Kim Jong Il, gênio ou louco?

 

Por EVA PAULINO BUENO
Professora de Espanhol e English Communication na Mukogawa Women's University, em Nishinomiya, no Japao; autora de Mazzaropi, o artista do povo - EDUEM, 2000.

Líderes das Coréias

Quem diria: um país pequenininho, que não produz praticamente nada, que durante o século XX foi invadido, destroçado, escravizado e incorporado pelo Japão, depois bombardeado até quase a idade da pedra pelos Estados Unidos, finalmente dividido em duas partes, e cuja parte norte tem vivido sob um regime totalitário de fazer inveja a qualquer outro regime totalitário, e que vive às beiras da fome generalizada, está fazendo o Japão; a Inglaterra e os Estados Unidos dançarem a música que ele toca. Sim, quem diria? O fato é que a Coréia do Norte está fazendo exatamente isto. Como tal coisa pode ser explicada?

Tem os que acham – e não são poucos – que o líder norte coreano Kim Jong Il não é bom da cabeça, afinal, o país tem muito pouco poder de negociação, e está praticamente isolado no mundo. Os que têm esta opinião argumentam que o que Kim Jong Il tem feito, praticamente provocando os Estados Unidos, é coisa de louco. Qualquer outro líder, especialmente depois que Bush colocou a Coréia do Norte na lista dos países compreendidos como o "eixo do mal," teria tentado ou manter-se fora da lente americana, ou desconversar. Não o Kim Jong Il, que decidiu fazer exatamente o contrário, e praticamente se acusou de ter começado seu programa nuclear, e deixou várias insinuações no ar sobre a possibilidade de estar com a bomba atômica a caminho.

Para qualquer pessoa que mora no Japão, a possibilidade que tal bomba exista é amedrontadora. O Japão é vulnerável a mísseis da Coréia (ou das Coréias, caso a amizade coma Coréia do Sul azede), e tem tido motivos para temer os vizinhos. De vez em quando a marinha japonesa tem escaramuças com "barcos misteriosos" que invadem suas águas, e houve recentemente um caso em que navios militares japoneses foram atacados por um barco que parecia ser pesqueiro, mas não tinha identificação, e estava em águas territoriais japonesas. Na troca de tiros que se seguiu, o misterioso barco foi afundado, e mais tarde equipes submarinas resgataram o que diz em ser provas que o barco era da Coréia do Norte. No Japão atual, o medo mais constante é o medo dos mísseis que a Coréia do Norte diz que tem, apontados para o Japão.

Outro exemplo do que a Coréia do Norte pode fazer, e já fez, é a questão dos jovens japoneses seqüestrados e "desaparecidos." O ano passado, depois que o primeiro ministro japonês Juinichiro Koizumi fez uma visita oficial à Coréia do Norte, os japoneses que haviam sido seqüestrados há mais de 20 anos puderam voltar ao Japão para uma visita aos familiares. A confirmação da existência destes cidadãos japoneses na Coréia do Norte finalmente colocou um termo na especulação do que teria realmente acontecido com os jovens japoneses que tinham desaparecido misteriosamente: eles tinham sido raptados e levados para a Coréia do Norte para ensinar japonês a espiões coreanos, que viriam ao Japão e se infiltrariam no país. Só que nem todos que desapareceram em circunstâncias idênticas reapareceram: a Coréia do Norte admitiu que muitos deles "morreram." No Japão, para os parentes dos desaparecidos, ficou a certeza que seus entes queridos foram executados na Coréia por não terem colaborado com o regime.

E possível dizer-se que Coréia do Sul é tão vulnerável quanto a do Japão. Está muito claro para todos que o fato da Coréia do Sul e a Coréia do Norte terem sido o mesmo país, e de que parentes ainda hoje vivem separados nas duas Coréias não salvaria Seoul de um ataque selvagem. Tal é o caso, que agora já se começam a descobrir provas que o govern o de Kim De Jung–que está deixando o poder na Coréia do Sul - foi praticamente chantageado pela Coréia do Norte, a qual permitiu que parentes separados desde a divisão da Coréia pudessem se reencontrar, mas somente se a Coréia do Sul fizesse uma série de concessões, doações de comida e outros benefícios.

Então, Kim Jong Il, que pode parecer um maluco aos olhos de todos, na verdade é um líder extremamente astuto e capaz. Ninguém deste lado do mundo conseguiria convencer a qualquer outra pessoa que ele é um líder justo, interessado no bem estar de seu povo. É um fato conhecido na Ásia que as punições aos dissidentes na Coréia do Norte são atrozes, e nas grandes cidades da China há sempre um contingente de refugiados norte coreanos que enfrentam as maiores dificuldades para terem a oportunidade de viverem em um lugar onde pelo menos – apesar das agruras de uma vida sem documentos e sem quaisquer direitos – possam comer. Várias agências internacionais têm chamado a atenção para a situação calamitosa da população civil da Coréia do Norte, e são freqüentes as tentativas de fuga para a Coréia do Sul.

Mas a Coréia do Norte, país pequeno, praticamente sem amigos, está fazendo com que a ONU preste atenção às suas exigências, e, ainda mais importante, está fazendo com que o governo de George W. Bush engula suas próprias palavras. Vale recordar que Bush assumiu o poder criticando o governo de Bill Clinton pela maneira que tinha tratado a Coréia do Norte, e dizendo que dali pra frente, tudo ia ser diferente, e que Kim Jong Il teria que aprender a ser mais humilde, e deixar que os poderes mundiais lhe dessem uma lição, está tendo que admitir que vai ter que fazer um acordo semelhante com Kim Jong Il. Obviamente, a situação da Coréia do Norte pode mudar de um dia para o outro. Mas, por enquanto, é ainda uma coisa terrivelmente admirável o que Kim Jong Il já conseguiu, fazendo com que os Estados Unidos parassem pra escutar, e prestar atenção. Por outro lado também é possível que, como dizem alguns, além da habilidade política de seu "querido líder," a maior arma de defesa da Coréia do Norte é a sua total falta de petróleo. Talvez uma das medidas do gênio de Kim Jong Il é que ele sabe disso, e se aproveita das vantagens que isso traz ao seu país.

 

EVA PAULINO BUENO

     

 


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