Conectividade: Privacidade vs. Segurança

 

Por ANTONIO MENDES DA SILVA FILHO
Professor do Departamento de Informática da UEM. Doutor em Ciência da Computação.


A história da humanidade tem sido marcada pela interdependência. Desde os primórdios dos seres humanos, passando pela sociedade agrária até os dias atuais onde se tem grandes corporações multinacionais, o homem bem como empresas têm tornado-se cada vez mais especializados. O resultado desse nível de especialização é a dependência. Adicionalmente, a complexidade atrelada à tecnologia atual tem forçado uma necessidade maior de especialização. Entretanto, ao mesmo tempo em que um nível de especialização maior tem sido exigido, verificamos que o poder da conectividade tem proporcionado interdependências sociais e econômicas complexas, as quais são necessárias a fim de prover suporte a especialização. Dentro desse contexto, a conectividade é vislumbrada como virtual, não sendo estritamente no sentido tomado de um meio como uma rede. Embora a interdependência seja um fenômeno antigo, a tecnologia de conectividade que prover suporte a ela tem se tornado significativamente mais rápida e poderosa nessa última década.

Hoje em dia, as comunicações, sistemas financeiro e de comércio bem como sistema de transporte e energia oferecem sustentação a sociedade e serve de base à economia global. Temos estado tão imersos em tais interdependências que a separação entre a tecnologia de conectividade e nós, seres humanos, torna-se quase impossível. Dessa forma, falhas na tecnologia de conectividade nos levam ao imediato desconforto bem como pode resultar em grandes perdas de vida e econômicas. Para solucionar tais problemas, faz-se necessário grandes investimentos, especialmente em segurança, a fim de assegurar confiabilidade e correto funcionamento da tecnologia de conectividade.

O ataque terrorista sofrido pelos Estados Unidos (EUA) marcou a data fatídica de 11 de setembro. Naquela ocasião, o presidente dos EUA, George W. Bush, disse: “O mundo nunca será o mesmo novamente”. Este fato teve, tem e terá desdobramentos sob os mais variados aspectos como sociais, econômicos, político, tecnológico, dentre outros. Aqui, nesse espaço, reservo-me a discutir a questão segurança ou, mais propriamente, a tecnologia de segurança. Ao mesmo tempo em que a conectividade nos proporciona conforto, acesso rápido a informações, agilidade nos negócios e realização de serviços, ela também permite ações de intrusos com os objetivos mais diversos, englobando roubo e manipulação de informações ou até mesmo causando a incorreta operação de sistemas. Tais ataques causam grandes impactos em termos de perdas de tempo, dinheiro e até vidas humanas. O CERT Coordination Center (www.cert.org). é uma entidade que monitora atividades de intrusão. Eles têm acompanhado a ocorrência e tipos de ataques e verificado como tais atos afetam a habilidade das pessoas e empresas utilizarem a Internet seguramente. Dados deles referente ao período de 1995 a 2002 revelam o crescimento exponencial observados nos últimos três anos, conforme Tabela 1.

Ano

1995

1996

1997

1998

1999

2000

2001

2002

No. de incidentes

2412

2573

2134

3734

9859

21.756

52.658

-

No. de vulnerabilidades

171

345

311

262

4127

1.090

2.420

3750 [2]

Sabe-se, como tem sido divulgado na mídia, que os EUA e outros países não têm medido esforços buscando corrigir  vulnerabilidades e evitar ataques em seus sistemas. Tais atitudes têm motivado a polêmica sobre a perda de privacidade em detrimento de um maior nível de segurança.

Neste sentido, a União Européia está propondo uma lei que requer o armazenamento de todo e qualquer tipo de comunicação pessoal de seus cidadãos por pelo menos um ano. Pelo projeto, as empresas de telecomunicações, incluindo operadoras de telefonia móvel e provedores de acesso à internet, serão obrigadas a guardar os números de telefone e endereços de e-mail trocados pelos europeus. Os europeus justificam a lei em função da necessidade de ajudar serviços de inteligência e polícia para o combate ao crime e terrorismo. Todavia, a proposta desta lei tem motivado polêmica e ampla discussão na Europa sobre privacidade e, principalmente, sobre o controle cada vez maior do governo sobre a vida das pessoas.

Assim, observa-se que a conectividade traz inúmeros benefícios às pessoas e empresas, mas tem um lado perverso pois permite articulação e coordenação de ataques das mais diversas naturezas, dentre os quais os terroristas. Sem que tivéssemos percebido imediatamente a conectividade tem invadido nossas residências e ambientes de trabalho de maneira rápida nesses últimos anos e têm as pessoas e empresas mais vulneráveis. Embora a proposta de leis dessa natureza permitam às autoridades maior capacidade de rastreamento de informações e possam ajudar a evitar ataques, elas permitem ao Estado uma vigilância de seus cidadãos e destitui deles o direito a privacidade e liberdade de expressão. Decorrente disso, o ser humano e sua imensa capacidade criativa apresenta uma nova tecnologia que cria meios para defender a liberdade de expressão: acaba de entrar no ar uma nova versão da rede Freenet (http://freenetproject.org), que busca o total anonimato dos participantes. Todavia, este será um tema a ser expandido e discutido num próximo texto.

 

ANTONIO MENDES DA SILVA FILHO

     


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