Por JOÃO DOS SANTOS FILHO

Bacharel em ciências Sociais - Mestre em História e Filosofia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São  Paulo

 

O turismo em nossa latinidade: uma nova forma de colonização (II)*

 

João dos Santos Filho**

Resumo:

O presente artigo sinaliza uma discussão dos processos de impacto cultural, econômico e social que ocorreram durante o desenvolvimento de nossa história. A relação existente com o movimento mundial de internacionalização de áreas de preservação natural se constituí em motivo de preocupação para países como o Brasil. Esse processo se estende a todos os países latino-americano que hoje possuem grandes extensões de mar e algum tipo de floresta nativa. A internacionalização não se constituí em algo novo para a América-Latina esse é um perigo que hoje está associado à globalização e adquire força por meio do turismo sustentável.

Palavras-chaves: Internacionalização, Impacto, Turismo Sustentável, insustentabilidade turística.

 
Colonização:


Com a chegada de Pedro Álvares Cabral e sua frota no litoral brasileiro, na região da Bahia, chamada por ele de Monte Pascoal e terra de Vera Cruz, acontece o contato com alguns habitantes do Novo Mundo. Nesse momento, os jesuítas conheceram pela primeira vez aqueles que deveriam ser convertidos para o cristianismo, ou seja, catequizados para serem usados como mão de obra escrava:

Hoje, 23 de abril, é o dia do padroeiro de Portugal. Outra razão para que rezemos muito, agradecendo mais esta bênção. É uma nova terra, e são gentios que devemos catequizar. Quantos mais o forem melhor para nós. [3]

Nas cartas de Pero Vaz de Caminha estão explicitadas as preocupações pelo "amansamento" e cristianização desses povos, além do elogio repetitivo sobre a beleza dos nativos e da natureza, o escrivão mor, afirma que:

... segundo a santa intenção de Vossa Alteza, se hão de fazer cristãos e crer em nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque, certo esta gente é boa e de boa simplicidade. E imprimir-se-á ligeiramente neles qualquer cunho, que lhes quiserem dar. E pois Nosso Senhor, que lhes deu bons corpos e bons rostos, como a bons homens, por aqui nos trouxe, creio que não foi sem causa. Portanto Vossa Alteza, que tanto deseja acrescentar a santa fé católica, deve cuidar da sua salvação. E prazerá a Deus que com pouco trabalho seja assim. [4]

Cabe lembrar que o processo de colonização não está isento da noção de descobrimento e dominação. Na verdade esses termos são usados na história mundial como sinônimos, como assim, lembra o historiador Francisco Iglesias, quando diz:

A palavra descobrimento, empregada com relação a continentes e países, é um equívoco e deve ser evitada. Só se descobre uma terra sem habitantes: se ela é ocupada por homens, não importa em que estágios culturais se encontrem, já existe e não é descoberta. Apenas se estabelece seu contato com outro povo. A expressão descobrimento implica em uma idéia imperialista, de encontro de algo não conhecido, visto por outro que proclama sua existência, incorporando-se ao seu domínio e passando a ser dependente dele. [5]

A descoberta do Novo Mundo leva seus precursores a se tornarem perfeitos ampliadores de áreas territoriais para o reino, bem como, farejadores de mercadorias preocupados em ampliar suas riquezas na qual haviam sido os financiadores das grandes navegações e, portanto guardiões de seus interesses já capitalistas. Por isso os europeus constróem utopias, mescladas aos sonhos e relatos dos primeiros navegantes. Essa ideologia acelera o processo de expansão do capital e o torna referência para entendimento e assimilação dos novos espaços geopolíticos.
O processo de evangelização foi um projeto do Estado colonial na tentativa de preparar uma mão-de-obra para o trabalho escravo, instrumento fundamental para garantir as necessidades da nobreza e mapear a localização das minas de ouro, prata e posteriormente das pedras preciosas. Foi justamente nesse momento, que alguns comerciantes de extrema presença religiosa e principalmente os jesuítas se tornam grandes escritores detalhando as condições do cotidiano brasileiro e informando os caminhos em detalhes de como chegar às riquezas minerais.

Os jesuítas em alguns momentos puderam demonstrar certa independência para com a igreja portuguesa e papal, pois poucos não foram os casos em que o mundo religioso local possuía uma leitura adversa das orientações do Vaticano. Não podemos esquecer que no período do século XVIII, o aparecimento dos Beatos veio minimizar a escassez de padres na tentativa desesperada dos católicos em conter a entrada dos protestantes. Obrigando a igreja num primeiro momento a estimular a sua própria instituição local, criando uma certa distância da vigília do clero oficial. Os membros pertencentes a "Companhia de Jesus" representavam os setores mais avançados do ensino "formal" e portanto, descreveram um Brasil desconhecido que só por suas referências podemos entendê-lo Aí temos um veio novo a ser trabalhado na historiografia brasileira com base nos roteiros elaborados pelos jesuítas e por leigos comerciantes que em muitos casos serviram-se desses relatos entre os viajantes e tropeiros da época.

