Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente na UEM e doutorando na Faculdade de Educação da Universidade de S. Paulo

 

Os Apóstolos da Razão: a Sacralização da Política

“Jesus andava à beira do mar da Galiléia, quando viu dois irmãos: Simão, também chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam jogando a rede no mar, pois eram pescadores. Jesus disse para eles: “Sigam-me, e eu farei de vocês pescadores de homens”. (Matheus, 4. 18-19)

“O sofrimento religioso é, ao mesmo tempo, expressão de um sofrimento real e um protesto contra um sofrimento real. Suspiro da criatura oprimida, coração de um mundo sem coração, espírito de uma situação sem espírito: a religião é o ópio do povo.” (K. Marx)

“Os Deuses existem apenas para aqueles que os reconhecem. Além dos confins da Terra se transforma em simples pedaços de madeira, assim como um rei se transforma num homem qualquer. Por quê? Porque deus não é um pedaço de madeira, mas uma relação e um produto social.” (K. Kosik)

“Não existe religião alguma que seja falsa. Todas elas respondem, de formas diferentes, a condições dadas da existência humana.” (E. Durkheim)

“Eles odeiam os que defendem o justo no tribunal e têm horror de quem fala a verdade. Porque esmagam o fraco, cobrando dele o imposto do trigo, eles poderão construir casas de pedras lavradas, mas nelas jamais irão morar; poderão plantar vinhas de ótima qualidade, mas do seu vinho não beberão; pois eu sei como são numerosos os seus crimes e graves os seus pecados: exploram o justo, aceitam subornos e enganam os necessitados no tribunal.” (Amós, 5. 10-12)

 

À minha frente, um camarada de barba longa e embranquecida, à maneira de um profeta, discorre sobre a missão do proletariado, o caráter proletário do partido, a crise da direção revolucionária e a inevitabilidade do socialismo. Fala com ardor e convicção. A própria verdade se materializa diante dos meus olhos. Ele expressa a indignação milenar dos justos contra a miséria, as desigualdades e injustiças sociais. Como o Messias, anuncia a boa nova, o paraíso terrestre; como os profetas, clama contra a exploração e a opressão; não apenas fala pelos oprimidos e explorados, se coloca no lugar destes. Quem poderá questionar as suas certezas?

Envolvido por sua oratória, como que num transe, recupero a lucidez e, ingenuamente, mas cuidadoso, pergunto: - Não lhe parece que seu discurso expressa um certo caráter religioso, uma certa religiosidade na forma de conceber a teoria e os líderes que a formularam?

Percebo que ele se ofende, mas mantém a civilidade. Como que provocado por um inimigo oculto, sua fisionomia se altera, acentua o tom da voz e, com ainda mais ênfase, repisa seus argumentos. Meu interlocutor é um indivíduo sisudo, domina a teoria e argumenta que o socialismo é inexorável.. Marx disse-o, Lenin e outros marxistas reafirmaram-no. E, assim o é não porque queiramos, mas porque resulta das contradições do capitalismo; porque o marxismo é uma ciência; porque o proletariado expressa esse projeto histórico etc. etc. Como duvidar?

Tenho a impressão de que os mortos falam por sua boca. Atordoado por seu proselitismo, pretensamente racional e científico – com as devidas citações das autoridades proféticas – calo-me. Agradeço, despeço-me e vou embora admirado pela demonstração de fé que acabara de presenciar.

Não generalizemos. Mas o exemplo ilustra bem um tipo de militante social presente no interior da esquerda, em especial, nos grupos mais radicalizados. Também não concluamos que, pela descrição, o apostolicismo encontra-se relacionado à idade relativamente avançada. Os jovens iniciados na política podem ser tão dogmáticos quanto os idosos. Nos anos 1980 convivi com jovens que após lerem o jornal ou a revista da organização, um ou outro livro indicado pelo guru e ouvirem a voz da autoridade, imaginavam dominar a teoria. Esse tipo de militante, seguro de si e, em geral, muito arrogante, passa a repetir frases, transformadas em fórmulas prontas: ele tem a resposta para todos os dilemas da sociedade, citações para todas as circunstâncias.

