Um estigmatizado na presidência do Brasil! Vivam os estigmatizados!

 

Por RAYMUNDO DE LIMA
Psicanalista, Professor do Departamento de Fundamentos da Educação (UEM) e doutorando na Faculdade de Educação (USP)

O termo "estigma" surgiu na Grécia Antiga, para se referir aos sinais do corpo que os gregos interpretavam como algo mau daquela pessoa. Assim negativamente marcada, a pessoa deveria ser evitada, especialmente em lugares públicos.

Hoje em dia é considerado estigma qualquer marca diferencial - não somente do corpo - de uma pessoa, que o social se aproveita para reduzí-la à esse sinal. Estigmatizar é como colocar um rótulo em alguém. Pode-se rotular uma pessoa a partir de um defeito físico, a gordura ou magreza, a cor da pele, a estatura, o modo de falar, andar, vestir, se é canhota, enfim, qualquer traço que fuja dos padrões "normais", pode levar um grupo social a discriminar, rejeitar ou excluir uma pessoa ou grupo.

Caetano Veloso declarou que "de perto, ninguém é normal". Algumas personalidades olham os outros como que através de uma lupa procurando defeitos. Para estes, sua lupa somente se fixa nos defeitos dos outros, apequenando o ser pessoal.

O estigma na escola

No cotidiano escolar é estigmatizante e causa sofrimento psíquico quando uma pessoa sente-se reduzida a: "retardado", "escravo", "carvão", "ceguinho", "zarolho", "perna torta", "dumbo" etc. Tais  modos de tratamento, geralmente repetido de modo zombeteiro e depreciador, no mínimo, terminam irritando a vítima ou colando nela como apelido.

Freqüentemente, crianças de classe média discriminam as pobres, os menos pobres também discriminam os ainda mais pobres, as brancas tendem a discriminarem as que são negras, asiáticas ou indígenas. Quando pequeno, sofri discriminação por ser filho de pais desquitados. Fui exposto em sala de aula pela professora, que não tinha noção de que me constrangia fazendo perguntas sobre minha situação particular. Recentemente soube que, nas escolas, crianças e adolescente que sentem-se discriminados porque simplesmente usam óculos; também uma adolescente grávida é tão discriminada quanto um garoto que perde o cabelo no tratamento quimioterápico. Enfim, ser diferente na escola - aluno ou profissional - ainda é alvo de estigmatização por aqueles que se acham perfeitos. Tal como está na Bíblia, se pudessem, alguns atirariam pedras nos diferentes por ter uma marca física, psicológica, racial ou cultural.

Se a escola "deixa" que esse tipo de atitude discriminatória ou excludente continue, estará "autorizando" o desenvolvimento de cidadãos injustos, superficiais e maus. O adulto que estigmatiza, discrimina e exclui seu semelhante certamente aprendeu quando criança a agir assim.

A escola e universidade são instituições que supostamente reinam a razão (logos), mas na prática é um espaço social dominado pelas paixões (pathos), preconceitos, estereotipias e estigmas. Grupos ou "panelas" nelas existentes, são sintomas de que nelas reinam paixões jamais discutidas ou investigadas. Há uma espécie de acordo de cavalheiros nessas instituições em não tocar em determinados assuntos, como por exemplo, a questão racial, as discriminações dirigidas a um professor seguidor de uma determinada linha teórica divergente, fora do cânon... Na minha experiência de professor, convivi com colegas de cursos de psicologia em que os behavioristas não se aproximam dos psicanalistas; na pedagogia, onde os piagetianos não se misturavam com os vigotskianos; nas ciências sociais a verve crítica tende a metralhar tudo, menos a si mesmo, ou seja, conforme o dizer de P. Demo, são "dialéticos para fora e funcionalistas para dentro" (Demo, P. Dialética da felicidade. V. 3. Petrópolis, Vozes, 2001, p. 59), etc.

Que fazer quando esses profissionais em vez trabalhar para diminuir reforçam estereótipos e estigmas? Que fazer quando sabemos que o professor estigmatiza um aluno ou colega porque, no fundo, carrega o preconceito contra nordestino ou é racista contra negros? Que fazer se a escola - mesmo sem querer - também reproduz os estereótipos e preconceitos existentes na sociedade?

Professores e demais funcionários também sofrem de serem vítimas de apelidos e exclusão, tanto pelos alunos como pelos próprios colegas de trabalho. Os sinais de exclusão mais freqüentes acontecem através do olhar, do distanciamento do corpo, das palavras que visam "queimar" socialmente a pessoa, geralmente feito em forma de cochicho, de meias palavras, insinuações e, nos casos mais graves, através de atos de exclusão camuflados hoje tipificados de "assédio moral". O "assédio moral" é uma atitude psíquica ainda mais violenta, pois causa profundos danos na personalidade da vítima indefesa. Segundo estudos, o "assédio moral" acontece quando alguém ou um grupo tentam destruir a auto-estima de outra mais frágil ou marcada por algum atributo que chame a atenção. A vítima não sabendo como reagir, introjeta o estigma, terminando por achar-se merecedora da rejeição. Ela pensa: "Se todos vêem que sou tão defeituoso, feio, ruim, logo, devo aceitar isso como verdade".