Os jesuítas e comerciantes em sua atividade evangelizadora e produtiva se constituem nos primeiros professores, organizando

... sua atividade missionária através da associação de seus colégios, que se situavam no litoral, às povoações indígenas e às aldeias missionárias. Os colégios, pelo menos numa etapa inicial, preparavam missionários para o serviço nas aldeias ...
Nunca houve qualquer atividade voltada especificamente para os negros. Ao contrário, considerava-se que o escravo africano fazia parte por direito de uma família patriarcal, à cuja testa estava um senhor branco. [6]

Na verdade o Clero local por meio de seus jesuítas, bem como, leigos de grande influência econômica, social e de formação teológica acabaram incorporando para si a função de retratar aquela época por meio de minuciosas e detalhistas descrições tanto literárias como iconografias. Portanto, outros escritores portugueses retrataram o Brasil colônia na sua vida cotidiana, destacando as questões sociais, políticas e econômicas.

O processo de relatar o Brasil por via literária ao mundo foi objeto de um dos momentos de maior censura por parte do governo português que com o medo de combater os invasores e piratas e com isso demonstrar a dimensão exata da fragilidade de seu Estado colocando a aristocracia portuguesa em situação difícil desde o descobrimento. Usar do poder de censura do Estado [7] para limitar e selecionar produção científica da época, buscando com isso intimidar os interesses de outras potências, foi atitude politicamente equivocada que acabou avisando ao mundo das dificuldades do governo português.

A aristocracia estabeleceu um Estado repleto de privilégios para si, onde a vida se resumia em atividades de cavalaria e grandes festas na corte para desfilar suas jóias, roupas, status de senhores feudais e passar a idéia de raça superior. Nesse sentido, o comentário do historiador Sezinando Luiz Menezes completa nossa idéia central:

Nunca é demais afirmar que em Portugal, no século XVII, a nobreza e o clero eram isentos do pagamento de tributos, recaindo a obrigação de pagá-los ao "terceiro estado", ou seja, ao restante da população. [8]

As dificuldades dadas pelo desgaste do reino português na luta contra os Mouros trouxeram-lhe uma enorme sangria em suas finanças, bem como, a custosa política colonialista imposta ao Brasil e África, acabaram por expor Portugal junto a comunidade internacional. O declínio desse império se deve a um conjunto de fatores de ordem econômica e política acompanhados do aceleramento e inutilidade histórica de uma classe aristocrática.

De um lado o impacto do processo de colonização que tentou primeiramente escravizar os nativos da terra por meio da criação das estruturas religiosas de evangelização as conhecidas Missões jesuíticas. De outro, o movimento pela cristianização que tinha por objetivo iniciar um processo de destruição da cultura nativa e impor os padrões da civilização ocidental se tornou extremamente eficaz. E finalmente, o gosto pela caçada humana, esporte preferido dos bandeirantes cujo o interesse era desbravar o território dos gentios da terra, ou seja um genocídio em massa que foi preparado pelos invasores durante todo o período da colonização.

Com os africanos se estabelece a produção comercial de exportação da colônia e os portugueses conseguem tornar o tráfico de escravos uma das principais fontes de renda do governo imperial lusitano. O negro traz uma cultura que é reprimida mas ao mesmo tempo assimilada pelo colonizador, esse sincretismo é que dá o perfil do brasileiro.

Com a vinda do imigrante europeu, que atendeu ao pedido do governo as condições dadas para o trabalho são as piores possíveis na verdade a escravidão ainda dava o tom para o chamado trabalho livre.

O retrato desses acontecimentos foram sempre denunciados por Darcy Ribeiro de forma romanceada, mas sem perder a seriedade acadêmica e a sensibilidade de um poeta, comenta em uma de suas obras:

Maior ainda foi o desgaste humano. O Brasil tem sido, ao longo dos séculos, um terrível moinho de gastar gentes, ainda que, também, um prodigioso criatório. Nele se gastaram milhões de índios, milhões de africanos e milhões de europeus. Nascemos de seu desfazimento, refazimento e multiplicação pela mestiçagem. Foi desindianizando o índio, desafricanizando o negro, deseuropeizando o europeu e fundindo suas heranças culturais que nos fizemos. [9]

Esse processo está marcado por profundas alterações na forma de ser das etnias que vão compor o "ethos brasilis" o impacto cultural, econômico social dessas raças definem e recriam um Brasil, marcado e diferenciado, onde a beleza do corpo se junta a riqueza própria da saga brasileira. Alcunhada de verde e amarelo, mas pálida pela miséria e pelo desconforto de estar sempre sendo perseguida em suas riquezas minerais e ecológicas.