Naqueles anos, num evento promovido por uma determinada organização política, vi jovens que gritavam alegremente: “Nós somos, nós somos, soldados de Leon!” Foi naquela época que conheci a autobiografia de Leon Trotsky (Minha Vida), exposta numa dessas barraquinhas dos encontros partidários. Tive a ousadia de fazer um breve comentário sobre o narcisismo. O companheiro que vendia os livros ficou muito bravo! Por essas e outras, aprendi que o culto à personalidade, à maneira do cristão adorador de imagens e símbolos, não se restringe ao stalinismo. Observe-se outro aspecto importante do discurso militante: a utilização de palavras e conceitos emprestados da linguagem militar. Com efeito, não basta abraçar religiosamente à causa; como os cristãos em suas cruzadas contra os hereges é preciso também instituir exércitos e destruir os inimigos.

Como o cristão cujo argumento de fé reduz-se à citação do Livro Sagrado, este tipo de militante incorpora, sem qualquer reflexão crítica, o que dizem ou escreveram seus líderes. A referência ao líder, ao guru, aos clássicos, tomados como livros sagrados, é uma necessidade de legitimação pela autoridade. Como escreve Bourdieu:

“O eu sacerdotal deriva da autoridade do profeta de origem; todavia, por maior que seja a modéstia (condição de participação no capital herdado de autoridade) que o impede de falar efetivamente na primeira pessoa, ele não pode esquecer que possui algum mérito por restaurar o capital em sua integridade através da desbanalização, revolução da leitura que define a revolução letrada.” (1998: 160 e 162)

A discussão política é esvaziada, o diálogo torna-se mera estratégia para a auto-afirmação do credo adotado. Na realidade o objetivo principal não é convencer o outro, mas impor a sua verdade. No fundo, não se trata de um diálogo, mas de vários monólogos entre sacerdócios diferentes. E se você se recusa a participar da farsa, verdadeiro exercício de doutrinação, logo lhe lançarão um epíteto que soará como um palavrão: fique contente se apenas o chamarem de centrista, eclético ou o qualificarem como um alienado.

Como o padre ou o pastor, cuja palavra nunca está sob dúvida, o apóstolo da razão se coloca como o guardião da mensagem autêntica, como o único capaz de proteger a fonte da autoridade da tentação dos hereges e revisionistas. O texto sagrado não admite questionamento. Está escrito, pronto!

Cita-se e recita-se, permanentemente. Da citação passa-se à interpretação e às disputas sobre quem representa o verdadeiro sacerdócio. Como as incessantes batalhas entre as várias igrejas, guerras de deuses cuja fonte é um único Deus e sua palavra que, acredita-se, consubstancia-se na doutrina do Livro Sagrado, os diversos sacerdócios necessitam não apenas legitimarem-se, mas alçarem a sua leitura ao status da leitura revelada, isto é, a verdadeira, a fiel, a que representa a tradição.

A luta pelo monopólio do comentário e da interpretação legítima dos profetas, as intermináveis polêmicas recheadas de longas e cansativas citações, de acordo com as estratégias de afirmação da autoridade do eu sacerdotal, ocorre por um motivo muito simples: o que está em disputa é um imenso capital simbólico representado pelo marxismo – quanto mais uma determinada interpretação é aceita, mais capital simbólico tem e mais será legitimado. Então, torna-se possível compreender as intermináveis lutas faccionistas e fratricidas e a necessidade de se afirmar enquanto guardião da doutrina. Identificar-se com o profeta maior, numa linhagem que começa com os clássicos e tem no representante hierarquicamente superior da organização o seu continuador, não é apenas um exercício de sacerdócio, é também fonte geradora de lucros simbólicos e reais: o prestígio, o poder, o controle dos aparatos organizacionais, a adesão de seguidores.

