RESENHA

O menino que ganhou uma boneca

Majô Baptistoni

Maringá, Ed. Massoni, 2002


 

Por RAYMUNDO DE LIMA
Psicanalista, Professor do Departamento de Fundamentos da Educação (UEM) e doutorando na Faculdade de Educação (USP).

 

O menino ganhou uma boneca e aí... 

Convidaram-me a comentar o livro "O menino que ganhou uma boneca", de Majô Babtistoni. [Maringá: Ed. Massoni, 2002].

Dirigido para o público infantil e também para os pais, o livro é uma delícia de se ler. À medida que vamos avançando na leitura envolvente pelo simbolismo seu intencional sobre os dogmas de gênero, os preconceitos, a intolerância, o trabalho sobre a resistência de reconhecer e imaginar como é o outro mundo psicossexual, o livro termina oferecendo uma reflexão ativa que fatalmente nos induz a revermos os conceitos e os pré-conceitos sobre a psicossexualidade humana e suas diferenças psicológicas e culturais.

Também o trabalho estético, os desenhos, sincronizados com o sentido das frases do texto, é simples, inteligente e cativante.

Após ter terminado a leitura, lembrei-me de dois escritores brasileiros: Mário Quintana e Monteiro Lobato. Quintana dizia que um bom livro não deve apenas embalar, mas sobretudo deve saber abalar as mentes e atitudes. Quanto a Lobato, no reconhecimento de que esse escritor escrevia não só para crianças mas para qualquer adulto que mantêm a criança dentro de si,  com sua  curiosidade, espírito alegre, energia para movimentação e a liberdade de ver, pensar, agir, sentir. 

Pois bem, em poucas páginas, esse "livrinho" consegue ao mesmo tempo, embalar e  abalar a base machista da educação tradicionalista e autoritária. Como já disse, é uma história para criança e também para os pais e professores. Contribui tanto para a formação da personalidade virtuosa da criança, como também provoca, no adulto, uma reflexão sobre suas crenças, valores, preconceitos, estígmas e estereotipias culturais aprendidas. Sou mais favorável indicá-lo para os professores e pais, pois estes ainda são os agentes principais da educação; deixá-lo apenas a criança se "virar" numa leitura consumista, rápida e sem testemunha de seu ato e provocador de seu necessária reflexão, parece-me desperdício de ensino e aprendizagem. Após ter lido, levei para meu filho de 9 anos ler...Claro, depois que ele leu, conversamos sobre o livro e a vida.

Majô, a autora - que não conheço pessoalmente -, através de uma história simples, consegue com sutileza e inteligência, mexer nos clichês adormecidos e mantidos pela cultura que hoje parece camuflar e denegar os estereótipos e preconceitos, principalmente quando estes se expressam na ação educativa. Ainda as dimensões "demasiadamente humanas", que ainda hoje são muito complicadas para serem traduzidas em palavras são a psicossexualidade, os preconceitos e a inveja. Segundo uma pesquisa, de casa 10 pais, apenas 3 conseguem conversar com os filhos sobre esses assuntos. No campo teórico, a psicanálise trabalhou bem a primeira e inventou uma clínica para trabalhar ou tratar dessas três "coisas" humanas, mas com humildade ela reconhece sua insuficiência teórica-metodológica para modificar ou transformar essas "coisas" em objetos de orientação do sujeito autêntico.

Por que as pessoas reagem negativamente se o menino brincar de boneca?

Por que desde bebê as pessoas de plantão escolhem para que a menina use cor rosa e o menino azul? Por que a menina tem que brincar só com menina e o menino só com meninos? Por que tempos atrás - e, ainda em muitos países é assim - existem salas de aula para meninos e salas de aulas para meninas? Por que a cultura impõe essas normas e regras sem discuti-las? Por que a mulher é ainda sempre posta em posição de submetimento, numa cultura mais do que outra? Que pensar sobre o papel do grupo versus o sujeito, na determinação de escolhas e jeito de ser? Sexo é a mesma coisa que "sexualidade" ou, melhor, que  a "psicossexualidade" como Freud se referia? Qual é a função dos pais e da escola na educação? Que posicionamento devemos tomar para contribuirmos por uma formação cuja personalidade seja sadia, aberta e pronta para ser feliz?

Essas e tantas outras questões, creio que o livro O menino que ganhou uma boneca, pode  ser um bom disparador para ajudar a abalar as estruturas psíquicas, promover o debate e apontar novos caminhos para melhorar as relações humanas. Sem exageros, penso que também pode contribuir para fazer laço com algumas idéias avançadas de autores como Freud, Reich, Klein, Lacan, Foucault, Ariès, Lash, Winnicott, etc. Há um desafia aí para ser pesquisado.

Num mundo cada vez mais sem coração e sem sabedoria, mas em compensação muito poluído de tudo, inclusive de informação, cientificismo, estetismo e fanatismo, precisamos ler mais livros de ficção, romances; quem sabe por aí se não pudermos resgatar nossa infância perdida, pelo menos podemos nela mirar coisas como a alegria, a inocência, a autenticidade e a esperança.

Boa leitura e boa conversa.

 

RAYMUNDO DE LIMA
     

 


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