CARTA AO EXCELENTÍSSIMO PRESIDENTE DA REPÚBLICA

SOS TURISMO/TURISMÓLOGO

 

Por JOÃO DOS SANTOS FILHO
Sociólogo, Turismólogo, Professor da Universidade Estadual de Maringá e Faculdades Nobel.


Terra Brasilis (Carta de Américo Vespúcio)

A vossa excelência, companheiro Luís Inácio Lula da Silva:

Senhor presidente, como brasileiro, professor, sociólogo, turismólogo e por sermos petistas desde a fundação do partido, orgulhamo-nos de sua magnífica vitória nas urnas com maciço apoio popular. Tivemos o privilégio e a oportunidade de trabalhar  para o amigo de todos nós e eterno mestre Florestan Fernandes, como um dos coordenadores de sua primeira campanha para deputado federal.

Fomos militante da categoria de sociólogos em São Paulo, desempenhando a função de diretor da Associação dos Sociólogos do Brasil – ASB e da Associação dos Bacharéis de turismo de São Paulo – ABBTUR, portanto tivemos uma experiência no campo sindical  de mais 20 anos. Hoje como professor do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá – UEM desde 1987 e coordenador e professor do curso de turismo da Faculdade Nobel, no Paraná na cidade de Maringá.

Atrevemo-nos a fazer um pequeno balanço do turismo no Brasil, gostaríamos de esclarecer aos companheiros que nossas observações estão pautadas nas experiências pessoais como sociólogo e estudioso do fenômeno do turismo. As divergências que deverão aparecer diante das opiniões expressas nesta carta, serão bem aceitas e esperamos provocar no interior do partido e simpatizantes um canal de discussão sobre o assunto.

Esclarecemos que o turismo não pode continuar sendo entendido como um fator exclusivamente econômico, como assim, querem alguns estudiosos reducionistas do fenômeno que atrelaram suas especulações idealistas ao saudosismo intelectual dos anos de 1970, em que o "Brasil Gigante" ou chamado de "milagre econômico brasileiro", cultuava um ufanismo de caserna aliado a obras e fatos como: a transamazônica, o mar territorial de 200 milhas, a ponte Rio -Niterói, o tricampeonato de 70, o Brasil a décima potência industrial do mundo e a criação da Embratur  em 1966.

Esses fatores forjaram uma realidade maquiada aos interesses dos militares e da classe dominante nacional e internacional que estavam interessados em criar uma comoção nacional verde amarela e não vermelha [1], uma versão brasilianista da ideologia da segurança nacional, cimento forte para o fantasma, mas sempre vivo da guerra fria, com o objetivo de ampliar a exploração da mais-valia.

Nesse contexto, estudos estão sinalizando que a Embratur no seu início (1966)  serviu à nação naquilo para que criada, trazer uma sistematização e estimular o desenvolvimento de uma infra-estrutura no campo do turismo, porém o seu crescimento e outras funções a ela atribuídas levaram - na a cometer erros e se distanciar dos interesses de um de seus maiores aliados os bacharéis em turismo chamados de turismólogos e de uma verdadeira política nacional  voltada ao turismo interno.

Lembramos que a Embratur serviu também aos interesses do Brasil ufanista na década de 70, divulgando a noção de um país de mulheres lindas, mulatas (de Sargentelli e Joãozinho 30) semi desnudas, sedutor (marketing que muito tempo serviu de produto de divulgação para a propaganda, via filmes, pôster e folders enviados para o exterior ), ordeiro, pró-americano e anticomunista  para o mundo (explicitado pelo apoio e a participação da Embratur com seu escritório em New York, se justifica pela intensa demanda de participação em feiras e atividades culturais no território americano). O marketing usado pela empresa acabou timbrando uma imagem veiculada no exterior pela ideologia  de "lugar de sexo fácil", como descreve em sua excelente tese de mestrado a professora Rosana Bignami Viana de Sá, quando afirma:

A imagem do paraíso não se reduz à idealização da selva primordial em seus aspectos de flora e fauna. Ela adquire um outro significado que a relaciona ao pecado original e o país acaba por ser conhecido como o lugar do sexo fácil e barato.

