Recife, PE – De Pólo de Açúcar a Pólo de Cultura e Tecnologia

 

Por ANTONIO MENDES DA SILVA FILHO
Professor do Departamento de Informática da UEM. Doutor em Ciência da Computação

“Ensinam os filólogos que a palavra ‘arrecife’ é a forma antiga do vocábulo ‘recife’ e que ambos procedem do árabe, ‘ar-raçif’, que significa calçada, caminho pavimentado, linha de escolhos, dique, paredão, muralha, cais, molhe. No antigo castelhano arrecife tinha o sentido de caminho, banco ou baixio mar ... Porque se originou de um acidente geográfico – o recife ou o arrecife – a designação do Recife não prescinde do artigo definido masculino: O Recife e nunca Recife. Por isso no Recife, do Recife, para o Recife e não em Recife, de Recife, para Recife.” [ J. A. G. de Mello em O Recife e os Arrecifes, Revista do Arquivo Público, No. 13, 19 74.]

Macaratu Piaba de Ouro - Recife. Folguedo de origem africana. O povo do Nordeste e, especificamente, do Recife e Pernambuco tem e exporta muitas coisas, para quem ainda não sabe, como cultura e tecnologia. Assim, o texto abaixo, faz um breve histórico e destaca um pouco da cultura e tecnologia, made in Recife, Pernambuco, Nordeste e, portanto, Brasil.

Nem tudo que reluz é ouro. Hoje em dia, uma das grandes riquezas é a tecnologia. Nos tempos do Brasil colonial, o açúcar foi a grande riqueza. Naquela época, Pernambuco foi a capitania brasileira que obteve maior sucesso durante o período de colonização devido ao fato de ser o lugar mais fecundo para a produção de cana-de-açúcar. O Recife tornou-se capital de Pernambuco em 1827, embora tenha se tornado cidade um pouco antes, em 1823. O Recife é conhecido como a Veneza Brasileira, face a sua similaridade com a cidade anfíbia italiana.

O Recife teve a presença holandesa na primeira metade do século XVII e, face às similaridades com o território holandês, possibilitou a importação de tecnologia flamenga incluindo a construção de pontes e canais com o objetivo de controlar a presença da água sobre o território recifense. Com a expulsão dos holandeses após duas batalhas travadas no Monte dos Guararapes em 1648 e 1649, a capitania de Pernambuco conheceu um período de dificuldades econômicas. Foi veemente a necessidade de reconstrução. Essa necessidade considerada como marco inicial de formação de sentimento de identidade entre os colonos daquela época.

Ao longo do século XIX, o Recife foi inspirado pelo ideário liberal surgido tanto na Europa no século anterior envolvendo a Revolução Francesa (1789) e concepções iluministas quanto na América do Norte com a independência dos EUA (1776). Esses fatos influenciaram a história do Recife no século XIX, o qual foi marcado pela luta política e busca de autonomia. Também, contribuíram para eclodir as Revoluções de 1817, 1824 e 1848. Essas experiências fizeram parte da história política do Recife e, assim, a cidade foi formando uma identidade heróica que faz parte de sua memória até hoje.

O Recife passa de capital da terra do açúcar a capital do carnaval e do frevo no início do século XX. A palavra frevo, que vem de ferver, dar a idéia de efervescência e agitação. O frevo nasceu das marchas e maxixes. Também, afirma-se que as fanfarras contribuíram para a formação do frevo. O carnaval recifense possui música e dança carnavalesca própria, sendo original e nascida do povo. O mesmo é dito da cultura pernambucana. O frevo teve a presença marcante do grande mestre e compositor Capiba (natural de Surubim, cidade do interior de Pernambuco). Entre as músicas de Capiba temos Gosto de Ver Cantando e Ai Se Eu Tivesse.  Agora, pergunto ao leitor: Você sabe onde fica a Casa do Carnaval?

Se respondeu no Recife, acertou. É no Recife, sim senhor, em Pernambuco. Ela fica localizada no coração da cidade no Pátio de São Pedro, 52. Trata-se de uma entidade administrada pela Fundação de Cultura da Cidade do Recife e tem o objetivo de divulgar, promover e projetar tudo que se relaciona com a cultura do carnaval de Pernambuco. Além disso, a cultura pernambucana engloba os Maracatus, Cabloclinhos, Ursos e Galo da Madrugada. Ah, mas jamais poderíamos esquecer o baião que ficou eternizado na voz de Luís Gonzaga. Na literatura, podemos destacar João Cabral de Melo Neto com sua obra “Morte e Vida Severina” e Gilberto Freyre com “Casa Grande e Senzala”.

Na arte de comunicação, não podemos deixar de mencionar o Abelardo Barbosa de Medeiros, mais conhecido como Chacrinha, o qual introduziu o conceito de programa de auditório, tendo alcançado sucesso no rádio e na televisão. Também, destacamos Barbosa Lima Sobrinho, advogado, jornalista, historiador, professor e político. Durante os períodos difíceis do cenário político brasileiro, sempre manifestou-se a favor da ordem e da democracia.

Todavia, Pernambuco não é apenas berço de cultura e produtor de identidade, mas também produz tecnologia, e de ponta. O Cesar (www.cesar.org.br), Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife, foi o único vencedor nas américas num concurso de jogos para aparelhos celular, o Asia Java Mobile Challege (javachallenge.singtel.com). A equipe do Cesar desenvolveu o jogo denominado de Sea Hunter o qual é compatível com celulares da Motorola, Ericson e Nokia. O resultado projeta a imagem de Pernambuco como produtor de software com tecnologia de ponta. Adicionalmente, uma equipe pernambucana de alunos de Informática da UFPE foi finalista do campeonato mundial de programação de computadores promovido pela ACM (Association of Computer Machinery).

Outra experiência de sucesso tem sido o Cesar que tem parcerias com várias empresas como a Motorola, Grupo Votorantin, dentre outras, e reúne professores e alunos do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Além do Cesar, outra frente pernambucana é o Porto Digital (www.portodigital.org) o qual agrupa quase 50 empresas produtoras de software. Entre as grandes empresas, destacam-se a Microsoft e HP.  Essas duas iniciativas envolvendo Cesar e Porto Digital colocam o Recife, Pernambuco, como pólo produtor e exportador de software.

No final de fevereiro deste ano, Pernambuco deu mais um importante passo na ampliação da indústria local de tecnologia. A partir de agora, Pernambuco conta com um Centro de Tecnologia XML (eXtensible Markup Language), novo padrão mundial que permite a comunicação entre diferentes computadores e aparelhos portáteis, com capacidade de integrar grandes corporações, órgãos públicos e empresas. Essa iniciativa engloba o Cesar, a Microsoft, o Porto Digital e o Centro de Informática (www.cin.ufpe.br) da UFPE (um dos grandes responsáveis por esses avanços).

Pernambuco tem sido, ao longo de sua existência, um pólo produtor de matéria prima, intelectuais, cultura e tecnologia, tendo identidade própria e contribuindo para formar a identidade nacional. Isto é uma demonstração de um povo que tem laços com esta chamada “Terra Brasilis”.

ANTONIO MENDES DA SILVA FILHO

     

 


http://www.espacoacademico.com.br/22amsf.htm - Copyright © 2001-2003 - Todos os direitos reservados