Como a Santa Inquisição que objetivava, em nome de Deus, salvar o pecador, purificando-o através do auto-de-fé ou nos suplícios da fogueira. Decretando a incapacidade do herege de, por suas próprias forças, escapar ao contágio do mal, o apostolado da razão política também se alimenta do combate às heresias, da necessidade de afirmar a doutrina e o dogma. Ele vive do erro teórico; imagina ser a sua tarefa, sua razão de ser, identificar, denunciar, exorcizar: a “tentação”, o “desvio” ou a “recaída” estão em todo lugar e ate mesmo no próprio discurso”, como comprova-o o famoso procedimento da autocrítica:

“A autoridade sacerdotal implica o direito à correção: ela persegue o erro até no discurso do profeta de origem (refiro-me às “interpolações” odiadas pelos filólogos), o qual convém ao menos corrigir e corrigir incessantemente,talvez purgá-lo e expurgá-lo, “de retificação em retificação”. O sacerdócio organiza catálogos de pecados (as palavras terminadas em ismo).” (Id.: 164)

Se a reforma protestante teve o mérito de combater o monopólio da palavra e romper com a idéia de que o crente necessita de intermediários entre ele e Deus (para em seguida reafirmar a autoridade do pastor ungido como o guardião da santa palavra), na militância política procede-se de forma semelhante: todos têm acesso aos textos sagrados (embora existam organizações que controlem e indiquem o que ler, o que não ler e quando ler). Formam-se leitores de um único autor, doutrinados por mestres, também eles, crentes de que suas referências teóricas são as mais justas e verdadeiras, sagradas. Conheci professores, por exemplo, que imaginavam poder ensinar os clássicos da economia burguesa através da crítica de Karl Marx. Na verdade, eram doutrinadores, e não mestres.

A teoria assume status de ciência, mas é incorporada enquanto religiosidade não assumida. Isto só é possível com a sua metamorfose em verdade inquestionável, em dogma. Se considerarmos o marxismo em suas origens, veremos que o mesmo, a despeito das resistências de Karl Marx (que declarou não ser marxista), transformou-se em escola de pensamento pela ação dos novos sacerdotes – consolidando-se enquanto tal no debate com o revisionismo de Bernstein. “A paternidade das noções de “marxista” e de marxismo” no sentido que assumiu em nosso vocabulário cabe a Kautsky”, escreveu G. HAUPT (1983: 364)

Foi a social-democracia alemã que, sem o conhecimento e contra a vontade de Karl Marx e Engels, consolidou os termos marxismo e marxistas (usados inicialmente de forma pejorativa pelos adversários de Marx). A partir de então a obra de Marx adquiriu, para muitos, o status de evangelho e seus seguidores passaram a constituir uma igreja secularizada, mas, simultaneamente, com a devida função de sacralizar a teoria.

O marxismo passa a ser utilizado com meio de luta ideológica entre os verdadeiros e falsos marxistas, entre a tradição e a ruptura, a ortodoxia e a heterodoxia. Kautsky soube capitalizar este processo, tornando um dos cardeais da nova igreja – para posteriormente ser renegado como traidor. Mas antes mesmo de Lenin proferir a sentença que o condenaria perante todas as gerações, ele encontrou críticos que o acusaram de, junto com Bernstein (quando este ainda era considerado um guardião da doutrina), pregarem a “infalibilidade do marxismo” e de o transformarem num novo evangelho:

“Eu não conheço uma religião de Marx, nem um programa de Marx ao qual eu ou outros companheiros tenham jurado fidelidade; só conheço um programa do partido. Kautsky prega uma religião de Marx.” (Apud HAUPT, 1983: 368)

Todo evangelho necessita de intérpretes e esses são os novos apóstolos, os novos profetas da redenção. Quanto mais especializada a linguagem, maior a necessidade de constituir-se um “corpo de intérpretes” cujo objetivo é proteger “contra o risco permanente do “desvio”, da “recaída”. Esse corpo, legitimado pelo sacerdócio, se coloca como “a única e real proteção” contra as heresias:

“Somente esse corpo sabe tomar no bom sentido as palavras com duplo sentido, discernindo o uso “burguês” do uso “marxista e científico” dos conceitos marxistas, podendo decretar a linha justa, ou então, alcançar o “mais profundo” (...) “suscitar teses gerais” acerca de “questões de alcance geral”. Em suma, a produzir a dificuldade do texto que por sua vez o produz como único intérprete capaz de superá-la (...), esse mesmo corpo institui-se como detentor exclusivo da verdade do texto sagrado, fonte inesgotável de todas as verdades (positivas e normativas) sobre o mundo social.” (BOURDIEU, 1998: 172 e 174)