No império pela exploração do pau-brasil, café, açúcar, ouro e pedras preciosas por parte dos portugueses. Na República os interesses da Inglaterra e Estados Unidos querem formalizar um processo de agiotagem internacional. Ampliando o domínio político, ideológico e facilitando o controle de nossas riquezas por estrangeiros que acabam exercendo um controle geo-político do território nacional, destacando o turismo como o elemento extremamente facilitador na sinalização de um possível movimento de internacionalização do país.

Na colônia a vida cotidiana passava pela necessidade do colonizador em escravizar e/ou matar o nativo da terra. Para ele, a atividade de trabalho estava direcionada exclusivamente para o acumulo de capital, onde o lazer se mesclava nas atividades de caça ao gentio da terra, festas religiosas e administração das terras.

O trabalho diário era função exclusiva do escravo indígena e/ou negro que para aqueles que suportavam o duro trabalho durante o dia, reservam o terreiro e a senzala para as danças, namoro e devoção de suas divindades religiosas.

Monarquia:

É um período de grande desenvolvimento para a colônia e ao mesmo tempo de crise pois não consegue manter os mesmos padrões tradicionais de relação política e comercial com a metrópole. A expansão do comercio constrói uma política mercantilista, onde os comerciantes, banqueiros e armadores (burguesia) se associam ao Estado Absolutista, segundo a historiadora Emilia Viotti, o sistema colonial foi criado

... segundo a lógica do capitalismo comercial e em função dos interesses do Estado absolutista entrou em crise quando a expansão dos mercados, o desenvolvimento crescente do capital industrial e a crise do Estado absolutista tornaram inoperantes os mecanismos restritivos de comércio e de produção ( ... ). Preconizava a adoção de um regime de livre concorrência e afirmava a superioridade do trabalho livre sobre o escravo. [10]

Esse descortinar-se do mundo burguês, vai desencadear movimentos revolucionários internos e criar um sentimento de nacionalidade capaz de agitar os núcleos urbanos do Brasil. Os interesses da metrópole não eram mais os mesmos da colônia, pois existia uma burguesia já configurada de largos traços rurais e comprometida com algumas bases industriais, o Brasil começa a se desvencilhar dos grilhões do colonialismo com a vinda da Família Imperial e abertura dos portos, ou seja a quebra do monopólio português no mercado brasileiro em 1808.

Com a vinda da Família Real e a descoberta das minas de ouro e diamantes, o desenvolvimento econômico ressurge via urbanização, as cidades são remodeladas e preparadas para dar espaço para as maravilhas tecnológicas . O Rio de janeiro foi totalmente reorganizada, bairros foram surgindo e detalhando uma estratificação social:

Os Ingleses, com seu amor pelo paisagismo, pelos belos jardins floridos e por construções mais elaboradas, sem dúvida, contribuíram para um maior requinte no habitar.
A orla marítima de belas praias e a encosta das colinas foram ocupadas pelos ingleses.(...). Bairros como Mataporcos, Pedregulho e Rio Comprido, por serem próximos ao Paço de São Cristóvão, recebem a preferência de fidalgos palacianos ou portugueses presunçosos. Os Franceses, por sua vez, desde que aquinhoados ou gozando de boa situação social distribuíram-se por vários recantos da floresta da Tijuca, onde construíram belas casas de campo ... (grifo nosso) [11]

A cidade do Rio ganha contornos de Capital, apesar da carência em hotéis, hospedarias e estalagens. O numero e o preço elevado de casas e quartos de aluguel, bem como, os meios de transportes, como carruagens, cadeirinhas e cavalos, dificulta os passeios para os pontos turísticos da cidade, como assim comenta Mário Jorge Pires:

Além de observar as vistas dos arredores do Rio de Janeiro, que tanto maravilhavam todos os viajantes estrangeiros, até meados do século passado era obrigatória a todos os forasterios a ida ao Jardim Botânico, à Tijuca e ao Corcovado ... O passeio ao Corcovado só se tornou exeqüível, porém, depois que, por ordem de D. Pedro I, foi aberta uma estrada, por onde se podia ir a cavalo até o alto. [12]

O Rio começa a se tornar cartão postal do Brasil e ponto de referência para a América Latina, como cidade já cosmopolita se torna conhecida em todos os continentes. Configurando-se como centro de recebimento de mercadorias por via portuária, pelo fluxo de estrangeiros para fazer turismo ou para realizar grandes negócios e núcleo nervoso da política monárquica nacional e da organização republicana que sonhava conspirar e assumir o poder.

