferência da leitura econômica do turismo feita pela sociedade, esta se explicita por meio do site da Embratur que expõe a seus usuários os números que refletem o aumento de capital e as transformações matérias que ocorrem no traide turístico. Essa quantificação serve de ferramenta para os discursos oficiais que ficam repetindo as maravilhas conquistadas pelo turismo no campo econômico e para os curiosos do turismo que não sabem o que estão fazendo.

O processo de avaliação do turismo requer uma análise que vá além do dado empírico e que demonstre seus impactos sociais, políticos e culturais, não podemos nos limitar a perceber o objeto pela aparência, mas sim no âmbito de uma essência histórica.

Em um país em que burocratas entendem que há necessidade de importar métodos para estimular a conscientização de seu povo para o turismo, pode parecer estranho, pois o Brasil foi na América Latina o maior produtor de educadores que ganharam fama por suas propostas ousadas de conscientização. O brilhante Paulo Freire que ofereceu ao mundo amostras que a educação deve ser voltada para a liberdade e não para a submissão. Ou o romântico academista e antropólogo  Darcy Ribeiro que desenvolveu estruturas e espaços próprios para que educação ganha-se o status de prioridade e tantos outros que tiveram de deixar o Brasil para garantir sua integridade física e mental.

Porquê tem de importar modelos? Ou se submeter a verdadeiros momentos de vexames; quando Portugal foi obrigada pela Inglaterra a abrir os portos para o mundo, chegamos a comprar patins de gelo, botas de lã, agasalhos herméticos, navios americanos de guerra sucateados, técnicos americanos que sabotaram nossa política nuclear e nosso petróleo. Tudo em nome de uma falsa democracia do livre mercado e da sabedoria estrangeira em detrimento aos intelectuais e cientistas nacionais.

Descaracterizamos nossa rede hoteleira globalizando o estilo de vida Fast-Food em nossos hotéis e permitindo a clonagem de estilos onde o que distingue a hospitalidade entre um equipamento e outro e a qualidade total e não o diferencial cultural de nosso modo de ser pensar e agir. Tudo esta sujeito a uma padronização americanizada ou européia as diferenças estão plastificadas e o recorte dado é de universalização dos costumes, em que a rebeldia a esses pode produzir um ataque do império contra seus subordinados.

Exportamos sucos em latões que retornam a nos industrializados por meio de aditivos químicos e adulterados, pois foram maximizados para poder render além de sua capacidade natural. Ou exportamos alimentos que produzimos em natura e a nos retornam como valores agregados que valoriza o produto em seu preço, mas o descaracteriza como nacional.

Na verdade temos vários tipos de fome, e estas estão no conjunto de prioridades, as comidas se compõem também de alimentos como a cultura, o cuidado com o meio ambiente reforma agrária, moradia, saneamento, direito à saúde, justiça, educação, lazer e turismo. Esses componentes quando possíveis de serem preenchidos pelo e para o indivíduo traduzem a vida capaz de torná-los cidadãos participante no pleno exercício de fazer história.

Fome Educacional

Ampliar as vagas das escolas públicas e dar o suporte necessário para que esses que não comem, possam num futuro em médio prazo usufruir das instituições educacionais, que ainda estão longe de seu alcance. As etapas que essa população deve ultrapassar decorrem de uma serie de outros elementos que estão ligados à recuperação da cidadania e da dignidade política que lhe foram tomadas de seus antepassados como escravos e trabalhadores excluídos da produção de riqueza da nação.

Onde estão os professores e alunos negros, os trabalhadores braçais, os famintos serão que conseguirão caminhar até a escola. O porteiro os deixará entrar por estarem com as vestes rasgadas, sujas, sem calçados, ou terão que optar pela porta dos fundos. Nada disso, a eles a escola também os excluiu, mas os mal alfabetizados, os que optaram pelo popular chute no vestibular e que entraram, mal sabem se expressar e ler. Qual a diferença entre eles? Há diferença!

