Lula na Europa

 

Por CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO
Doutoranda em Filosofia (Universidade Paris X - Nanterre)

Arco do Triunfo - Paris - França

O presidente brasileiro, Luis Inácio Lula da Silva, tem sido destaque na imprensa européia desde a sua triunfante vitória. Nas última semanas, comenta-se ainda mais, por causa do terceiro Forum Social Mundial (FSM) ocorrido, em Porto Alegre, ao mesmo tempo em que o Fórum Econômico Mundial (WEF), em Davos, na Suíça. O Tema deste último foi “Reconstruir a confiança”, com o intuito de recuperar a confiança em si mesmo, devido ao fato de estar sendo classificado como “um valor em baixa” diante do “valor em alta” do FSM.

A criação do FSM é tida como um anti-Davos , no entanto, hoje, de acordo com Benoît Berger - membro do conselho internacional do FSM, mesmo que Davos deixe de existir, Porto Alegre já adquiriu uma dinâmica própria pra continuar, pois contou, este ano, com aproximadamente 100.000 pessoas discutindo sobre o tema: “Um outro mundo é possível”, enquanto o suíço oscilou entre 2.500 e 6.000 participantes.

Lula tem figurado entre os nomes de peso que estiveram na turística estação de esqui para o evento, como Bill Gates - fundador da Microsoft, Pascal Chouchpin - presidente da confederação helvética, e até mesmo, os atores Richard Gere e Júlia Ormond. Em contra partida, Klaus Schawb - presidente do WES - deplorou a ausência de Jacques Chirac, que nunca aceitou participar da reunião. Na verdade, a União Européia não foi representada por nenhum chefe de Estado ou governo e tampouco do ministro das relações exteriores.

Entretanto, a esquerda francesa, como sempre, foi presença marcante na capital gaúcha, com o objetivo, entre outros, de estudar o “caso brasileiro” e trocar idéias sobre o que deveria ser a natureza da esquerda em frente ao capitalismo mundializado. Segundo a pesquisadora Sophie Meunier, a questão da mundialização foi uma das causas, ainda que discreta, do sucesso da esquerda nas eleições francesas de 2002; primeiramente porque o governo Jospin contribuíra para legitimar um discurso crítico sobre a mundialização, abrindo, a partir disso, um grande caminho para os candidatos da extrema esquerda; em segundo lugar, porque as constantes críticas denunciam a aparente impotência do Estado em relação às divergências externas e à um batalhão de acionários apátridos.

Os partidos extremistas franceses têm, dos dois lados, ganho pontos pelo movimento anti-mundialização, considerando o sentimento nacionalista de estarem sendo ameaçados pelos imigrantes, pelos eurocratas ou pela própria mundialização. Assim sendo, torna-se mister a participação de fóruns como o brasileiro, visando compreender melhor o fenômeno e discutir o que fazer para evitá-lo.

Para a maioria dos europeus, Lula é sinal de equilíbrio: não opõe-se à mundialização mas quer modulá-la para que haja um melhor aproveitamento, partilha e reciprocidade do mercado livre, considerando-o uma das armas para sair do subdesenvolvimento. A baixa de 2,80% do dólar, na sexta-feira - 24 de janeiro, e sobretudo o jeitinho brasileiro do presidente de sair-se bem em relação aos seus partidários, completamente contra sua participação no WES, fez com que o velho mundo aprofundasse a vontade de conhecer, ainda mais, o “líder sindical metalúrgico” que revolucionou a historia política mundial e que declara querer passar em Davos a mensagem social discutida em Porto Alegre.

Admiração, desconfiança ou simples curiosidade, faz com que a imprensa do hexágono não cesse de divulgar as façanhas do destemido presidente, que não deixa de ser inspiração para sua política, despertando discussões polêmicas. Para exemplificar, finalizo, aproveitando a manchete de um grande jornal: “Lula: seguir ou não o exemplo do presidente brasileiro?”.

 

CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO

     

 


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