O Rio de Janeiro por hospedar a corte, ser Capital Federal, possuir atrativos naturais que o imperador sabe admirar, dão a essa região o perfil mundial de cidade "maravilhosa". O Turismo começa a usar o diferencial do banho de mar e da floresta da tijuca em que o imperador passa parte de suas horas.

No campo gastronômico o Brasil possui uma riqueza e variedade assombrosa, segundo Luis da Camara Cascudo um dos maiores estudiosos dos costumes de seu povo, afirma:

Pode verificar-se, como ocorreu no Brasil, uma interdependência mais acentuada entre nativos e colonizadores. Mas os processos permanecem diferenciados embora com a presença dos condimentos que o português transplantou desde o séc. XVI.
A cozinha brasileira é um trabalho português de aculturação compulsória, utilizando as reservas amerabas e os recursos africanos aclimatados. [13]

A história da alimentação no Brasil aparece com D. João em Portugal e D. João VI no Brasil, a corte e os populares fazem troças do apetite do pai e filho. "A figura gorda, balofa, bonachona, de D. João VI, os frangos favoritos, o rapé solto na algibeira do colete, o asseio precário do corpo ... " [14]

Na verdade a vinda da corte deu ares de metrópole ao Brasil, a afluência de estrangeiros ao Rio e São Paulo deram a essas cidades o suporte para atendimento desses turistas, num primeiro momento importando o requinte exclusivamente europeu e posteriormente mesclando com a timbre brasileiro (índio, escravo e imigrante). Esse foi um período em que o Brasil formou seu plantel de integração onde várias raças e etnias lhe permitiram ter uma culinária extremamente diversificada; uma ordem melodiosa musical que mexe com todas as partes do corpo; uma raiz folclórica rica que traz a tona a agilidade e plumagem dos verdadeiros donos da terra, a força e garra do africano, e a maciez erudita da cultura imperialista do estrangeiro europeu.



* Nesta parte o autor aborda os períodos da Colônia e Monarquia. Continua no próximo número.

** Bacharel em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e Turismólogo pelo Centro Universitário ibero-americano. Mestre em Educação e pela PUC-SP e Professor e coordenador do curso de Turismo das Faculdades Nobel. Professor do curso de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Maringá. Professor  de turismo da Universidade Norte do Paraná - UNOPAR. Fundador da Associação Brasileira de Bacharéis de Turismo do Estado de São Paulo – ABBTUR-SP e do Instituto de Análises sobre o Desenvolvimento Econômico Social – IADES.

[3] GALVANI, Walter. Nau capitânia: Pedro Álvares, como e com quem começamos. Rio de Janeiro: Distribuidora Record de serviços de imprensa S.A., 2000, p. 18.

[4] Grandes Cartas da História - José Paulo Paes - Cultrix. Interntet.

[5] IGLESIAS, Francisco. AZEVEDO, Nogueira de. MONTEIRO, John Manuel. Confronto de Culturas: conquista, resistência, transformação. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura; São Paulo: EDUSP, 1997, p. 23.

[6] Bethell, Leslie (org). História da América Latina: A América Latina Colonial I. In A Igreja Católica no Brasil Colonial. Eduardo Hoornaert. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, DF: Fundação Alexandre Gusmão, 1998, p. 555 e 556.

[7] Ler o artigo intitulado "Ordem Régia de censura a roteiros turísticos do século XVIII: André João Antonil no Índex. In: Boletim de turismo e Administração Hoteleira, n.2 de 0utubro de 2001" do Centro Universitário Ibero-Americano - UNIBERO

[8] Menezes, Sezinando Luiz. O padre Antônio Vieira, a cruz e a espada. Maringá: Eduem, 2000, p 14.

[9] Ribeiro, Darcy. O Brasil como problema. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995. p.13.

[10] Da Costa, Emilia Viotti. Da Monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo: Editorial Grijaldo, 1977. P. 20

[11] Pires, Mário Jorge. Raízes do Turismo no Brasil. Barueri/São Paulo: Editora Manole, 2001. P. 35 e 36.

[12] Idem, p. 55.

[13] Cascudo, Luis da Camara. História da alimentação no Brasil Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1983, p. 431.

[14] Idem, p.443.

JOÃO DOS SANTOS FILHO

     

 


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