Mesmo aos olhos do observador pouco atento, é óbvio a tentativa de atrair turistas ao Brasil através do uso de imagens de belas mulheres e com referências ao apelo sexual. (VIANA de SÁ, 2001: 234)

Como também, a autora menciona o que se publica no exterior sobre o Brasil, no caso ela utiliza-se da reportagem de um jornalista italiano referente a um  artigo chamado "Le mete eccitanti d'inverno" da revista Tutto turismo, em que relata os seguintes comentários do repórter:

"Para os jovens é fácil encontrar companhia, as mulheres brasileiras não se fazem de difícil, obviamente quando elas têm vontade. Porém, vale a pena lembrar que o Rio é a cidade onde se encontra o maior número de prostitutas e de homossexuais em todo continente americano." (Id.: 234-35)

A esse exemplo, poderíamos arrolar outros mais, pois a imagem que a mídia nacional fez no exterior sobre o Brasil deixou uma marca no campo da sedução, em que belas praias, mulheres e o exótico devem ser repensadas, principalmente pela  Embratur, que apesar de ter amenizado essa situação, tornando-se mais cuidadosa com seu material de propaganda promocional enviado ao exterior, o problema hoje adquiriu dimensões alarmantes.

O fluxo de turistas estrangeiros que chegam ao país em busca do turismo sexual com adultos e crianças é imenso. O equacionamento desta questão passa pela existência de um trabalho policial preventivo nos aeroportos, rede hoteleira e taxistas. Acompanhado de um grande programa educacional em que a Embratur deveria em conjunto com as operadoras nacionais e estrangeiras mostrar as complicações jurídica-legais ao turista e a empresa. Ao invés de ficar fazendo oficinas inúteis de "conscientização" em que as críticas são abafadas pelos moderadores,( que não são visto como educadores ) um gasto público que não leva a nada, servindo somente para inflacionar estatísticas de interesse eleitoreiro e pessoal.

Senhor presidente, todos os brasileiros orgulhosos e esperançosos com sua vitória, acreditam na capacidade de nosso povo e de vossa excelência, pois sabemos que um dos maiores educadores do mundo foi Paulo Freire, que desenvolveu uma pedagogia de participação comunitária, popular e de conscientização utilizada por todos aqueles países que queriam desenvolver a consciência crítica de seu povo, preservando sua cultura e memória  local, regional e nacional. O exclusivo desse método é que o mesmo é capaz de saber  respeitar as peculiaridades de cada região, exaltando a dignidade para a cidadania.

Entendermos que a importância do educador Paulo Freire permite-nos (turismólogos e professores) repensar o Programa Nacional de Municipalização do turismo - PNMT, pois sabemos que seus resultados são limitados e com o tempo se perdem em discursos vazios que nada têm a ver com as comunidades onde foram implantados (impostos). O método utilizado foi comprado no estrangeiro:

Essas oficinas são conduzidas pela pessoa do "Moderador". Profissional com formação no método ZOOP (Planejamento de Projetos Orientados por Objetivos), que assessora o grupo, mobiliza os conhecimentos, facilita o intercâmbio horizontal estimulando o debate entre os participantes, introduz recomendações e técnicas, contribui para a criação de um ambiente agradável para interação e cooperação.

A metodologia ZOOP, foi desenvolvida pelo Governo Alemão, por intermédio da Agência GTZ Gesellschft  Fur  Technische Zusammenarbeit (Sociedade Alemã de Cooperação Técnica), que detém os direitos de multiplicação desse método no Brasil, que somente poderá ser utilizado com autorização expressa daquela Agência. (EMBRATUR, 1977: 21)

Como programa oficial do governo federal, o mesmo tem apresentado uma enorme rejeição por parte de turismólogos, professores e educadores em geral do fenômeno turístico e população. Entenderam que a função do mesmo é manter um conhecimento técnico, superficial,  arcaico e submisso do fenômeno turístico, garantindo a permanência de burocratas escorados por políticos, que lotearam setores do estado como sendo centros de influência política (muito comum na Embratur). Além de alertar que esse método alienígena e extremamente despolitizante como afirma suas diretrizes:

Apenas os moderadores formados pela GTZ, estão aptos, credenciados e autorizados a disseminar a metodologia ...

A escolha de metodologia justifica-se por ser um método em que todos os envolvidos contribuem para a construção do conteúdo, eliminando, dessa forma, as dispersões geradas pelos conflitos, à medida que todos os temas obtêm consenso no grupo ... (Id.)

