RESENHA

D. Hélder Câmara: entre o poder e a profecia

PILETTI, Nelson & PRAXEDES, Walter

São Paulo: Ed. Ática, 1997

Edição Italiana: Dom Hélder Câmara - Tra potere e profezia. Brescia, Queriniana, 1999. Tradução de Enzo Demarchi 


Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente na Universidade Estadual de Maringá e doutorando na Universidade de São Paulo

 

Com o poder e a profecia: a biografia de D. Hélder *

Escrito em parceria, por Walter Praxedes, professor de Sociologia da Universidade Estadual de Maringá e Nelson Piletti, professor de História da Educação da USP, este livro já é considerado como uma obra de referência para todos os interessados em conhecer e estudar a história do Brasil, particularmente as relações entre a Igreja Católica e Estado, desde a ditadura de Getúlio Vargas.

Já nas primeiras páginas, os autores, que tiveram acesso aos documentos secretos da embaixada brasileira em Oslo (Noruega), revelam, de forma inédita, as articulações que o governo do ditador Emílio Médici (1969-74) moveu contra a eleição do então arcebispo d. Hélder Câmara para o Prêmio Nobel da Paz. De um lado, a diplomacia brasileira moveu uma campanha difamatória com notícias "plantadas" na imprensa norueguesa contra d. Hélder. De outro, atuou diretamente junto aos membros do Comitê Nobel, na tentativa de influenciar e mudar os votos.

Os executores desse plano ardiloso contaram com a importante contribuição do empresário norueguês Tore Munch, dono de duas fábricas de guindastes em São Paulo, e de jornais na Noruega. No Brasil, Munch mantinha estreitas relações com o jornalista Júlio de Mesquita Neto, diretor proprietário de O Estado de S. Paulo, o qual ajudou-o a conseguir um Dossiê sobre d. Hélder, que municiou a atuação de um jornalista a soldo do Sr. Munch contra o arcebispo.

A estratégia dos representantes do governo brasileiro, funcionou: em 1970, o Prêmio Nobel foi concedido a um professor norte-americano, especialista em fisiologia das plantas; no ano seguinte, o premiado foi o alemão Willy Brandt (vitorioso por 3 votos a 2).

Esse episódio, contado em detalhes pelos autores, é apenas a introdução. Nas mais de quatrocentas páginas, eles relatam o trajeto percorrido por d. Hélder até o presente. Nesse percurso a biografia e a história do Brasil se fundem. Na primeira parte, os Anos Verdes (1909-1935), observamos no cotidiano das famílias cearenses os laços políticos característicos do coronelismo, o poder e a disputa entre as oligarquias, contraposto à dura realidade do povo diante da seca e da miséria.

São os anos de infância e juventude, da descoberta da vocação sacerdotal e da militância política integralista. Então, o jovem padre defendia a instituição de um Estado forte, centralizado e autoritário, capaz de fomentar a colaboração entre as classes e combater o comunismo, a exemplo do fascismo de Mussolini .

Na segunda parte, os Anos Dourados (1936-1964), os autores expõem como a atuação religiosa e política do padre Hélder evoluiu em direção à defesa da causa dos pobres: o desencantamento diante do integralismo deu lugar à ideologia do Humanismo integral, influenciado pelo livro homônimo do intelectual católico francês Jacques Maritain. Agora, o catolicismo de feição integralista e anticomunista procura se reconciliar com a democracia, condenando todas as formas de totalitarismo, de direita ou de esquerda

A Igreja Católica, embora com a resistência dos tradicionalistas, assumia uma nova postura: de propugnar por uma ordem social justa. A conseqüência imediata era a aceitação da necessidade de estabelecer uma nova forma de atuação dos cristãos, ampliando sua influência sobre as diferentes esferas da vida dos leigos. Tratava-se de reconquistar o apoio que a Igreja vinha perdendo e impedir o avanço do comunismo.

Esse foi o esteio ideológico que contribuiu para a ação política-religiosa do padre Hélder, principal agente da reorganização da Ação Católica Operária (ACO) e do reconhecimento oficial dos movimentos especializados, os "meios" específicos para a ação dos leigos (a Juventude Estudantil Católica, a Juventude Operária Católica etc.). A partir de então, o padre Hélder centraliza todas as energias na organização do episcopado brasileiro: a Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros (CNBB), fundada em outubro de 1952.

Todo esse processo, é descrito minuciosamente pelos autores. Podemos acompanhar os bastidores, as disputas intestinais na Igreja, a capacidade de articulação e o talento do Monsenhor Hélder. A ação de d. Hélder, permeada pelo clima político e ideológico dos Anos Dourados, é analisada com objetividade e mestria.

Se na primeira parte, o texto flui vagarosamente devido às minúcias sobre a vida pessoal e familiar do biografado, bem ao gosto dos que apegam-se estritamente ao estudo do cotidiano, agora, a leitura decorre ao sabor do desenrolar dos acontecimentos históricos. Ao leitor é dado o raro prazer, próprio dos bons livros, de envolver-se e interagir com o texto. A individualidade do personagem principal é alçada à grandeza dos desafios sociais, políticos e econômicos desse rico período da história brasileira.

A última parte, os Anos Vermelhos (de 1964 aos nossos dias), mantém o vigor da anterior. Devoramos atentamente as páginas que relatam esse trágico período da nossa história. Foram anos difíceis. D. Hélder, cuja relação com o poder político sempre pautou-se por uma atitude colaboracionista, passa a ser perseguido, até tornar-se persona non grata para os militares.