O próprio Kautsky desenvolveu a tese de que a consciência de classe do proletariado é exterior a este, o que significa afirmar que não é resultante da luta direta entre as classes sociais, mas sim produto do acúmulo de profundos conhecimentos científicos, algo só possível aos intelectuais. A sacralização dessa tese se deu com Que Fazer?, de Lenin (1902) e a sua posterior consagração pela vitória das teses leninistas em solo russo. No fundo desta polêmica está a idéia de que a massa precisa de uma vanguarda iluminada que indique o caminho.

Essa elite passa a desempenhar o papel dos apóstolos: interpretam e anunciam a boa nova; decidem sobre o bem e sobre o mal; torna-se a guardiã da verdade e da linha justa. Ela organiza-se no partido, apresenta-se como a vanguarda do proletariado, depositária dos seus interesses. Identificada à classe, substituí-na. Ungido à sacrossanta tarefa de expressar a classe que redimirá a humanidade dos seus pecados, o partido, e depois o secretário-geral, torna-se, como o Papa cristão, infalível, possuidor do dom da revelação, parâmetro da verdade e da mentira. Tudo que o fortalece é bom; tudo o que o enfraquece, exprime o mal. Portanto, está em sua gênese não admitir heresias. Como o Deus cristão, o partido do proletariado é único, exige o sacrifício, a fé cega. Pois, o que pertence ao âmbito da fé não precisa de comprovação, mas de abnegação.

A literatura está repleta de exemplos nos quais abnegados militantes imolam-se religiosamente no altar do partido. Jorge Amado, por exemplo, descreve-nos, como os comunistas reagiram ao pacto germano-soviético (Hitler-Stalin). A certa altura, um dos personagens, entre perplexo e sedento de reafirmação da sua fé, diz:

“– Sim, quando li a notícia recebi um choque, também não queria acreditar. Larguei o escritório, andei pelas ruas meio abobalhado, mas depois refleti: serei eu por acaso quem pode julgar e decidir da melhor política para o proletariado, para o povo soviético, para os povos do mundo? Sou eu ou os soviéticos quem está à frente da luta contra o nazismo? Quem tem mais cabeça para pensar, eu ou eles?” (AMADO, 1987: 174)

A dúvida é descartada pela reafirmação da obediência religiosa, isto é, a crença no partido, na União Soviética e em Stalin:

“– Recordei toda a atuação internacional da União Soviética. Eles sempre tiveram razão em tudo o que fizeram. Por que não hão de tê-la agora? Só porque eu não posso entender completamente os motivos do seu gesto? Se eu não compreendo, a culpa é minha e não deles. Não é a primeira vez que isso sucede...” (Id.: 174-75)

Outra foi a atitude de Paul Nizan, o intelectual engajado no Partido Comunista, autor de Os cães de guarda (um libelo contra os intelectuais que não aceitavam o engajamento político ou se isolavam em suas torres de marfim). Decepcionado com o pacto germano-soviético, ele rompeu com o partido. Foi acusado de espionagem pelos ex-camaradas. Como escreve BOBBIO (1997: 78), “no universo staliniano só havia lugar para o servo ou para o espião, duas diferentes formas de rebaixamento do homem.” Isolado e abandonado, Paul Nizan morreu na frente de combate: tinha apenas 35 anos de idade. Antes de morrer, escreveu:

“Nos tempos que correm, não reconheço mais que uma virtude: não a coragem, nem a vontade do martírio, nem a abnegação, nem o ofuscamento, mas apenas a vontade de compreender. A única honra que nos resta é a do intelecto.” (Apud in id.)

Também KOESTLER, no livro O zero e o Infinito, descreve o drama do dirigente comunista tomado pelas dúvidas entre a obediência ao partido e o questionamento das suas ações enquanto revolucionário. Embora os personagens sejam fictícios, o relato tem como pano de fundo histórico os famosos processos de Moscou e o personagem principal, N. S. Rubachov, sintetiza a trajetória de vários militantes, vítimas do terror stalinista.

