Por RUDÁ RICCI
Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais, Professor da PUC-Minas e Diretor da CPP (Consultoria em Políticas Públicas). Web Site: www.cpp.inf.br

 

Mesmice e Ética na Campanha Eleitoral

 

Maquiavel dizia que a virtú era a arma para sedução da Fortuna. Ao contrário dos romanos, o cônsul italiano acreditava que tal atributo não estava relacionado à virilidade – à força masculina - , mas à sutil combinação entre a demonstração da força e a astúcia. Mais que a força, a astúcia em demonstrar –sem utilizar – a força é que marcava a vida dos grandes príncipes. Por esta trilha, muitos autores imputaram à Maquiavel a noção que o critério para julgar uma decisão política é simplesmente o seu resultado ou a conquista do objetivo a partir da habilidade. O mundo da moral e o mundo da política estariam em dimensões distintas.

Max Weber retomou este dilema ao analisar a ética da responsabilidade, que envolveria a ação dos líderes políticos. Um líder, sugeria o sociólogo alemão, possui paixão, mas também equilíbrio. Mas, antes de tudo, é responsável pelas conseqüências das suas ações. Para o homem de Estado, o que importa é a certeza do resultado. Assim, muitos weberianos sustentam que a omissão é uma possibilidade plausível na ação responsável de um líder político. Nem sempre um líder pode dizer o que ocorre ou vai ocorrer, sob pena de estimular a disputa e trair os objetivos de Estado. Uma ilustração dessa inconveniência seria o anúncio da iminência do congelamento de preços às redes varejistas, alguns dias antes da sua efetivação.

Se essas concepções e orientações teóricas têm sentido, todos candidatos à um cargo político com reais condições de vitória tenderiam a convergir para um discurso e práticas comuns, antecipando a ética de um chefe de Estado. Sabendo que poderiam assumir um cargo público, tenderiam a ser cautelosos, assumir a responsabilidade do cargo e demonstrar possibilidades, mais que agir de maneira arrebatada. Por outro lado, um candidato sem chances efetivas poderia se revelar por inteiro, pender para atos mais agressivos e expressivos, pois estaria longe de praticar sua virtú.

Talvez esteja aqui uma explicação teórica para a campanha presidencial deste ano. Afinal, o que faz três candidatos se parecerem tanto nas suas propostas? Uma hipótese possível é justamente a real chance de qualquer um dos três tornar-se o próximo Presidente da República. Intuitivamente, percebem que o segundo turno das eleições já é uma certeza . Lula parece cristalizar a cada dia sua vaga na disputa final. Ciro e Serra disputam palmo a palmo a outra vaga. No segundo turno, os três candidatos parecem intuir que será uma segunda eleição, não havendo garantias sobre o resultado. Então, os três assumem uma postura cautelosa, insinuando que não romperão com o status quo. Mas esta hipótese não basta. Sabemos que em momentos de forte crise social, de insegurança total sobre o futuro, surgem candidatos ou líderes políticos pouco racionais, da estirpe dos carismáticos. Freud, inclusive, escreveu um texto conservador sobre tal fenômeno, intitulado “O Futuro de uma Ilusão”, onde traçava um paralelo entre a busca da figura do pai organizador e a busca das massas – quando mergulhadas no caos – da figura do líder aglutinador que guiará a sociedade para uma promessa de sucesso. Assim, a similaridade do comportamento e programas dos três candidatos e o espaço insignificante e pouco legitimado de discursos mais arrojados nesta campanha parecem indicar uma percepção geral que não estaríamos mergulhados num caos social, nem próximo. O que pode significar um sinal de maturidade política da sociedade brasileira. Mas esta hipótese explicativa é insuficiente.

Uma segunda hipótese razoável para a similaridade no comportamento dos candidatos é o cenário econômico do próximo ano que reduz em muito o espaço de manobra do futuro governante. Se não estamos mergulhados no caos, também sabemos que não temos garantido um futuro de crescimento e estabilidade. O fluxo de crédito externo para as empresas brasileiras não foi retomado. É um caso inusitado para a história econômica brasileira contemporânea. Mesmo em momentos de crise, nunca o crédito internacional havia sido limitado como agora. Obviamente que a instabilidade latino-americana, as crises da Argentina, Uruguai, Paraguai, Colômbia e Venezuela acabam por gerar grande desconfiança nos investidores. Mas contribuem, também, a paridade do dólar com o euro – demonstrando o esgotamento do crescimento norte-americano – e a crise dos balancetes forjados pelas megacorporações dos EUA. Enfim, o cenário do próximo ano será de grande aperto financeiro. Pior para nossa estrutura econômica que nos anos de gestão FHC acabou por se tornar mais e mais dependente da poupança externa. Os três candidatos, portanto, sabem que não podem abrir muito o leque de opções, sob pena de prometerem o que não poderão cumprir e ainda perderem nos primeiros dias de governo a legitimação que conquistarem nas urnas.

Uma terceira explicação plausível é o envelhecimento precoce de um sistema partidário que nunca foi muito sólido. Saímos de um sistema bipartidário, implantado pelo regime militar, para um sistema pluripartidário muito instável. Diversos estudos e comentários técnicos sugeriam que a exceção à regra seria o Partido dos Trabalhadores. O PT teria, enfim, as características clássicas de um partido moderno: programa partidário para além do período eleitoral, organização burocrática profissional, bases sociais sólidas. Contudo, nas eleições de 1994 já se percebia uma importante inflexão do PT na direção de uma intenção mais claramente eleitoral e menos mobilizadora. Para tanto, reforçou seu marketing, diminuiu sucessivamente seus pontos de atrito com a ordem social vigente e procurou ampliar seu público-alvo para os segmentos formadores de opinião. Afrouxou, assim, seus vínculos com os movimentos sociais que lhe deram sustentação em seu nascimento, assim como os compromissos com a pauta política que esses movimentos elaboravam.

Com tal afastamento, o PT aproximou-se do padrão instável do restante dos partidos políticos brasileiros. Sem o poder de mobilização social – ou mesmo certa simbiose com tais movimentos – o cenário partidário ficou pasteurizado. Nas eleições deste ano, o que era uma tendência, passou a ser uma marca: as alianças políticas são muito parecidas, sem sentido histórico. O que vale é a vitória.

Assim, todos sabemos ainda que intuitivamente, não são os programas de governo que diferenciam os candidatos. Se todos são muito iguais, o que diferencia é o comportamento individual ou o traço de caráter de cada candidato. Os projetos ousados propalados no início do processo de redemocratização do país são substituídos, a partir de então, por ações espetaculares, de natureza mediática. Por aí se explica a importância crescente da vestimenta do candidato, sua reação às provocações anunciadas, a capacidade de sorrir. São filigranas, todos sabem, mas elas é que diferenciam o que é tão igual.

Enfim, nas eleições de 2002, os candidatos estão mais padronizados, mais palatáveis. A mesmice campeia e, mais que nunca, o divórcio entre padrão moral e padrão político é evidente. Talvez, estejamos experimentando a cultura pós-moderna na política. Uma Era marcada pelo pastiche.

RUDÁ RICCI

     

 

 


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