Por RAYMUNDO DE LIMA
Psicanalista, Professor do Departamento de Fundamentos da Educação (UEM) e doutorando na Faculdade de Educação (USP)

 

Eles discursam, mas nada dizem (II)
- uma breve reflexão sobre a sabedoria de Heráclito e a política

 

Para além do discurso e da imagem...

A política verdadeira não se sustenta apenas de discursos. Na "sociedade do espetáculo"  da democracia de mercado,  os políticos também são produzidos para serem vendidos com uma embalagem imagem construída, de discursos bem ensaiados e impessoais. Vende-se um candidato mais pela embalagem do que pelo conteúdo. No campo da política, principalmente, a imagem e o discurso diferem dos atos.

Distinguem-se, ainda  os atos realizados para o bem público dos atos forjados para à melhoria da imagem do próprio político; os atos privados quando levados ao público podem tanto contribuir para melhorar a imagem do político como para jogá-lo em desgraça. Por vezes, os políticos são orientados para revelarem alguns fragmentos de sua vida pessoal e familiar, geralmente fatos ou fatóides tratados com forte teror emocional visando despertar a empatia do público. No fundo, nesse caso, a intenção dos construtores de imagens (marqueteiros) é mostrá-lo sensível,"humano"; a emoção tem o poder de transmitir sublinarmente a mensagem do sujeito autêntico, verdadeiro, confiável e, por isso mesmo, identificável com uma parcela do povo. Quando mais ingênuas e quanto mais "convertida a causa comum" mais facilmente as pessoas  associam emoção com sensibilidade e autenticidade. Desde Goebbls - ministro das comunicações de Hitler - é sabido que o público responde melhor aos apelos emocionais e afetivos do candidato do que a fria lógica racional de seus argumentos.

Lula e sua equipe aprenderam muito com os seus erros da última campanha para presidente. Eles é por demais lógicos, racionais ou teóricos. Hoje estão aprendendo com os apelos das paixões (fé, amor, amizade) e a própria prática política. O excelente marketing da Empresa-Igreja Universal (IURD), com seus cultos-shows muito tem  ensinado ao PT de como fazer uma campanha em tom mais emocional do que racional. O discurso agora sustentado na fé (evangélica, maquiavélica e pragmática) pertence ao lado da paixão [pathos], não da razão [logos]. Apesar de Lula ainda discursar sustentado numa preocupação racional de convencer que ele está preparado para governar o país - e, ele não precisa provar de que está preparado para tal função -, gradativamente percebemos o quanto o candidato petista - e todos os demais - são influenciados pelos marqueteiros contratados para essa função. 

Todavia, os sinais de maioridade política do brasileiro tem indicado que os candidatos mais "autênticos" aparecem melhor nas pesquisas. Ou seja, ser influenciado sim, "pero no mucho". No mínimo, há que manter intacto o estilo pessoal de ser-fazer politica.

O candidato à um cargo político - seja para a Presidência da República ou para a Reitoria de uma universidade - melhor encanta aquele que possui boa imagem, sobretudo, "imagem televisiva",  acompanhado de boa retórica. No fundo, o povão (massa) ainda reage melhor diante do "belo" e quando escutam-no falar "bem". Na dimensão não consciente, o "belo" tende a ser associado a "bom", o "justo" e o falar "bem" tende a ser associado a "verdade". Nietzsche , em Genealogia da Moral, analisou muito bem essa questão. Sublinarmente pensam: "ele parece adequado para o cargo que quer ocupar!, porque fala bem!" ou "como é carismático!", "como inteligente". Daí o sujeito terminar convencendo a maioria de qualidades de que necessariamente não possui.

Ou seja, diante da imagem "boa" e do falar "bem", que atingem o campo das emoções e dos afetos do que o campo do discernimento (razão), leva por "con-vencer", isto é, deixa "ser vencido" nas suas resistências internas.

A história da nossa República, tem o exemplo emblemático de Rui Barbosa, considerado o melhor na retórica, mas não na imagem, não conseguiu impressionar os eleitores em duas candidaturas para a Presidência da República (1911 e 1919), portanto, sendo derrotado. Nos EUA, o carisma de John Kennedy, superou de longe a imagem opaca de Richard Nixon, no primeiro debate televisivo da história. Pesquisa recente revelou que também a altura do candidato é outro elemento importante na composição gestáltica da imagem dos candidados e que contribui para influenciar na resposta do eleitorado. Cerca de 90% dos presidentes dos EUA eram altos. Consta também que candidatos calvos tem menor chance do que os que apresentam um bom penteado. (Ninguém se importa se o candidato tem caspa ou piolhos, mas se tem cabelos! Os adversários de campanha de Jânio Quadros diziam que ele jogava farinha nos ombros do paletó simulando caspa e assim identificar com a maioria dos eleitores que carregam essa "coisa", mas outros dizem que ele tinha a cabeça escamosa).