Na prisão, Rubachov faz um inventário da sua vida, uma espécie de acerto de contas; na verdade uma forma de superar a sua luta interior entre a afirmação do eu ou a capitulação ao partido. A afirmação do eu significa negar a própria razão de ser da sua vida: a militância pela causa revolucionária. No transcorrer do relato, observamos a fé cega no partido, concebido como o demiurgo da História:

“O Partido nunca pode errar – disse Rubachov . – Eu e o camarada podemos cometer um erro. O Partido não. O Partido, camarada, é mais do que você e eu e milhares de outros como você e eu. O Partido é a corporificação da idéia revolucionária da História. A História não conhece escrúpulos nem vacilações. Inerte e infalível, ela marcha para o seu alvo. Em cada curva do seu percurso deixa a lama que arrasta e os cadáveres afogados. A História conhece o seu caminho, não erra. Quem não tem fé absoluta na História não pertence às fileiras do Partido”. (KOESTLER, 1964: 31-32)

Ter fé na História significa acreditar inabalavelmente na vitória do socialismo. KUNDERA (1986: 52), em A Brincadeira, traduz essa postura no diálogo entre o personagem principal e seus acusadores:

“Você acredita que o socialismo pode ser construído sem otimismo? – perguntou um outro. Não, respondi. Então, conseqüentemente você não é partidário da construção do socialismo em nosso país, declarou um terceiro. Como assim? – protestei. Porque, para você, o otimismo é o ópio do gênero humano! – gritaram eles. Como, o ópio do gênero humano? – protestei mais uma vez. Não há escapatória, você escreveu isso! Marx qualificou a religião de ópio da humanidade, mas aos seus olhos o ópio é o nosso otimismo!”

Conclui-se, portanto, que o pessimista é inimigo da classe operária e do seu partido, ou seja, um trotskista. O mais interessante neste diálogo é a seriedade sombria dos interrogadores (e, observe-se que são jovens). Eles brandem como peça de acusação um cartão que o interrogado havia enviado à sua namorada, no qual, em tom de brincadeira, escrevera:

“O otimismo é o ópio do gênero humano! O espírito sadio fede a imbecilidade! Viva Trotski!” (Id.: 52-53)

Ludvik não conseguiu convencer os seus sisudos camaradas de que tudo não passara de uma brincadeira. Mas, é sintomático que as ditaduras, à esquerda ou à direita, busquem suprimir tudo o que possa induzir ao riso – talvez por receio de serem ridicularizados. Lembremos que na idade média o riso era considerado obra do demônio – daí a representação das bruxas e suas aterrorizantes gargalhadas. Também é sintomático que, em geral, os sectários e fanáticos tenham dificuldades de travar relações pessoais com outros que não sejam seus iguais.

Em outra obra literária, 1984, de George Orwell, as verdades irrefutáveis das ciências exatas são substituídas pelas verdades construídas pelo Partido e pelo Big Brother. A verdade passa a ser a verdade do Partido, a História só existe a partir da sua intervenção. Como afirma o inquisidor O’Brien:

“A realidade só existe no espírito, e em nenhuma outra parte. Não na mente do indivíduo, que pode se enganar, e que logo perece. Só na mente do Partido, que é coletivo e imortal. O que quer que o Partido afirme que é verdade, é verdade. É impossível ver a realidade exceto pelos olhos do Partido.” (ORWELL, 1998: 231)

Mas isso não se dá passivamente. O indivíduo pode ser levado a acreditar, como o faz O’Brien com o herege Winstson, que dois e dois não são quatro. Não se trata apenas de dobrar-se às torturas ou de tacitamente aceitar a versão do dominador para safar-se do castigo. Não, é preciso introjetar a verdade partidária; é necessário submeter-se incondicionalmente, destruir a própria vontade. “Deves te humilhar antes de recobrar o juízo”, diz O’Brien. (Id.)

