Por EVA PAULINO BUENO
Professora de Espanhol e English Communication na Mukogawa Women's University, em Nishinomiya, no Japao; autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM, 2000)

 

O Domingo Filipino


Qual é a diferença entre uma empregada muçulmana e uma cristã? Para nós no Brasil, onde somos todos católicos (mesmo quando freqüentamos outras religiões), esta pergunta é quase irrelevante. Mas essa diferença faz muita diferença se a empregada é da Indonésia ou das Filipinas, e procura trabalho, por exemplo, na Malásia. A diferença é de exatamente 80 rupiahs, de acordo com a Agência One a MAID (http://www.kl-kool.com/maidsportal/employer1.htm) de Kuala Lumpur: o salário da indonesiana  é  370 rupiahs, e o da cristã é 450 rupiahs. Agora, se a empregada for filipina, e não tirar dias de descanso, o/a empregador/a terá que pagar mais que o dobro do salário da indonesiana muçulmana (850 rupiahs). A diferença de preço está refletida também nas taxas que a agência cobra do empregador: 2.700 rupiahs (para as indonesianas) e 3.500 rupiahs (para as filipinas). Estas taxas cobrem o exame médico e a passagem de ida do país de origem até a Malásia.

Estas agências de empregadas domésticas são muito procuradas em lugares como Singapura, Hong Kong, e, inclusive, cidades japonesas que têm uma alta incidência de estrangeiros trabalhando em funções de chefia para multinacionais. No Japão, as leis que regulam a contratação de estrangeiros são muito exigentes, e até  estes executivos  de multinacionais (que, tecnicamente não estão trabalhando NO Japão, mas PARA suas companhias) têm que preencher certos requisitos para poderem ter permissão para trazerem empregadas domésticas para dentro do país. As famílias japonesas simplesmente não têm permissão de contratar domésticas de outros países.

Na região de Osaka-Kobe, onde moro, a grande maioria das empregadas domésticas são filipinas  (eu só sei de UMA que é japonesa e trabalha para uma família russa). As filipinas são facilmente reconhecíveis nos trens e ônibus, por duas razões além da diferença física: se vestem diferentemente das mulheres japonesas da mesma idade, e falam inglês ou tagalog. Acho que é o fato de falarem inglês que as torna mais apreciadas pelas famílias dos executivos de multinacionais daqui, a maioria dos quais vêm de países de língua inglesa. Mas aqui este grupo de trabalhadoras é reduzido, e tende a reduzir-se mais com o enfraquecimento da economia japonesa e a diminuição de companhias multinacionais no país.

Em se tratando de qualidades das empregadas, a agência localizada em http://www.relational.com.hk/aboutmaid_e.htm, de Hong Kong, não deixa por menos: empregadas de cada nacionalidade são apresentadas com características específicas. Assim, se você precisa de uma empregada que fale cantonês muito bem, e que é paciente, obediente, e respeite os mais velhos, contrate uma mulher da Tailândia. Se suas necessidades são mais para o cuidado de crianças, contrate uma filipina, que aprende depressa, em geral tem curso superior, e tem experiência com bebês e crianças pequenas. Agora, se o que você está procurando é uma empregada obediente e leal, contrate uma da Indonésia que, embora não fale nem inglês nem cantonês muito bem, está acostumada a trabalhar duro, em silêncio, “por causa da cultura em que ela foi criada.”

Logicamente, esta contratação de mulheres (em geral jovens) de um país a outro, para trabalharem dentro do recinto doméstico, pode causar muitos problemas tanto para o empregador como para a empregada. Do ponto de vista do empregador—pelo menos do empregador decente, que tenha compaixão e humanidade—a presença desta pessoa de outro país em sua casa, sob sua responsabilidade, representa um encargo pesado. Sempre há problemas de adaptação à cultura, à comida, e até mesmo à língua. E, se a empregada não for o que o empregador precisa? Não é tão simples dizer-se a uma jovem que veio, por exemplo, de uma vila da Indonésia, que seus serviços não são mais apreciados ou necessários, e que ela tem que voltar pra casa no próximo avião. Muitas destas mulheres que saem de seus países para trabalhar fora como domésticas deixam seus filhos pequenos e maridos para poderem ir ganhar o suficiente para sustentá-los. Uma pesquisa feita entre as empregadas domésticas filipinas em Hong Kong determinou que elas mandam 80% dos seus salários para as Filipinas, e que muitas são a única fonte de renda para suas famílias.