O desrespeito deste programa [2] para com as culturas locais se configura em um processo destruidor, pois como modelo germânico em nada reflete nossa realidade e se constata que o mesmo é aplicado de forma autoritária e os recursos financeiros destinados pelo governo federal são escassos no pagamento dos escolhidos que detêm  autorização para fazer as oficinas. Ocorrendo que muitas vezes esses encargos (como é feito na maioria das vezes) recaem encima do governo estadual e ou local.

Além do que, o programa apela para a mão de obra voluntária, utilizando-se da boa fé de aposentados, estudantes e população em geral para serem multiplicadores da metodologia ZOPP.

Criam-se uma mística entorno do programa com um marketing em que a fé e a crença são os seus condutores, essa áurea metafísica depõem contra a racionalidade e impede qualquer autocrítica e que o Brasil avance no campo do turismo comunitário e social.

Por quê não retomar o método de Paulo Freire? Para envolver as comunidades em programas de conscientização turística, pois são estas que poderão exigir que o turismo não se torne elitizado e respeite as culturas locais, não excluindo-as como ocorre por detrás do turismo sustentável. Por quê pagar licença de uso de uma tecnologia que não nos serve? Pense senhor presidente se não poderíamos retomar o método de Paulo Freire para desenvolver o turismo receptivo nas várias regiões desse imenso país.

Infelizmente as noticias sobre a Embratur não são boas para os turismólogos também, pois hoje estamos diante de um impasse criado por esse órgão. Em maio de 1998 cria a deliberação normativa que regulamenta a atividade do Bacharel em turismo. Mas em maio de 2001, cria a deliberação normativa n.º421, passando nossas atividades enquanto bacharel de turismo para o Conselho Municipal de Turismo.

Por isso, senhor presidente, gostaríamos de pontuar algumas sugestões para que a política de turismo no Brasil, não continue nas mãos de aventureiros; que mulheres desnudas não sejam a constante das propagandas para o exterior; políticos espertos não tornem a Embratur setor de influência política para a liberação de verbas; que caravelas não afundem; que programas para despertar a consciência não sejam produtos de tecnologia estrangeira.

Cabe a categoria de turismólogos junto a outros setores que compõem o vasto campo do turismo, pensar uma "política de turismo que valorize a geração de empregos e combata a pobreza". Portanto, para que isso seja viável entendemos que turismo não pode ser visto somente como desenvolvimento econômico, sua repercussão vai além desse fato.

Nossa idéia não foi passar receitas, mas sim lutar para que o turismo não sirva à interesses político de políticos que consideram-se doutos no assunto levantando argumentos e falas incoerentes. Mas sim, colaborar para que as diversas categorias profissionais encontrem seu espaço e impulsionem um turismo social, em que a marca  do brasileiro deixe de ser a da mulher despida e passe a ser a riqueza cultural, social, histórica e geográfica do Brasil.

Seria possível pensar num turismo social que estivesse compatível com os diversos padrões sociais existentes na nossa sociedade? Poderíamos pensar no turismo como elemento de combate a fome e pobreza?

Entendemos que sim, turismo é um excelente gerador de atividades diretas e indiretas na cadeia do processo produtivo.

AÇÕES QUE PODERIAM COLABORAR PARA A ELABORAÇÃO DOSE "ELEMENTOS PARA UMA POLÍTICA NACIONAL DE TURISMO NO COMBATE A FOME"