A fome educacional só pode ser sanada quando as condições de vida forem no mínimo satisfeitas, não durante as datas humanitárias de cada ano, mas quando isso se tornar rotina. Esse processo exige quebra de preconceito e decisão política para que o estado assuma a multiplicação de empregos junto à iniciativa privada e o próprio poder público. No caso do turismo, imenso são as áreas que poderiam ser estimuladas, porém existe uma em que pouco se fala e muito se contesta o Jogo. Sim a liberação dos cassinos, esta é uma imensa estrutura da cadeia produtiva que esta adormecida, mas poderia ser ativado, porém com exploração exclusiva pelo estado, que reverteria 100% dos lucros para programas de apoio a geração de renda, ou seja, exclusivamente para área social.

Fome de Saúde

Esta é a mais grave e devastadora das fomes em um país que conseguiu diminuir o crescimento vegetativo da população justamente pela falta de atendimento no campo da saúde. Os dados existentes confirmam essa tese, onde não há infra-estrutura de saneamento, as condições  de vida são ínfimas e portanto, o numero de óbitos é extremamente elevado. Aliado a esse processo aparecem os procedimentos médicos contraceptivos nos postos de saúde à disposição da população. Com o sucateamento do atendimento na área da saúde pública que vem sendo articulado desde da década dos anos de 1970, foi cristalizado no Brasil uma população de doentes crônicos em que se ampliam nas gerações futuras, em que as seguelas justificam uma serie de doenças.

Essa é uma fome estúpida, pois decorre das péssimas condições de vida do povo brasileiro e do desinteresse do governo para com a população, quantos não morrem todos os dias nas vilas dos postos de saúde? Quantos não se desesperam pela falta de remédios? Quantos não vêm a falecer por falta de médicos nos centros de saúde?.

Tudo isso se resume no desinteresse do governo para com o povo, pois poucos podem ter planos de saúde particulares, isto está, reservado para outros brasileiros que muitas vezes se esqueceram da miséria, pobreza de seu país. Pois para praticar o "Viaja Brasil" para todos os brasileiros da Embratur temos de possuir saúde e dinheiro. Ou será que a propaganda da Embratur elimina de sua estatística quantitativa os excluídos, ou não possui sensibilidade política para entender a mensagem do governo Lula.

Que tipo de turismo devemos priorizar: o nacional como sempre foi feito ou o internacional?

Em primeiro lugar essa é uma falsa questão, porém esteve presente desde a criação da Embratur, que sempre optou em colocar sua infra-estrutura de marketing à serviço do mercado externo como prioridade. Apoiado em campanhas publicitárias que faziam do carnaval, da praia, do sol, e do Rio de janeiro o desfilar da mulher brasileira.

Esse produto de exportação, marcou um Brasil sedutor em que o país acabou fixando uma imagem exterior de exótico, erótico e de mulheres lindas e desinibidas. E não é ao acaso que isso ocorreu em quase todo o ciclo da ditadura militar  a partir da criação da Embratur em 1966  e continuou até meados do ano 2000.

A Embratur sempre esteve preocupada com a imagem do Brasil no exterior, cuja função era minimizar as práticas arbitrárias e brutais da ditadura militar e mostrá-la como saneadora da corrupção e dos comunistas inimigos da pátria. Muito a gosto dos militares americanos, nesse caso, esse órgão teve sempre a serviço de transmitir uma imagem de paraíso, onde o inferno era a constante do cotidiano nacional: prisões arbitrárias, torturas, desaparecimentos, eliminação física dos considerados subversivos, acolhimento na Febem dos filhos de prisioneiros políticos.

Com isso, acabamos importando o estilo de ser dos nossos hotéis, gastronomia, a idéia dos parques temáticos norte - americano, em detrimento à nossa riqueza culinária inigualável no mundo, as nossas tradições populares e nacionais, para ter que se curvar a pobreza do Fast-Food, aos apartamentos  acarpetados e as decorações padronizadas das grandes redes hoteleiras que nada tem a haver com a idiossincrasia brasileira.

Nesses anos perdemos, parte de nosso estilo brasileiro de hospitalidade e incorporamos o idiotismo do bem servir estrangeiro. Temos que voltar a cultuar o nosso cheiro tropical uma mistura de mata selvagem com aromas de flores, junto aos produtos de higiene do hospede,  necessitamos forçar a volta das decorações da rica tapeçaria e das talhas nacionais. Dos doces caseiros junto ao frigobar e dos aperitivos e petiscos marcam a culinária brasileira. 