A religião exige que o individuo se prostre humildemente diante do seu Deus, pronto a imolar seu filho no altar, se for preciso e assim exigido pela autoridade suprema [1] ; a religião pressupõe um desejo de servir, sem colocar em dúvida a quem se serve, a quem se adora. Também assim o exige o Partido, o deus da razão suprema. Na sala 101, Winstson nota que o seu algoz acredita realmente no que diz. Quando ele aceita a verdade inquestionável de que 2 + 2= 5, porque assim o Partido determinou, acredita-o simplesmente. Antes de convencer a vítima, ele está convicto (como os inquisidores estavam plenamente convictos de que, torturando e queimando corpos, salvavam almas).

Mas não se trata dos mesmos objetivos da Santa Inquisição, nem muito menos do que foi feito sob o nazismo e o stalinismo. Enquanto na inquisição os homens morriam por se recusarem a abandonar suas crenças – o que os tornou mártires e envergonhou a história da Igreja – os inquisidores da obra de Koestler sabiam que era necessário não criar mártires: era preciso levá-los conscientemente à capitularem, acreditando piamente nas razões e argumentos dos seus algozes. Trata-se de dobrar psicologicamente o herege e não simplesmente de destruí-lo. Em 1984, Orwell imagina um sistema capaz de cumprir essa função, assim exposto na fala de O’Brien:

“– No passado, o herege caminhava para a fogueira ainda herético, proclamando sua heresia, nela se gloriando. Até a vítima dos expurgos russos conseguia levar a rebelião selada no crânio, enquanto ia pelo corredor à espera do tiro. Mas nós tornamos perfeito o cérebro do indivíduo antes de matá-lo. A ordem dos antigos despotismos era “tu não farás”. Os totalitários mudaram para “tu farás”. Nossa ordem é “tu és”. (Id. : 237)

Tu és o que o Partido determinar, acreditarás no que ele disser; professarás as verdades emanadas por ele; o seguirás, sem duvidares da justeza dos seus propósitos. O partido é teu deus! Em nome dele farás tudo o que for necessário; tua ética será determinada pela razão do Partido e do Estado. Reconhecerás que os meios justificam-se pelos fins perseguidos. Acreditarás na infalibilidade do partido ou te verás nu, sem deuses e sem ideologia para seguir.

Se a inquisição da Igreja foi efetivada em nome de Deus, para libertar os homens da influência do demônio; a inquisição stalinista foi levada a cabo em nome dos máximos valores humanos, para libertar os indivíduos da influência maligna da ideologia burguesa e pequeno-burguesa. Em ambos os casos, tratava-se de purificar corpos e mentes. E, para isso, todos os meios eram válidos:

“Quando ficava evidente a maldade dos meios, recorria-se, para continuar a crer na bondade da causa e ficar em paz com a própria consciência, à elevação do fim: a criação de uma sociedade nunca vista antes, na qual finalmente cessaria toda forma de exploração do homem sobre o homem.” (BOBBIO, 1997: 178)

É interessante como Rubachov, o personagem de Arthur Koestler, ver a sua própria ação. À semelhança do personagem de Dostoiévski (Crime e Castigo) que assassina a velha agiota e rabugenta, exploradora de uma jovem e miserável mulher, ele se pergunta se tem culpa pelo crime cometido ou se os fins almejados isentam-no. No 5º dia em que estava preso, Rubachov escreve em seu diário:

“Fomos comparados com a Inquisição porque, como ela, constantemente sentimos em nós todo o peso da responsabilidade pela vida superindividual futura. Assemelhávamo-nos aos grandes inquisidores porque perseguíamos as sementes do mal não nas ações dos homens, mas também nos seus pensamentos. Não admitíamos esfera privada, nem mesmo dentro do crânio do homem. Vivíamos sob uma compulsão, elaborar as coisas até suas conclusões finais, os nossos espíritos estavam carregados tão tensamente que a mais leve colisão causava um circuito mortal. Estávamos fadados, assim, à destruição mútua.

“Fui um desses. Pensei e agi como devia; destruí pessoas das quais gostava, e dei o poder a outros de quem não gostava. A História me pôs onde estive; esgotei o crédito que me concedeu; se estava com a razão, nada tenho de que me arrepender; se estava em erro, pagarei.