Recentes investigação das causas dos atos amoucos em que jovens cometeram assassinatos múltiplos em algumas escolas norte americanas, divulgado no programa de tv "60 minutos" (2003), aponta a estigmatização, a intimidação, a provocação, com um flagelo em todos os EUA e acontecem diariamente nas escolas. "Todos os dias mais de 100 mil crianças deixam de ir à escola, por temor dessas ameaças". Após esse estudo, esses crimes não mais são considerados produtos de psicóticos ou loucos. Suspeita-se que a maioria dessas tragédias "absurdas" naquele país é decorrente "dessa situação infernal em que jovens são humilhados todos os dias e que decidem preferirem matar ou morrer a serem provocados outra vez".

O estigma muda para ficar no mesmo

Na época da ditadura militar, ser rotulado de "subversivo", "comunista" ou "reacionário"  podia afetar a imagem social da pessoa. No período democrático de FHC, não ficava bem uma pessoa ser rotulada de "neo liberal" ou "chapa branca", mesmo que o sujeito não comungasse desse tipo de ideologia.

Até hoje "queimar" politicamente alguém é como jogá-la no fogo dos infernos da sociedade, de onde será muito difícil ela sair de lá. Na China quando um membro do governo não é mais aceito se diz que "caiu em desgraça" social.

Em variados momentos da história da humanidade muitas pessoas consideras "diferentes" da maioria sofreram maus tratos ou foram destruídas ou até exterminadas. A inquisição religiosa, a chamada "caça às bruxas", a "solução final" contra os judeus, a "caça aos comunistas", a "revolução cultural chinesa", são alguns maus exemplos da história da humanidade onde rotular alguém ou grupo foi condição sine qua non para destruí-las. Pode-se dizer que a história da humanidade é uma história de intolerâncias, perseguições e atrocidades cometidas em nome de alguma idéia, crença ou moral, por pessoas consideradas "certas", "perfeitas". Caberia aos demais apenas o dever de submeter a essa crença, senão... (Leiam aqui, no Espaço Acadêmico, n. 17, out/ 2002, o artigo "Burakumin", de Eva Bueno, analisando o grupo social mais estigmatizado no Japão. Os burakumins são considerados pela sociedade japonesa os "párias", os "impuros", "inferiores", e não devem misturar-se a sociedade normal, revela Bueno. Lembramos também os brasileiros, dekasseguis, que sofrem o estigma enquanto trabalhadores imigrantes na terra do sol nascente). 

O estigma também atinge grupos culturais e religiosos fechados ou não compreendidos. Após o 11 set.2001, nos EUA, qualquer pessoa parecida com árabe ou que vista como muçulmano, é vista como uma terrorista em potencial. Mais que um erro de generalização é um ato estigmatizante que pune injusta e indiscriminadamente todos os membros de culturas que não sejam anglo-saxônicas.

Muitos estigmas morrem após ter passado as contingências da época. Na década de 70, no Brasil, a palavra "subversivo" causava arrepios, hoje está esvaziada de sentido, pois o momento político e outro. Nosso presidente Lula, sofreu estigmas de "subversivo", de "operário", "nordestino", "deficiente físico" (por ter perdido um dedo em acidente de trabalho), também por não possuir diploma de nível superior, etc

Mas, existem estigmas que tem o poder de deixar a pessoa marcada para sempre. Por exemplo, a marca de "traidor", "delator", "alcaguete", "dedo duro", tem o poder de fixar na memória social, causando sérios danos sócio-psicológicos no seu portador que poderia carregar tal marca maldita para sempre. Nos anos da ditadura, o famoso cantor Wilson Simonal foi considerado "dedo duro" no meio artístico e nunca mais conseguiu se reerguer na carreira profissional. Não sabemos ao certo qual era o fundo verídico desse boato, mas o estigma de "dedo duro" pegou no cantor de músicas como "Pa-tro-pi" e "Samarina" que ficou impedido de exercer sua profissão e morreu esquecido.

