Vivendo sob o código laranja

Por EVA PAULINO BUENO
Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teachi ng in Japan (JPGS, 2003).

Uns amigos me perguntaram como é viver aqui nos Estados Unidos agora, neste momento em que, pelo que tudo indica, este país vai se meter em mais uma guerra que vai custar vidas em outros países, vidas de americanos, e maus agouros gerais no mundo, senão a própria terceira guerra mundial.  Pra ficar ainda mais complicado, alguns me perguntam como é viver no Texas, terra do muito mal amado George W.Bush, semi-eleito presidente do país.

A idéia que alguns têm — ou muitos têm — é que aqui nos Estados Unidos todo mundo está a favor do que o governo faz. Já tem gente fazendo equivalência entre os desígnios do presidente e a vontade do povo. Claro, tem muitos aqui que já estão enlouquecidos pelo barulho dos tambores de guerra, e já começaram o discurso que nós do Brasil que vivemos no tempo da ditadura conhecemos de perto: quem não está 100% comigo, está com o inimigo. Tem gente equacionando crítica à política do presidente com traição, com lesa-pátria,  com subversão. Tem também uns imbecis que, diante da oposição da França ao ataque ao Iraque, estão jogando for a suas garrafas de vinho francês (diante das câmaras de televisão, claro).  Estes são provavelmente descendentes dos idiotas que arrebentaram em praça pública seus carros e caminhonetes Toyota quando os Estados Unidos e o Japão se desentenderam por causa da política de importação e exportação. Cada país, ao que parece, tem direito aos seus bois de presépio que dizem amem a tudo que o governo os incita a dizer.

Mas tem gente que aprendeu a lição do Vietnã e está contra a política de Bush e contra essa guerra. Estes são também os que se posicionam a favor do povo do Iraque, e que fazem questão de se fazer ouvir, mesmo com as possíveis represálias.  Em minha universidade, por exemplo, já houve várias manifestações contra esta guerra, e o mesmo está acontecendo em quase todas as universidades do país.

Aqui na cidade de San Antonio, sul do Texas, o jornal local, The San Antonio Express News, como muitos outros jornais das maiores cidades do país, no dia  19 de fevereiro trouxe uma página inteira, financiada por doações locais, em que o título é:  “O presidente Bush declarou: ’você está conosco ou contra nós.’ Aqui está nossa resposta:  Não em nosso nome.” E seguem quinhentas assinaturas de pessoas e instituições locais que detalham, no texto colocado na metade da página, várias coisas. Entre elas, destaco, por exemplo:

“Os que assinam esta declaração apelam ao povo dos Estados Unidos para que resistam aos atos e à direção política geral que começou a tomar corpo desde o dia 11 de setembro de 2001, e que estão colocando em grande perigo o povo do mundo inteiro.

Nós acreditamos que as pessoas e as nações têm o direito de determinar o próprio destino, livres de coerção militar por parte dos grandes poderes. . .

Nós acreditamos que as pessoas de consciência devem tomar responsabilidade por aquilo que seus governos fazem — nós devemos antes de tudo opor-nos à injustiça que é feita em nosso nome. . . “

E a declaração dá a lista dos vários atos de exceção que o governo Bush está tomando, em nome do povo americano em geral, sem consultá-lo;a declaração denuncia a ameaça velada de perseguição aos que se opuserem a suas medidas, quando fontes oficiais declaram que as pessoas devem “prestar atenção no que dizem.” A declaração menciona outros lugares do mundo onde há sofrimento indescritível, e alerta ao povo americano que esta guerra, uma vez iniciada, “vai durar uma geração.”

E acrescenta que elas também assistiram, “em choque e horror, os acontecimentos de 11 de setembro de 2001.” E continuam,

“Nós também choramos pelos milhares dos mortos inocentes — ao mesmo tempo que nos lembramos de cenas semelhantes em Bagdá, no Panamá, e, uma geração atrás, no Vietnam. Nós nos juntamos à angustiada pergunta de milhões de americanos que se perguntavam como tal coisa pôde acontecer. Mas o luto mal tinha começado quando os líderes mais altos da nação desencadearam um espírito de vingança. Eles puseram um selo simplista de ‘bem contra o mal’ que foi retransmitido pela mídia tímida e intimidada. . .”

Os assinantes da declaração terminam o manifesto assim:

“Não permitamos que o mundo que nos observa hoje desespere ao ver nosso silêncio e a nossa falta de ação. Ao invés disso, digamos ao mundo, para que todos ouçam nossa promessa: nós resistiremos a máquina de guerra e repressão e incitaremos outras pessoas para fazer todo o possível para pará-la.”

E, no pé da página, há vários endereços da internet para as pessoas verem o texto completo do manifesto (www.nion.us), que os visitantes podem assinar. Há também endereços de organizações em San Antonio que estão coordenando esforços pacifistas.

Então, voltando à pergunta dos amigos do Brasil: como é estar aqui nesta hora? Pra nós brasileiros, que não temos experiência de guerra declarada, esta é uma situação inusitada. Mas como brasileira que viveu for a do Brasil por alguns anos, uma coisa eu aprendi: da mesma maneira que nós não gostamos quando as pessoas que outros países que encontramos acham que somos todos iguais, que todos pulamos carnaval, tomamos cerveja e dançamos samba (e vejam que estes estereótipos não são tão ruins assim), devemos evitar de achar que os americanos todos agem em sincronia, todos iguaizinhos, todos marchando ao ritmo do mesmo tambor.

Claro, é conveniente pra nós despirmos de individualidade o outro, e especialmente demonizar os cidadãos de um país que muitos de nós no Brasil achamos que é responsável pelas mazelas todas da nossa terra. Mas como uma pessoa que mora aqui, e que tem contacto direto com estudantes, seus pais, suas famílias, quero deixar aqui meu testemunho que nem todos estão a favor de uma guerra, seja contra o Iraque ou quem quer que seja. Da mesma maneira que houve críticas a outras guerras em que este país se meteu no passado, a crítica continua agora. Quando você conversar com algum/a americano/a, não assuma logo de cara que ele/a vem de uma forma única. Assim como nós no Brasil, aqui também tem gente de todo tipo.

 

 

EVA PAULINO BUENO

     

 


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