Com essas considerações, é evidente que a lógica é incentivar o turismo interno  e externo ao mesmo tempo, porém, com a obrigação da Embratur em arrumar a desarrumação que nesses anos foram feitos pela mesma. Esse órgão necessita pensar o turismo em sua amplitude globalizada, mas preservar o jeito nacional sem deixar que o mesmo fique a reboque dessa pasteurização cultural que é hoje a doença endêmica que afeta o turismo mundial.

O Brasil pode dar o exemplo para quebrar essa hegemonia do traide turístico padrão global, lutando para que o turismo nacional reencontre seu próprio caminho e contorne os serviços na busca de um atendimento nacional diferenciado e rico em aspectos novos que certamente agradarão aos turistas estrangeiros e permitirão que o turista nacional se sinta em sua casa.

A Embratur tem que acelerar um plano nacional de hotelaria e hospedagem econômica preferencialmente para pequenos empresários nacionais, na idéia de alargar a faixa de turistas brasileiros, isso é patriótico e atende aos interesses da campanha de geração de renda.

Liberar o jogo de cassino sob o controle direto do estado, pois este traz uma infinidade de serviços diretos e indiretos que abrirão uma imensidão de empregos e trarão uma renda constante e necessária para apoiar os programas de apoio à  população carente.

Combater de fato o turismo sexual, apoiando o trabalho da polícia federal junto aos aeroportos e agentes de viagens, como também, orientar os passageiros sobe a proibição do trafico de drogas em terra, abordando a ocorrência de qualquer fato que levante suspeita para com o turista.

Apoiar os turismólogos, na luta pela regulamentação da profissão de forma aberta e revogar a normativa n.º 421 por entendermos ser nociva as atividades profissionais do Bacharel.

Desativar, pois na verdade já está a muito tempo desativado o Programa Nacional de municipalização do turismo - PNMT, por ser uma atividade extremamente autoritária  no que diz respeito aos seus princípios doutrinários, pois não respeita as peculiaridades de cada região, exigindo das localidades recursos que a mesma não tem, e criando um grau de ufanismo que sempre leva ao descrédito das oficinas, pois faz-se os levantamentos ,mas nada ocorre quando terminado os mesmos. O poder local não possui recursos, a iniciativa privada não esta convencida em aplicar seus recursos em coisas duvidosas, pois o governo federal (Embratur) sempre está descapitalizada, por cortes do próprio governo ou por aplicações mal realizadas em seus planos aprovados.

Por que ter um método germânico que já havia demonstrado seu fracasso quando aplicado na Espanha, sendo imposto pelo governo federal em um país continente, em que a diversidade e a multivariabilidade   se mostram relutantes ao método ZOOP e estão criando barreiras isolantes. Nada permanece quando o povo rejeita, seja, pela discussão ou pela luta política, os próprios relatórios do PNMT se restringem à quantificação dos dados, sem apresentar os resultados socio-econômico das oficinas. Essa leitura reducionista do fenômeno social traz um falsidade de interpretações , pois oculta a essência da questão e transmite a aparência dos fatos.

Não sei porque insistir com o programa que possui um tom extremamente doutrinador e transforma seus integrantes em crentes nativos das oficinas, impossível de permitir uma autocrítica. Tudo que se mostra imutável perece na sociedade, pois não obedece as leis históricas dos homens que começarão a exigir mudanças.

Concluindo, gostaríamos de observar que a Embratur não pode ficar alheia ao que ocorre no Brasil, por isso sugerimos ao nosso presidente da Embratur que não esqueça que o real é diferente do concreto e para essa leitura sugerimos o pequeno mas fabuloso texto de Karl Marx "O Método da economia política". Que tal substituir o PNMT por ele, pense, presidente (Embratur) quem sabe saberás entender o que o presidente Lula tem dito sobre  as várias fomes.

Com o respeito devido quero dizer que este artigo foi elaborado com o intuito de somar forças para que a Embratur não permaneça no ostracismo como foi nesses anos anteriores. Mas sim abra um dialogo permanente como os turismólogos e elabore de fato "Uma política Nacional para o turismo brasileiro".

 

JOÃO DOS SANTOS FILHO

     

Bibliografia

MOESCH, Marutschka Martini. A produção do saber turístico. São Paulo: Contexto, 2000

 


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