  • Regulamentação da profissão de turismólogos poderá vir estimular uma classe que luta a vinte e cinco anos para ter um sindicato forte e ativo na defesa dos interesses da categoria, como também, ingressar em lutas mais ampla em que o turismo social, comunitário e de massa ganhe as praças e ruas desse país;
  • Escolher pessoas competentes, com elevado censo crítico que sejam da área do turismo para ocupar cargos públicos, basta de aventureiros e viajantes inveterados que planificaram políticas de financiamento que acabaram beneficiando os grandes grupos internacionais;
  • Separar o turismo do esporte, pois são dois seguimentos diferentes e em  muito podem operar nas áreas de pobreza e miséria;
  • Desenvolver uma política de apoio e estimulo ao turismo interno, possibilitando financiamento ao pequeno e médio hoteleiro;
  • Recuperar junto aos hotéis o estilo nacional da culinária brasileira e do atender ao turista/ homo brasílis.
  • Combater os coronéis do turismo que estão grilando terras da costa brasileira que pertencem a União, para posteriormente vender a grupos hoteleiros multinacionais. Isso criou um enorme problema social para com as populações nativas, que são excluídas da área por meio da violência física. Como exemplo concreto do que estamos falando, existe a população do Batoque em Aquiraz - Fortaleça. [3]
  • Estudar a liberação do jogo dentro da responsabilidade plena do estado que aplicaria 100% de seus lucros na área social, para o combate a fome;
  • Reprimir a pratica turismo sexual com crianças;
  • Desenvolver uma política de pousadas, como forma de ampliar o rendimento familiar do dono da casa, possibilitando um meio de hospedagem acessível para uma população de rendimentos mais modestos.
  • Exigir como condição primeira que qualquer complexo turístico a ser instalado no território nacional, treine e prepare a mão de obra local para trabalhar no empreendimento.
  • Combater o estilo de vida "fast food" com a riqueza do estilo de vida do Brasileiro, recuperando e reestruturando junto ao complexo turístico as raízes deixadas pelo gentio da terra, pelo africano e europeus.

Caro companheiro, quem vós fala, fala por uma imensa maioria de turismólogos brasileiros que têm o privilégio de se dirigir a um sofrido e perseguido líder máximo dos trabalhadores que a partir de 27 de outubro de 2002 se tornou o presidente mais popular desta nação e da América Latina. Portanto, senhor presidente, não pedimos nada a não ser mudar a forma de fazer política, permitindo que reconquistemos nossa dignidade profissional;  que não sejamos obrigados a ouvir aqueles que vivem da política a pontuarem seus discursos contra tudo que nos qualifica profissionalmente; ter que conviver com o PNMT por vaidade de alguns tecnocratas que pagaram caro por esse programa que já havia sido experimentado na Espanha e fracassado. O modismo deles acreditava que os modelos europeus serviriam para o Brasil, desconhecendo por completo a realidade e a história do pais.

Nada senhor presidente é mais feliz do que saber que vossa excelência é um trabalhador e o mais importante deste país, que sempre ouviu seus companheiros e assim esperamos poder dar nossa contribuição para que o turismo possa ser mais um dos instrumentos de combate a fome no Brasil.

Atenciosamente,

Um dos milhões de brasileiros que ajudaram o Brasil.

JOÃO DOS SANTOS FILHO

     
 

NOTAS

1. O processo de emulação fascista aparece em alguns momentos do embate político, principalmente quando o desespero suplanta a razão, por isso sentimos a tentativa de reeditar a história de um passado recente que não morreu  mas só estava adormecido. Mas felizmente a história quando percebida fora da referência ontológica é reeditada como tragédia ou comédia. E da comédia fizemos uma grande festa popular em que toda  América Latina se envolveu mostrando a sua cara, sinalizando em alto e bom tom que as lutas unitárias daqui para frente deverão redesenhar uma nova geopolítica  entre latinos e norte-americanos.

2. Está em tratar as pessoas a serem treinadas como mero multiplicadores do treinamento técnico, totalmente descolado de qualquer processo educacional. Isso que afirmamos fica evidente, quando a própria Embratur afirma; eliminando, dessa forma, as dispersões geradas pelo conflitos. Esse é um fato característico dos processos formalistas, antidemocráticos, impositivos e meramente técnicos, pois negam resolver e ou discutir os conflitos sociais que na verdade constituem a vida social.

3. Ler o artigo da internet. SOS AQUIRAZ: Comunidade do Batoque luta e resiste para sobreviver aos interesses dos coronéis do turismo.

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BIBLIOGRAFIA:

EMBRATUR: Diretrizes do Programa Nacional de Municipalização do Turismo / elaborado pela Gerência de programas nacionais; Supervisão de Projetos de Descentralização. - Brasília: EMBRATUR, 1977.

VIANA DE SÁ, Rosana Bignami. Em busca de uma imagem. O discurso a respeito do brasil em reportagens de turismo da Itália. Dissertação de mestrado na área de Comunicações. Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, 2001


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