Até 1964, o "Bispo Vermelho" não teve dificuldades em transitar pelos corredores do poder econômico e político. Em 1952, por exemplo, logo após a fundação da CNBB e já no como bispo, d. Hélder promoveu um verdadeiro pacto de colaboração com o governo getulista, cujo objetivo era a promoção do desenvolvimento das regiões mais atrasadas do país. A Igreja entraria com sua estrutura, sacerdotes e leigos e o governo pagaria a conta. Os projetos de d. Hélder, fundados numa doutrina social que procurava melhorar as condições de vida da população pobre, promovendo reformas pacíficas da sociedade, sempre tiveram o apoio dos sucessivos governos de Getúlio a Goulart. Essa mesma desenvoltura na convivência com os governantes do pré-64 também ocorreu na relação com o poder econômico. Quando solicitados, os banqueiros, empresários e mesmo as senhoras burguesas do Rio de Janeiro, deram o seu apoio às obras sociais.

Em princípio esse bom convívio não foi prejudicado pelo golpe militar. D. Hélder continuou se relacionando com o poder econômico e não teve dificuldades diante dos primeiros presidentes militares. Ele manteve os mesmos objetivos pastorais e sociais e sua atitude era pragmática: se o governo militar oferecia recursos para seus projetos, tudo bem. Se não, ele continuava a trabalhar por seus ideais, com as próprias forças. Havia mesmo a esperança de que o regime militar realmente colocasse em prática as reformas que a sociedade brasileira necessitava, como por exemplo a reforma agrária.

D. Hélder adotou uma postura independente, acima das disputas entre esquerda e direita. De um lado, isto representava um apoio tácito à dita "revolução" Por outro lado, expressava o desejo de não ser obstado pela esquerda pernambucana em sua ação pastoral, cujas diretrizes emanavam das encíclicas sociais de João XXIII e do Concílio Vaticano II.

Enquanto a hierarquia católica, adotava uma postura anticomunista que resultava na apologia do golpe, dezenas de leigos e membros do clero estavam encarcerados. Esse foi precisamente o ponto de estrangulamento no relacionamento Igreja e Estado. A ação de d. Hélder em defesa dos presos políticos, inclusive visitando vários deles nas cadeias, tornou-se inaceitável para os militares (aliás, um dos mais belos trechos desse livro é o que relata o encontro do católico Hélder com o legendário comunista Gregório Bezerra). Isso, aliado à intransigência e ausência de visão política do IV Exército em Recife, levou à ruptura. D. Hélder passou a ser difamado, ameaçado e censurado (foi banido dos órgão de imprensa, proibidos de fazer qualquer referência ao mesmo).

Não podendo atingi-lo diretamente, um esquadrão paramilitar assassinou, em 1969, um dos seus principais colaboradores, o padre Antônio Henrique. Seus amigos e pessoas próximas estavam sob constante risco de vida. D. Hélder passou a denunciar publicamente os abusos contra os direitos humanos. Em suas conferências no exterior relatou a situação política brasileira, descreveu casos de tortura. Foi essa ação que o tornou um forte candidato ao Prêmio Nobel da Paz.

Nesses "anos de sangue", d. Hélder também, foi perseguido no interior da própria igreja. A correlação de forças na burocracia eclesiástica tornara-se desfavorável à sua atuação. Ele passou a ser censurado pelo poder hierárquico católico: o Vaticano exigiu que diminuísse o número das viagens internacionais, que moderasse o seu discurso público (o qual deveria passar pelo crivo das autoridades hierarquicamente superiores). No Brasil, a situação não era melhor. Atacado por seus próprios pares, acusado de "esquerdizante", simpatizante do comunismo, d. Hélder enfrentou um verdadeiro IPM (Inquérito Policial Militar) interno.

O "arcebispo vermelho" defendeu-se de forma hábil. Mas, manteve a postura de obediência e submissão diante das autoridades eclesiásticas. Obedecer as ordens superiores não levou d. Hélder a abandonar seus projetos, seus ideais, seu programa de atuação social. A capacidade de combinar essa difícil dualidade, constitui um traço característico de sua forma de agir desde os tempos de padre.

O livro de Praxedes e Piletti, permite-nos adentrar nos meandros dessas instituições e seus complexos mecanismos de poder político. Possibilita-nos compreender a exata dimensão e dinâmica de relacionamentos e acontecimentos que fogem ao nosso domínio. Fruto de uma pesquisa minuciosa, com numerosas entrevistas e a análise objetiva de documentos inéditos, esta obra não apenas fornece informações precisas até então inéditas, mas é um retrato vivo das vicissitudes de um personagem mundialmente reconhecido por seu valor humanitário.

A principal virtude dessa obra é precisamente situar o biografado no contexto político-ideológico, sem perder a noção do humano. Não é, portanto, um livro apologético. É uma biografia digna do nome do seu personagem principal e comparável àquelas feitas por grandes biógrafos. Vale a pena ler.

 

ANTONIO OZAÍ DA SILVA
     

* Publicado em Lutas Sociais, n. 05, segundo semestre de 1998 - Revista do Núcleo de Estudos sobre Ideologia e Lutas Sociais (Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da PUC/SP).


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