Entre a razão e a emoção

 

Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Professor da Universidade Estadual de Maringá; doutorando na Faculdade de Educação (USP); autor de História das Tendências no Brasil. .


Os olhos lacrimejam. As lágrimas denunciam a emoção. As imagens sucedem-se velozmente e embaraçam o pensamento: o que vejo na TV mescla-se com as lembranças; essas, como que um tesouro guardado num cantinho da mente, se sobrepõem. Passado e presente, realidade e memória, confundem-se. Perco o senso crítico, a emoção cala fundo: a política humaniza-se e revela o aspecto irracional, costumeiramente oculto sob a racionalidade dos meios e fins e das ideologias que nos absorvem. A impressão que tenho é que o futuro chegou, os sonhos transformaram-se em realidade.

Recordo rostos, corpos, lugares e momentos: símbolos de uma época distante na qual o futuro parecia estar ao nosso alcance, uma época de sonhos. Nomes sem rostos, rostos sem nomes: os anos são implacáveis e transformam as nítidas imagens de ontem em penumbras, figuras quase indecifráveis, como um quadro desgastado pela ação do tempo. Quantos se perderam pelo caminho?

A erosão da memória causa melancolia. Porém, as imagens na televisão me conduzem ao presente e ajudam a lembrar dos nomes e rostos que permanecem, amizades construídas que resistem ao tempo e à distância. O passado se mantém presente: a alegria supera a tristeza.

A atenção volta-se para a TV: vejo rostos metamorfoseados; cabelos e barbas grisalhas denunciam a inexorabilidade do tempo. Com um sorriso quase imperceptível recordo companheiros que, inabaláveis, anunciavam a boa nova aos incrédulos e profetizavam o caráter inexorável do socialismo. Ainda que suas certezas absolutas tenham sido abaladas pelo tempo e pelos muros que caíram; ainda que seus alicerces tenham se mostrado frágeis e seus castelos de areia tenham sucumbido ao turbilhão que assolou rígidas doutrinas  e sectarismos imperantes; eles também são os construtores do presente, os que plantaram e cultivaram as árvores, cujos frutos, amargos ou doces, colhemos hoje.

Lembro-me dos que ficaram pelo caminho e dos rostos anônimos consumidos pelas misérias humanas. Uns sucumbiram à única certeza absoluta que faz de nós humanos: a finitude. Outros foram derrotados pelas fragilidades inerentes à vida: vícios e tragédias. Há, é claro, os que se remediaram como puderam – a vida lhes sorriu e se mostrou mais generosa.

Alguns venceram! Mas, as estrelas não brilham acidentalmente: os aplausos merecidos aos que se destacam, muitas vezes abafam o choro dos que carregam o piano e não podem ouvir a melodia e compartilhar do show. Resta-lhes o consolo de serem lembrados por outros de igual infortúnio e de saberem que, a despeito dos dissabores da vida, são os edificadores de líderes, sustentáculos dos edifícios que simbolizam a esperança; resta-lhes a alegria de se identificarem com os vencedores e de nutrirem a esperança.

É impossível não se deixar tomar pelas recordações. As imagens sintetizam vidas, alegrias e tristezas. A diplomação e a posse do Companheiro Presidente emociona porque nos sentimos parte desse processo. Desmistifica-se o ritualismo da educação formal e do cargo. As notáveis personalidades da República, repletas de títulos e diplomas, curvam-se ao homem que simboliza a gente simples, os que não tiveram acesso aos bancos das universidades. Os narcísicos doutores são obrigados a reconhecer que a educação informal também é importante.

Lula chora: é o seu primeiro diploma. Quantos não se sentiram igualmente diplomados? Quantos não choraram como ele? É impossível não se sensibilizar com essa imagem. Nos emocionamos com a sua posse. Sua fala demonstra consciência dos desafios que têm pela frente, sabe que não pode decepcionar.

Seu discurso é esmiuçado pelos analistas políticos. Uns enfatizam o grau de conservadorismo e o excesso de pragmatismo. Os críticos apregoam a necessidade de rupturas e os mais afoitos insinuam que o governo recém-empossado trai seus eleitores e as perspectivas mudancistas vendidas como mercadoria de campanha. Será que entre nós repete-se o episódio argentino patrocinado por De La Rua?

Na verdade, Lula segue o rumo traçado em plena campanha eleitoral e o PT consolida a política melhorista iniciada com a tese da acumulação de forças, adotada pelo V Encontro Nacional (1987). O que transparece na trajetória petista é a capacidade histórica das forças que expressam mudanças, ancoradas num maior ou menor radicalismo, metamorfosearem-se em forças legitimamente reconhecidas como integrantes da ordem social vigente e da sua conservação. Essa política traduziu-se, em termos literários, na máxima lampedusiana: “Se quisermos que tudo fique como está é preciso que tudo mude”. (LAMPEDUSA, 1974: 42)

Esse processo integracionista, que nulifica antagonismos e transforma revolucionários de ontem em conservadores de hoje, deita raízes em nossa formação social e histórica. Manuel Bonfim, observou-o de forma exemplar:

“Parece um paradoxo, tão estranho é: pouco importa a luta, os conflitos, levantes e revoluções que tenham trazido o indivíduo ao poder, uma vez ali, "sentindo as responsabilidades do governo”, o verdadeiro homem se revela; tudo parou, o revolucionário de ontem desaparece, as gentes ponderadas e graves podem aproximar-se – ficarão encantadas de verificar que mundos de sensatez nele se encerram ali; ávida vai continuar tal qual era; “o período de agitação acabou, as responsabilidades, etc., impõem o dever de não criar dificuldades novas”. Quer dizer: todo o esforço agora é para impedir que se dê execução às reformas em nome das quais se fez a revolução, e para defender os interesses das classes conservadoras, a fim de acalmá-las.” (BONFIM, 2000: 735)

Mudam os nomes, a essência da política continua a mesma: mudar para conservar... Esse paradoxo se repete em vários momentos da nossa história – como a Independência, a República etc. Agora, será diferente?! O Companheiro Presidente reafirma seu compromisso com a mudança. Ele sabe-se depositário da esperança de milhões de brasileiros. Também sabe que conta com o apoio popular e que o povo, com as frustrações e desesperanças, acumulou aprendizado. Aos apressados e voluntaristas, Lula alerta que as mudanças obedecerão a ritmos próprios, determinados pelas condições reais: tudo será feito dentro da ordem, com diálogo, paz e amor.

Resta saber qual o limite da paciência popular e até quando prevalecerá a lua de mel. De qualquer forma, a leitura dos nossos clássicos e, em especial, da obra de Manuel Bonfim, escrita há um século atrás, é uma enorme contribuição para o entendimento dos novos-velhos tempos em que adentramos.

 

 

ANTONIO OZAÍ DA SILVA

     

Bibliografia:

BONFIM, Manuel. A América Latina: Males de Origem. In: SANTIAGO, Silviano. (Org.) Intérpretes do Brasil. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 2000, pp. 607-917

LAMPEDUSA, Giuseppe Tomasi Di. O Leopardo. São Paulo, Abril Cultural, 1974.

 


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