“Mas como pode o presente determinar o que será tido pela verdade, no futuro? Estamos fazendo a obra de profetas sem o seu dom. substituímos a visão pela dedução lógica; mas embora todos partíssemos do mesmo ponto, chegamos a resultados divergentes. A prova refutou a prova, e finalmente tivemos que recorrer à fé – à fé axiomática na justeza do nosso próprio raciocínio. Eis o ponto crucial. Jogamos todo o lastro no mar: só uma âncora nos segura: a fé no próprio eu. A geometria é a realização mais pura da razão humana; mas os axiomas de Euclides não podem provar-se. Quem não acreditar neles verá todo o edifício desmoronar-se.” (KOESTLER, 1964: 73)

Conhecemos o desenlace desta história: homens abnegados, cujas vidas foram dedicadas à causa revolucionária, foram destruídos psicologicamente, humilhados e convertidos à nova verdade do partido: acertavam as contas com a História, mesmo sabedores de que morreriam. O Partido vencera; o Grande Irmão reinaria absoluto por muitas décadas. Como na ficção de Orwell, seus nomes, imagens e feitos foram apagados dos registros da História; restou-lhes apenas o consolo de que, à maneira cristã, o Partido viesse futuramente a ter compaixão e tornar público o último serviço prestado à Revolução. Sabiam que estavam perdidos e aceitaram resignadamente o veredicto da História, interpretada pelo Partido (como o cristão se resigna diante dos desígnios do Senhor).

Observe-se que mesmo o herege mantém a fé inabalável na redenção da humanidade. Expulso do Partido, como Adão e Eva do paraíso, ele lutará contra a infidelidade dos que o expulsaram e terá como missão fazer a exegese do evangelho. Ele continuará acreditando na necessidade da vanguarda, no Partido e construirá novos dogmas a partir do que lhe disse ou escreveu o anjo expulso. Seus fundamentos serão os mesmos, as suas igrejas serão diferentes. Terão algo em que acreditar. Pois, do contrário, estarão perdidos. Rubachov bem que o sabia quando afirmou:

“O fato é este: não acredito mais na minha infalibilidade. É por isso que estou perdido.” (Id.: 73)

Outros, em momentos históricos posteriores, se sentiriam igualmente perdidos. São aqueles momentos de crise nos quais as referências e valores impregnados caem por terra. Foi assim quando o mito Stalin foi destruído pelas denúncias dos seus crimes no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1956. Se os cristãos acreditam que o Papa é o verdadeiro sucessor de Pedro e, enquanto tal, infalível; os comunistas tinham Stalin como seu Papa, o guia genial dos povos, o farol da humanidade e, a exemplo daquele, também infalível. Como Rubachov, muitos comunistas tiveram a sensação de que o chão fugia aos seus pés e, quando tiverem que encarar a realidade, muitos não suportaram.

O mesmo ocorreu quando da queda do muro de Berlim e a desagregação da União Soviética. Com efeito, se Stalin perdeu a áurea que o acompanhava enquanto dirigente do heróico povo russo, comparado a Lenin, sobreviveu como um fantasma a assombrar os vivos: uns substituíram o mito por outro, reverenciando a pátria do socialismo – isenta de qualquer crítica, sob pena de sofrer acusações muito graves (daí a idéia, ainda hoje presente, de que não se pode fazer críticas à esquerda, sob pena de ser acusado pelos que agem segundo a lógica política do amigo-inimigo); outros não se envergonharam em continuar defendendo Stalin, e voltaram-se contra a pátria do socialismo, que teria traído o socialismo (estes foram buscar outras referências em outros profetas e pátrias).

Porém, em ambos os casos, o stalinismo manteve-se presente, na cultura política, nos vícios arraigados durante décadas, nas concepções de partido e revolução. Mesmo os hereges de outro tipo não ficaram livres dessa nefasta influência (com efeito, no tocante à concepção de partido, bebem nas mesmas fontes teóricas). Assim, não é casual que os ventos do leste tenham abalado os edifícios da esquerda marxista em geral. Os tijolos do muro de Berlim, em maior ou menor grau, atingiram a todos.

