Luzes da esperança: A Luminária de Kobe

 

Por EVA PAULINO BUENO
Professora de Espanhol e English Communication na Mukogawa Women's University, em Nishinomiya, no Japao; autora de Mazzaropi, o artista do povo - EDUEM, 2000.

Desde 1995 todo ano, em dezembro, a cidade de Kobe tem um evento especial. Não é um concerto, não é uma festa de esportes, e não é uma cerimônia religiosa. O evento é a Luminária.

Quando você chega à Luminária, em Kyo-gaikokujin Kyo-riuchi, Kobe, sua resposta imediata tem que ser às luzes. Há duzentas mil delas, em seis cores diferentes, colocadas em estruturas de madeira que fazem um arco sobre a rua. Estes arcos, colocados em intervalos regulares, fazem com que a rua se pareça com um túnel de luzes formando figuras de flores, estrelas, figuras geométricas. O desenho das luzes, que combina a elegância da inspiração italiana e o espírito que os japoneses querem que a festa tenha, é ao mesmo tempo calmo, meditativo, e alegre.

A Luminária foi feita pela primeira vez em dezembro de 1995. Este foi o ano em que a cidade de Kobe foi parcialmente destruída pelo terremoto que os locais chamam de ‘O Grande Terremoto de Hanshin’. A Hanshin é uma das companhias  de trens da região, e o terremoto foi mais forte nas proximidades das linhas. No dia 17 de janeiro de 1995, às cinco da manhã, esse terremoto matou mais de 5.000 pessoas. O centro da cidade de Kobe, especialmente na região conhecida como Sannomiya, foi quase totalmente destruído. Edifícios queimaram durante dias, enquanto as equipes de salvamento cavavam, removiam escombros, e tentavam encontrar inicialmente sobreviventes que estavam soterrados, e depois, recuperar os cadáveres. 1995 foi um ano terrivelmente difícil para Kobe a para toda a região do Kansai.

Mas o povo japonês sabe lidar com catástrofes. Imediatamente após o terremoto, já se organizaram brigadas nas vizinhanças para ajudar os que haviam sido mais afetados, limpar os terrenos dos detritos, e recomeçar a construir. Muitos dos que perderam suas casas eram velhinhos sem família que moravam sozinhos, ou que perderam os companheiros nos terremotos. Eles e os demais sobreviventes e foram colocados em abrigos temporários montados em praças públicas, consistindo de habitações de metal que eram colocadas lado a lado. No ano de 1999, quando cheguei ao Japão, ainda existiam algumas destas habitações, mas foram todas completamente removidas, e os parques retornados à sua forma anterior.

Em dezembro de 1995, a cidade de Kobe teve a idéia de fazer esta Luminária para levantar o ânimo dos cidadãos, e para homenagear os que pereceram no terremoto. Cada ano a decoração muda um pouco, mas os temas sempre estão relacionados com assuntos tais como "Sob a luz mais pura”, ou "A via Láctea”. O arranjo dos arcos cobre um trecho de rua de aproximadamente 500 metros, e desemboca em uma praça em que a construção da estrutura segurando as luzes faz lembrar as paredes de um templo. Mas a Luminária é mais que um passeio sob as luzes. A Luminária é, ao mesmo tempo, uma experiência quase religiosa, e certamente uma experiência cultural.

Na primeira vez que fui à Luminária, fui com meu marido e alguns amigos da minha universidade. Caminhamos todos juntos, no meio da multidão de pelo menos duzentas mil pessoas. Todos caminhavam devagar, todos conversando, olhando as luzes. Famílias estavam na Luminária trazendo três gerações, os pais segurando no colo os filhos pequenos enquanto que os avós seguravam as mãos dos maiorzinhos. Tudo sem pressa, sem nervosismo. Levamos aproximadamente uma hora para caminhar do início da rua até a praça aberta em que a estrutura de luzes dava a impressão de estarmos em uma catedral encantada em que o teto era o céu. Houve momentos, nesta caminhada, que tive a impressão que todos nós caminhando juntos estávamos respirando juntos também, inspirando e expirando em compasso. Para os que jamais vão poder estar em uma multidão assim pra conferir o sentimento, a experiência mais próxima que me ocorre é estar cantando em um coral, ou ser o quinto violino em uma orquestra: uma voz, um som, fazendo o total da harmonia. E harmonia – "wa" – é uma das coisas que os japoneses mais tentam conquistar e manter. Cada ser se dissolve no conjunto, e todos, respirando e caminhando lentamente, almejando somente o que estávamos vivendo naquele momento, sob a cúpula de luzes.

Mas, como se diz, tudo que é demais é demais. No ano seguinte, voltei à Luminária, desta vez com uma amiga japonesa e com pessoas da minha família, recém chegadas do Brasil para uma visita de fim de ano. Infelizmente, acho que os parentes de todo mundo tinham vindo também, porque a multidão tinha aumentado para mais de 500.000 pessoas, todas querendo fazer a mesma coisa, passar por baixo dos arcos de luzes e caminhar até a estrutura da catedral sem teto. O sistema de controle do público não estava funcionando tão bem como no ano anterior. O que já seria uma situação difícil em si, acabou ficando muito mais difícil para nós brasileiros que não conseguíamos entender o que os policiais diziam em auto-falantes. Todos tivemos momentos de pânico, e o meu medo era que alguém gritasse, e alguém começasse a correr e desencadeasse um estouro total. Felizmente nada disso aconteceu, porque esta multidão de japoneses sabe se comportar como parte de um grupo enorme e compacto. Mas desta vez levamos 4 horas para percorrer o percurso que nos havia tomado uma hora no ano anterior. E na volta nos perdemos de nossa amiga, que se confundiu nos últimos 100 metros e acabou indo nos esperar na estação de trem.

Desde então, tenho me limitado a ver a Luminária pela televisão, que agora, todos os anos as estações de televisão locais dedicam uma parte das notícias para mostrar o evento, e calcular o número de pessoas que vêm ver. De uma certa forma, para quem mora na região do Kansai, a Luminária fecha o ano velho – as luzes ficam acesas até o dia 27 de dezembro. As luzes da Luminária, desenhando flores, astros, antecipam as sakuras – flores de cerejeira – que chegam em abril anunciando a primavera, vida nova, novas esperanças. É o ciclo da vida. Os japoneses sabem muito bem observar estes ciclos e festejá-los. É uma pena que todos querem fazer tudo junto, ao mesmo tempo. Para quem estiver indo ao Japão em dezembro, ainda recomendo uma ida à Luminária. Mas chegue cedo, ali pelas 5 da tarde, e jante antes. E use sapatos confortáveis pra agüentar as horas em pé para transcorrer o percurso.

 

EVA PAULINO BUENO

     

 


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