Mas o problema maior é mesmo para as empregadas. O ambiente doméstico, muitas vezes fechado ao mundo exterior, é o local apropriado para  abusos de todas as formas. Em fins de 1999 e início de 2000, houve grande escândalo na Malásia, quando vieram à tona casos em que as patroas haviam torturado suas empregadas indonesianas das maneiras mais bárbaras. Uma dessas patroas foi presa quando sua empregada teve que ser hospitalizada e ficou em coma devido aos maus tratos. Situações similares acontecem em Hong Kong, de onde vem o filme curto “The Amahs of Hong Kong.” Neste filme de 11 minutos (dirigido por Anastasia Edwards, produzico por bbf DAERRE com a TVE em 1996), se apresentam e discutem não só o sofrimento e abuso que estas empregadas filipinas sofrem nas mãos dos patrões, mas também a recompensa de seu sacrifício com a possibilidade de mandarem para casa dinheiro para a educação dos filhos e para juntarem o suficiente para se manterem quando se aposentarem.

Por mais difícil que seja a vida das empregadas domésticas em Hong Kong, a situação é especialmente grave para as que vão para países como a Arábia Saudita, onde, em julho do ano passado, Edan Tejano, uma filipina de 28 anos de idade, foi decapitada por ter matado o seu empregador. De acordo com depoimentos de outras filipinas, Tejano disse que esfaqueou o patrão porque ele estava tentando violentá-la. 

Tal alegação não mereceria crédito, se fosse um caso isolado, mas não é. De fato, a situação é tão grave na Arábia Saudita que a embaixada filipina tem um centro para a proteção a empregados de seu país—Overseas Workers Welfare Administration (OWWA). Foi neste centro que Edan Tejano buscou refúgio após ter esfaqueado o empregador. Foi de lá que a polícia a retirou, levou à prisão, e executou, sem que ela tivesse acesso a um advogado. Já que havia invadido o recinto da OWWA, a polícia saudita também levou presa outra filipina a quem Tejano havia encarregado de cuidar das jóias que ela trouxe consigo quando escapou da casa do empregador. A polícia concluiu rapidamente que as jóias eram roubadas, e prenderam a  mulher que as tinha em seu poder. Esta outra filipina teve as duas mãos amputadas e ainda se encontra na cadeia, acusada de ter sido cúmplice no crime de Tejano. E o caso destas duas mulheres reflete uma situação comum, porque o centro está sempre cheio de mulheres escapando de casas em que as famílias as maltratam, os patrões as violentam, e elas não têm nenhum recurso legal ou proteção policial dentro do país (ver http://www.yimbi.com/v3n08/editoria.htm). Casos semelhantes têm sido denunciados no Kwait, especialmente com relação a empregadas filipinas (ver http://www.casi.org.uk/discuss/2000/msg00883.html).

Então, sabendo de todas estas coisas, para mim foi uma grande surpresa uma cena que presenciei em Hong Kong: no fim de semana, especialmente no domingo, as empregadas domésticas que têm dia de folga se reúnem no centro da cidade. Para quê? Para se reencontrarem, para contarem novidades que receberam de suas famílias, pra passarem receitas e modelos. Na ocasião em que eu estive em Hong Kong, a região próxima das docas e praças ao redor da igreja católica havia mais de cinqüenta mil filipinas sentadas em cobertores em pequenos grupos, fazendo piquenique, esculpindo flores em sabonetes, fazendo crochê, jogando baralho, rindo, se divertindo. Esta cena, composta quase que exclusivamente de mulheres, é conhecida em Hong Kong como o “domingo filipino.” Com a presença de mais de trezentas mil empregadas domésticas das Filipinas, e com a reconhecida capacidade filipina para festejar, este evento de todos os fins de semana já é parte do cenário de Hong Kong.

Provavelmente, se houver mudanças econômicas drásticas na antiga colônia britânica, a situação das empregadas domésticas mude em Hong Kong. Por enquanto, é um prazer ver que estas mulheres filipinas, tão longe de casa, passando por tantas dificuldades e sofrimentos, ainda encontram forças pra se juntarem no espaço público e pra reavivarem os laços comunitários que elas trazem de seu país de origem. Ainda que a força política das trabalhadoras filipinas não seja tão grande, recentemente elas conseguiram que a proposta para a redução de seu salário fosse rejeitada. No “domingo filipino” o velho ditado de que “a união faz a força” tem uma de suas melhores demonstrações.

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* Professora de Espanhol e English Communication na Mukogawa Women's University, em Nishinomiya, no Japao; autora de Mazzaropi, o artista do povo - EDUEM, 2000

 

EVA PAULINO BUENO

     

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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