No momento da disputa eleitoral para a Presidência do Brasil, apesar da boa oratória e de certo carisma, a imagem do candidato Lula, por exemplo, estava mais para Rui Barbosa ou Nixon, porém o "trato" recebido do marketing político deu-lhe nova imagem. São visíveis as mudanças no visual e na retórica do candidato. Sua barba está bem aparada, seu cabelo bem cortado e penteado, seus ternos lhe caem melhor, sua gravata é bem composta, seus gestos estão mais comedidos, sua polidez é de um gentleman.

A imagem e o discurso do "Lula - 2002" é um produto melhor acabado, pronto para ocupar a Presidência da República. Sua impecável tragetória política e ética, agora somada a sua nova estética, está melhor apresentável para "negociar" com a "sociedade do espetáculo", da "imagem", do "discurso" e do "mercado democrático". Por outro lado, o Ciro apesar de estar mais para a imagem de um Kennedy, tem um estilo impregnado de resíduos do "saudoso" Collor de Mello. Causa estranhamento que um histórico esquerdista, Roberto Freire, está sustentando esse lado da política, ajudado pelo ultrapassado discurso de Brizola e da sombra de ACM, figuras estas que resistem se aposentarem da política.

Ainda, não é preciso dizer que o candidato da situação, José Serra, apesar de "um bom sujeito", carece de boa imagem televisiva e falta-lhe calor afetivo nos seus discursos. Ele é alto, mas é calvo e não sabe sorrir. Tem ainda a desvantagem de ser o candidato do governo. Associar sua imagem com artistas em excesso ou remendá-la com uma mulher bonita como vice, parece não entusiasmar a parte mais amadurecida do eleitorado brasileiro. Já o candidato Garotinho, sabe usar o vídeo, sabe discursar, mas carece de conteúdo e de credibilidade. Principalmente quando ele fala do que fez para o Rio de Janeiro...Mas, antes de tudo, o candidato que ousa unir "socialistas" e "evangélicos" tem contra si o próprio nome ou apelido: garotinho! Um "Garotinho" na Presidência da República, não inspira confiança ou responsabilidade que o cargo confere.

... existe o ato ...      

Um candidato não se sustenta somente de imagem e discursos, mas estes precisam ser alimentados por atos.  Entende-se por "ato", não propriamente uma atividade, mas um efeito desta no sujeito (o sujeito da enunciação).  O sujeito humano "re-humanizado" pelo diálogo e pela amizade, se desenvolve mais pelos atos (bons atos que formam "bons hábitos" ou "virtudes") do que só por palavras. Os atos podem ser transformados em palavras plenas, que "possui um efeito de travessia" [2] . Em Lacan, o ato nada tem a ver com o comportamento (behavior) que é uma mera decorrência do instinto animal. Um ser de diálogo é atravessado pela linguagem e atos que "vem no lugar de um dizer pela qual ele muda o sujeito" (Lacan, J.Ornicar? , n. 24). Um ato só pode ser produzido pelo sujeito desejante, e desse lugar, ele deve ser responsabilizado.

No campo da clínica, por exemplo, ser psicanalista implica escutar, interpretar e fazer atos. Mais que ouvir, ele deve saber escutar o que o seu paciente meio-disse, o sentido subjacente à sua fala, as diferenças sutis de cada repetição, até o seu silêncio deve ter sentido etc. (O problema do discurso político e religioso contemporâneo é que, de antemão, você já sabe o que eles vão dizer. Há, portanto, uma previsibilidade no seu discurso, muitas vezes, treinado e padronizado para diversas ocasiões e públicos indistintos).  Apesar de existir no momento uma tendência de recusar a interpretação como instrumento de tratamento, freudianamente ainda cabe ao analista levantar hipóteses interpretativas sobre a fala do paciente, que num primeiro momento "fala sem falar com você", ou "fala, fala, fala, sem se dar conta do sentido", ou ainda, "fala sem querer ouvir". Desvelando o sentido da fala pela via da interpretação ou  pontuando  a fala do paciente, o analista produz atos que tem valor de interpretação clínica. 