Os que não acreditam precisam de algo para acreditar. O Deus único e sagrado dos cristãos é substituído por outros deuses profanos, mas igualmente santificados; o livro sagrado é substituído pelos textos sagrados escritos por estes deuses profanos, tomados, a exemplo da Bíblia, como dogmas e verdades inquestionáveis. A política sacraliza-se; a razão torna-se fé travestida de cientificismo. Se os teólogos da libertação secularizam a religião - no sentido de aderirem às teses materialistas-marxistas - , os apóstolos da razão fazem o caminho inverso.[3] Nem só de pão vivem os homens. Eles também necessitam de símbolos. “Sem eles não haveria ordem, nem sentido para a vida, e nem vontade de viver”, afirma Rubem ALVES (1996: 27) Os homens também se alimentam de ilusões. Como diria o poeta: “Ideologia, eu quero uma prá viver.”

Uma última observação. É claro que enfocamos os casos limites (tipos ideais). Nem todo religioso é sectário (em relação aos que estão em igrejas diferentes da sua ou não professam religião); nem todo comunista age à maneira do fanático religioso. [2] : Como o cristão que acredita em Deus e na Igreja, o militante político precisa acreditar na sua ideologia, no partido ou no coletivo. O problema é quando, num ou noutro caso, as referências tornam-se verdades absolutas, dogmas que alimentam atrocidades e aberrações históricas.Os apóstolos da razão caminham no tênue limite entre a abnegação à causa e a sacralização da política; entre a racionalidade da ciência e a paixão ideológica; entre a ética da convicção e a ética da responsabilidade. “O sono da razão engendra monstros”, afirmou Goya. É verdade. Mas não é menos verdade que o despertar da razão também produz monstros abomináveis.



[1] “Deus disse: “Tome seu filho, o seu único filho Isaac, a quem você ama, vá à terra de Moriá e ofereça-o aí em holocausto, sobre uma montanha que eu vou lhe mostrar.” (Gênesis, 22, 2). E Abraão obedeceu-lhe. Quando se preparava para cumprir a ordem divina, o anjo de Javé lhe diz: “Não estendas a mão contra o menino! Não lhe faça nenhum mal! Agora sei que você teme a Deus, pois não me recusou seu filho único”. (Gênesis, 22, 12)

[2] Ver o artigo de Raymundo de Lima: O fanatismo religioso entre outros - Breve Ensaio

[3] Sobre a Teologia da Libertação, ver os artigos de Michael Löwy (O Marxismo da Teologia da Libertação) e de Waldemar Rossi (A Teologia da Libertação e as Transformações do Mundo)

BIBLIOGRAFIA:

ALVES, Rubem. O que é Religião. São Paulo, Ars Poetica, 1996.

AMADO, Jorge. A Luz no Túnel (Os Subterrâneos da Liberdade - 3). São Paulo, Círculo do Livro, 1987.

BÍBLIA SAGRADA - Edição Pastoral. São Paulo, Sociedade Bíblica Internacional e Paulus. 1990.

BOBBIO, Norberto. Os intelectuais e o poder: dúvidas e opções dos homens de cultura na sociedade contemporânea. São Paulo, Editora UNESP, 1997

BOURDIEU, Pierre. A Economia das Trocas Lingüísticas:O que Falar Quer Dizer. São Paulo, Edusp, 1998

HAUPT, G. Marx e o Marxismo. In: HOBSBAWM, Eric J. [et al.] História do Marxismo I: O Marxismo no tempo de Marx. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1983.

KOESTLER, Arthur. O Zero e o Infinito. Porto Alegre, Editora Globo, 1964.

KOSIK, Karel. Dialética do Concreto. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 197.

KUNDERA, Milan. A Brincadeira. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986.

LIMA, Raymundo de. O fanatismo religioso entre outros - Breve Ensaio

LOWY, Michael. Le Marxisme de la Theologie de la Liberation (Tradução de Paulo Roberto de Almeida)

LUXEMBURGO, Rosa de. O Socialismo e as Igrejas

MARX, Karl. Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel

ORWELL, George. 1984. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1998.

ROSSI, Waldemar. A Teologia da Libertação e as Transformações do Mundo

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ANTONIO OZAÍ DA SILVA
     

 


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