Cotas: A Resistência dos Mestiços

 

Por WALTER PRAXEDES
Doutor em Educação (USP), Sociólogo e Professor da Universidade Estadual de Maringá e Faculdades Nobel.

Barbeiros ambulantes, Debret (Séc. XIX) *

Uma das grandes dificuldades para pensarmos sobre como implementar uma política emergencial de cotas mínimas para o ingresso de estudantes negros no ensino superior brasileiro, tendo como objetivo acelerar a melhoria na condição educacional e sócio-econômica dos cidadãos negros, é a resistência de muitos mestiços contra tal iniciativa.

Nós, mestiços, como sujeitos culturalmente híbridos que compõem a maioria dos cidadãos deste país multiétnico e multirracial, muitas vezes nos sentimos agredidos com a proposta do estabelecimento de cotas para os afro-descendentes que possuem a cor da pele mais escura, talvez porque ela contrarie duas importantes formas de ideologia que fundamentam a nossa “razão de viver” e nos motiva na construção de nossas trajetórias. Estou me referindo à “ideologia do mérito” combinada com a “ideologia do branqueamento”.

Uso aqui o termo ideologia como sinônimo de “ilusão necessária”, ou seja, como uma visão distorcida das relações sociais, mas que nasce da própria dinâmica das relações sociais, na convivência entre indivíduos, classes sociais, grupos étnicos e raciais, e encobre a reprodução da hierarquia econômica, entre proprietários e não proprietários; da hierarquia social, entre burgueses, camadas médias e trabalhadores braçais; da hierarquia política, entre governantes e governados; e da hierarquia racial, entre brancos e negros, presente nas formas de hierarquia citadas anteriormente, através de formas de seleção pretensamente democráticas, mas que negam na prática a possibilidade de ascensão social para os negros no Brasil.

O que fundamenta a ideologia meritocrática é a idéia segundo a qual todos aqueles que se empenham e que são competentes acabam aproveitando as oportunidades que surgem em suas vidas. Transformando as dificuldades em desafios o portador do mérito vence a competição pelas posições mais vantajosas no sistema sócio-econômico. Esse é o sonho que anima as chamadas classes médias a uma emulação sem limites, a um esforço sobre-humano, em busca da ascensão social.

Uma pergunta simples atesta a falsidade da ideologia meritocrática: todos aqueles que possuem o mérito alcançam as posições hierárquicas que desejam? Um interlocutor meritocrático poderia objetar: quem não consegue a posição desejada é porque não possui realmente o mérito.

Operando desta maneira, como ideologia, o mérito serve para responsabilizar o próprio indivíduo pela sua posição na hierarquia social, culpando-o por um fracasso que só é produzido porque a estrutura social é hierarquizada.

Como a maioria da população brasileira possui ancestrais negros, e como sobre os negros pesam preconceitos seculares que atribuem a eles as características mais depreciadas pela cultura hegemônica de origem européia, somando-se a isso o fato de que a maioria dos negros se encontra nas posições mais desprestigiadas do mercado de trabalho, para ascender socialmente o mestiço tenta se afastar do polo negro de sua origem biológica, cultural e sócio-econômica. Este mecanismo é denominado pelos estudiosos das relações raciais no Brasil como “ideologia do branqueamento”.

Em síntese, o mestiço que incorpora a ideologia do branqueamento quer se esquecer de sua origem negra, desenvolvendo uma identidade que torne possível a sua assimilação ao mundo dos brancos, considerado mais prestigioso, elegante e próspero. A idéia de que na sociedade brasileira vence quem possui o mérito é abraçada pelo mestiço, que é levado a acreditar que a origem étnica e racial não é tão relevante, afinal, somos todos iguais e é preciso ter competência para vencer. 

Combinadas, as ideologias do mérito e do branqueamento encobrem a existência de mecanismos discriminatórios, irracionais e muitas vezes inconscientes, que dificultam o acesso às oportunidades de ascensão social para os cidadãos negros que não podem passar por brancos, como podem os mestiços de pele clara.

O que fica escondido por essas ideologias do esforço individual e da assimilação cultural é o fato de que quem não se “branqueia” acaba discriminado. Com pouca ou nenhuma oportunidade, um cidadão negro dificilmente desenvolve o mérito que permite a ascensão social. É exatamente para atender às demandas de tal segmento da população brasileira que está sendo proposta a implementação de uma política que incentive o seu ingresso no ensino superior, com um adequado acompanhamento pedagógico durante o curso – as famosas cotas -, que tanta polêmica estão gerando.

Enquanto não pudermos acabar com todas as formas de hierarquia que tornam explosivas as relações sociais, é recomendável, ao menos, que um cidadão não seja impedido de ocupar determinadas posições sociais em virtude de sua origem étnica ou racial.

Através do mecanismo emergencial das cotas espera-se que o acesso ao ensino superior torne possível que muitos negros desenvolvam as suas potencialidades. Os efeitos desta mudança sobre a condição de vida da população negra só podem ser benéficos. Já sobre o imaginário racista da maioria da população brasileira é imprevisível.

Dos mestiços como eu, acredito que um pouco de solidariedade com os que sofrem mais com os efeitos do racismo é o mínimo que se pode esperar. Mas talvez não haja argumento capaz de convencer quem possui um ponto de vista fundado em um pressuposto inconsciente e que faz questão de mantê-lo devidamente esquecido.

WALTER PRAXEDES

     

 

* Reprodução Ciro Mariano / Museu Castro Maya

 


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