Por ser nascido da sabedoria - e não do saber ou do conhecimento científico -, o ato tem o poder de produzir uma espécie de cura ou pelo menos mostrar ao paciente qual o caminho dela. Seu efeito é uma forma de  reeducação, ou melhor, uma reorganização psíquica e social enquanto ser-no-mundo. O ato clínico do analista não visa servir ao sistema ou a ideologia, mas sim a existência desejante, ética, digna, autêntica, posta no caminho do que os gregos, como Aristóteles, acreditavam que todo ser humano aspira: eudemonia  ou felicidade

Voltando aos políticos, em vez do blá, blá, blá, da palavra vazia que não leva a lugar algum, os políticos aos se renderem a maquiagem de sua imagem e alteração de seu discurso e até de seu próprio estilo, correm o risco de perderem sua autenticidade e veracidade. Igualados nesses elementos, resta aos eleitores a análise dos atos que fizerem e que deixam escapar nos momentos de debates, de corpo-a-corpo de rua, enfim, onde eles se deixam escapar a sua verdade de sujeito, não dos marqueteiros.

O que serve para pensar a clínica psicanalítica, também serve para jogar luz na atitude do político. Primeiro, os atos do político - públicos ou privados - devem  refletir sua ética. Segundo, a massa demanda do candidato um Mestre da verdade. Se o candidato encarnar esse lugar, é perigoso ele se tornar um deus ou um tirano.

Se o político, para além de ser preparado na sua capacidade oratória, cuidar de sua imagem diante da mídia, aprofundar conhecimentos de economia e política, ajudaria muito se ele aprendesse a escutar o seu povo. Seria como que ocupar o lugar da  Sabedoria - não necessariamente de analista; assim, ele não deveria acreditar na imagem sua produzida, como se fosse uma mentira para enganar; logo, ele deveria se render diante de sua auto imagem produzida como se fosse uma verdade. Os ditadores - de direita ou esquerda - se vêem eternos, na medida do seu narcisismo. Enfim, a sabedoria não se sente hipnotizada com o poder. Os grandes estadistas não se apegaram ao poder. Exemplo recente de estadista é Nelson Mandela, que ao ser eleito Presidente da República só tinha como experiência seus quarenta anos de prisão e, uma vez cumprido o seu mandato, por livre opção, deixou o governo da África do Sul para viver sua vida pessoal. Mandela, além de estadista, pode ser considerado um sujeito de Sabedoria.

No momento em que os discursos dos nossos candidatos são parecidos, prometendo sempre as mesmas coisas e até absurdos, a diferença talvez poderia estar na capacidade de cada um escutar o povo e demonstrar que atos fizeram na sua história de homem público, visando o bem comum. 



[1] Raymundo de Lima é professor do Departamento de Fundamentos de Educação, na área de Metodologia e Técnica de Pesquisa ( METEP)  da Universidade Estadual de Maringá. Site: www.espacoacademico.com.br

[2] Cf.: Chemama, R. Dicionário de psicanálise. Porto Alegre: Artes Médicas, p. 08-10 e 18-19.

Nota: Convém esclarecer que Lacan em seu Seminário X, 1962-63, propôs um descolamento entre o ato,  passagem ao ato e acting out.  Para Lacan, "um ato é sempre significante(...), permite ao sujeito se encontrar, no a posteriori, radicalmente transformado, diferente do que tinha sido antes desse ato" (Chemama,  p. 8). Segundo Lacan, haveria uma diferente entre o acting out e a passagem ao ato. Enquanto que o primeiro é uma conduta assumida por um sujeito,  se dirige para alguém, querendo dizer algo em ato, logo, sendo passível de interpretação,  a passagem ao ato está situada do lado do irrecuperável, do irreversível, do impulso puramente inconsciente (e, não um ato); é sempre a ultrapassagem da cena, para além do real; é onde  o sujeito se exclui e recusa uma elaboração. O ato é o que, no analista, substitui a interpretação; é uma intervenção clínica que tem valor de interpretação; é o que dirige o tratamento, mas tem o cuidado de não dirigir a conduta do paciente. "Deve, por exemplo, evitar que o sujeito mergulhe na repetição, que a resistência neutralize o trabalho que o tratamento está realizando" (R. Chemama, p. 19). O ato possui também uma marca de passagem do analisando a psicanalista, ou é quem sinaliza o fim do percurso de uma psicanálise.

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Referências bibliográficas

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RAYMUNDO DE LIMA

     


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