Estigmatização camuflada

A Profa. Leny Mrech, da USP, nos alertou sobre os atos e palavras que passam por inocentes [literalmente em latin in + nocens = não nocivo, sem maldade] mas que no fundo portam estigmas e  desejo de exclusão. Por exemplo, quando alguém diz "meu aluno down" (ao se referir a um aluno portador de deficiência mental), ou "minha amiga, que é deficiente física...", será que não está fazendo um ato de exclusão social? Lembro-me de um colega da universidade pretendendo passar um "elogio" a uma colega, dizendo: "apesar de ser mulher, ela é uma boa profissional". Certa vez, presenciei de um encontro patrocinado para se discutir os rumos da cultura da cidade, um rapaz branco dirigiu-se ao público pedindo licença para chamar os negros presentes de "marrons", pois assim ele pensava não estar sendo racista. Será que esses atos não são de exclusão e racismo, camuflados? Perguntemos as pessoas "vitimadas", como se sentem tratadas dessa maneira ?

Finalmente, não podemos esquecer outra faceta quanto ao uso de estigmas. Pessoas ou grupos, por algum interesse escuso, costumam usar do engenhoso artifício de forjar uma falso estigma sobre alguém que eles odeiam com a finalidade de queimá-lo. Casos comprovados criminalmente, como a Escola Base, de São Paulo, e outro retratado no filme norte-americano "Acusação", em que professores e diretores foram acusados injustamente de pedofilia. Diante de maquinações como essas, é praticamente impossível remover de si tal marca totalmente, mesmo sendo mentira. Porque mesmo sendo comprovado ser falsa a acusação o imaginário social ficará sempre com a suspeita ou dúvida. J. Goebbs, espécie de ministro das comunicações de Hitler, formulou o dito "uma mentira repetida várias vezes, termina virando verdade". As vezes uma pessoa fica marcada a vida toda, sem motivo, sem merecer, pela via da repetição do boca a boca. Um famoso cirurgião plástico, nos EUA, sofreu o boato de que estava com AIDS, no início do aparecimento dessa doença, quando ela foi chamada de "peste gay". Perdeu todos os clientes, caiu em depressão, e terminou se exilando  noutro país para sobreviver pessoal e profissionalmente

 

Esse artigo foi escrito inicialmente para pais, visando a educação dos filhos. A conclusão provisória é: se os pais deixam de corrigir a conduta dos filhos que teimam em estigmatizar e excluir os coleguinhas, ainda poderíamos contar com os professores um penúltimo recurso de re-educação. Mas, isso só seria possível se os professores antes souberem trabalhar em si próprios virtudes como: a tolerância, o respeito ao próximo, a polidez, a temperança, a generosidade, a humildade, a boa-fé . A educação deve ir para além do ensino de conhecimentos e da simples tomada de consciência dos problemas humanos; além de palavras do professor (cuspe e giz) deve-se propor exercícios de atos de cidadania de todos. Afinal, não é suficiente ter boas intenções, é preciso passar ao teste da realidade.

 

Quanto às crianças que pertencem a grupos minoritários, o psicólogo social Kurt Lewin, elaborou 4 princípios para a  sua educação:

1. A criança, desde cedo, deve tomar consciência de sua condição,  da qual grupo pertence, os constrangimentos e discriminações dos quais sofrem.

2. Sensibilizar a criança desde cedo ao fato de que essa questão [discriminação, estigmatização, preconceito, racismo, exclusão] não é pessoal, é antes uma questão social e histórica.

3. Os pais devem deixar de pressionar as crianças a adotarem uma conduta exemplar em presença dos outros. Deve evitar de constranger a criança a ambicionar altos postos nas diferentes esferas em que se orienta. Dito de outro modo, é necessário libertar a criança do mito de que será facilmente aceita pelos outros se sobressair. Por exemplo, quando diante de expressões anti-semitas ela estará imunizada contra o jogo dos mecanismos de auto-acusação, os quais são disparados como defesa contra a discriminação.

4. É fundamental ensinar desde cedo ao jovem  minoritário estigmatizado, que o verdadeiro perigo para ele é de ser, durante toda a sua vida, um sujeito à margem da sociedade, que tenta integrar-se e assim permanece um  eterno adolescente - por um lado, incapaz de se identificar com seu grupo de origem e também com o grupo que deseja pertencer.

[Fonte: MAILHIOT, G. Dinâmica e gênese dos grupos. São Paulo: Duas cidades, 1976, p. 30-61]

 

PS: Um estudo clássico sobre esse assunto é de GOFMANN, E. O estigma. Ed. Zahar. Recentemente foi publicado o livro de HIRIGOYEN, M-F. Assédio moral; a violência perversa do cotidiano. Ed. Bertrand-Brasil, 2000. Tb. documentários apresentando workshops sobre o racismo, nos EUA,  conduzido pela Profa. Jane Elliot, "Olhos azuis" em 2 partes, [1996] e "O olhar indignado de Jane Elliot" [1998?}. Produção da Dentkmal Films, EUA; Br-GNT. O programa "60 min", foi transmitido, no Brasil, pelo GNT, de 24/01/2003).

 

RAYMUNDO DE LIMA

     

 


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