Por JOÃO DOS SANTOS FILHO

Bacharel em ciências Sociais - Mestre em História e Filosofia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São  Paulo

 

 

O turismo em nossa latinidade: uma nova forma de colonização (I)*

 

João dos Santos Filho**

Resumo:

O presente artigo sinaliza uma discussão dos processos de impacto cultural, econômico e social que ocorreram durante o desenvolvimento de nossa história. A relação existente com o movimento mundial de internacionalização de áreas de preservação natural se constituí em motivo de preocupação para países como o Brasil. Esse processo se estende a todos os países latino-americano que hoje possuem grandes extensões de mar e algum tipo de floresta nativa. A internacionalização não se constituí em algo novo para a América-Latina esse é um perigo que hoje está associado à globalização e adquire força por meio do turismo sustentável.

Palavras-chaves: Internacionalização, Impacto, Turismo Sustentável, insustentabilidade turística.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ao transformar todas as coisas em mercadorias, a produção capitalista destruiu todas as antigas relações tradicionais e substituiu os costumes herdados e os direitos históricos pela compra e venda, pelo “livre” contrato. (Engels, Friedrich 1977, p.86)

Não gosto também da demagogia de quem afirma que na invasão das América não houve vencedores nem vencidos. Claro que os houve e ainda há. Aí estão os índios há cinco séculos vencidos, humilhados e oprimidos. O mínimo de respeito a seu drama devia calar estas vozes irresponsáveis. (Ribeiro, Darcy. 1995, p.121)

Hoy en día ser "moderno" significa tener acceso a los circuitos industriales del comercio, las finanzas, las inmobiliarias y la industria turística. Ser "marginal" hoy significa ser nacional, regional, local. Las élites internacionales son las que hacen la historia; los marginales son los objetos de esta: objetos de explotación, objetos típicos o sexuales del turismo, un emplazamiento para la apropiación y la inversión. (Petras, James. s/d, p.25)

 

Introdução

Esse trabalho pretende realizar um ensaio que busque entender o desenvolvimento do turismo no Brasil, destacando os mecanismos históricos e os impactos culturais, econômicos e sociais que ocorreram desde o  processo de colonização até hoje. Obviamente que delimitamos um pressuposto que nos auxiliará na discussão dessa idéia; todo processo de colonização ocorrido no Brasil se revelou como um fator de dominação imperialista e permaneceu constante na história por meio dos disfarces lingüísticos. Entendendo que o mesmo se manifestou nas mais diferentes formas e combinações, a mais atual é  aquela apresentada  em razão dos grandes empreendimentos turísticos que começaram a surgir, os resorts de alto luxo  multinacionais e/ou nacionais.

O turismo, apesar de sua abrangência, especificidade e riqueza epistemológica  como fenômeno social, pode ser visto, como qualquer outro empreendimento econômico, pois apresenta um processo de impacto global ao meio ambiente e portanto deve ser trabalhado em sua totalidade. Quando assim encaminhado é possível entender sua dinâmica e complexidade no campo do processo da sociabilidade e do conjunto das relações humanas resgatando sua verdadeira dimensão.

Considerá-lo como mais um elemento da cadeia produtiva econômica, como assim o faz a Organização Mundial de Turismo-OMT, afirmando que:

El crecimiento  constante de esta industria y su tendencia consiguiente a la masificación se produce de forma paralela com una mayor conciencia ambiental de unos consumidores que cada vez exigirán destinos turísticos más limpios, más seguros y más benévolos para com el medio ambiente. Estas dos tendencias, cuantitativa y cualitativa respectivamente, convierten en algo imperativo el desarrollo y la gestón de una industria turística sostenible. [1]

É diminuir a compreensão do fenômeno turístico dentro do viés do pensamento economicista, estritamente limitado e vulgar, preocupado com o gerenciamento quantitativo da "riqueza" que é produzida para uns poucos, sem fazer questionamentos dos prejuízos  que isso causaria para a maioria das populações locais que são expulsas, enganadas ou em alguns casos exterminadas pelo interesse do capital.

Nesse caso, podemos mencionar o que vem ocorrendo no Estado do Ceará na cidade de Aquiraz,  junto a comunidade do Batoque, localizada  entre uma reserva indígena e uma mata nativa. Onde os interesses de grupos políticos e econômicos do nordeste agem como grileiros em terras da união, expulsando a população nativa, utilizando todo tipo de expediente intiminador para a compra da terra a custo irrisório, até a prática do extermínio físico de seus habitantes*.

A tentativa de fuga dessas situações fez com que a literatura buscasse  no conceito de sustentabilidade a noção de equilíbrio e harmonia, já que no sistema capitalista esses fatores são impossíveis de serem resguardados, pois  quem dá o tom para a dinâmica econômica é a própria insustentabilidade entre o ecológico e o social. Nesse caso, o equilíbrio que permanece só é conseguido por meio da referência lingüistica que cumpre seu papel dentro da lógica do discurso de convencimento, tornando a implantação e a venda das mercadorias (empreendimentos turísticos)  viável  dentro do processo de globalização.

O Brasil faz parte das intenções dos grandes grupos multinacionais do turismo, que enxergam as belezas do litoral e as grandes áreas florestais de nosso país com olhos internacionalistas. Pensando em implantar núcleos turísticos onde o referencial natureza se constituí no produto a ser explorado independente da dimensão dos impactos sociais, econômicos e políticos que irão ocorrer nas várias regiões do país.  Os grandes empresários estrangeiros buscam mostrar suas intenções de ecologistas, porém os seus interesses estão acima de qualquer possibilidade de diminuir seus lucros. Apesar de todos proporem planejamento dentro dos princípios nobres do turismo sustentável, acabam sendo rendidos pelos interesses políticos locais e  até nacionais que quase sempre propõem acordos vantajosos para não perderem os investimentos para outras localidades.

E nesse caso o Estado como preocupado em ampliar os empreendimentos para sua região, acaba criando uma serie de incentivos que vão desde a isenção de impostos por um número determinado de anos ao implemento de infra-estrutura  relativa ao saneamento básico, terraplanagem e logística viária para a área onde será feito o investimento.

Áreas de manancial  e de reserva ecológica, acabam sendo objeto da cobiça entre os interesses de classe que sustentam os grupos nacionais e internacionais. Na busca de ampliar seu capital, utilizam-se  de meios ilícitos, como o suborno, o looby e a própria intimidação física, invadindo o patrimônio da União e/ou se escondendo em cargos públicos com o objetivo de resguardar seus interesses particulares.

Podemos arrolar uma imensidade de áreas que estão sendo invadidas e/ou comercializadas, como; a ilha do Mel no Estado do Paraná, a mata Atlântica em toda sua extensão, os parques nacionais, as reservas indígenas, a região de Alcântara no Estado do Maranhão e a localidade de Aquiraz no Ceará.

Esse processo de globalização do turismo, atende aos interesses do capital internacional que na falsa premissa de trazer emprego e desenvolvimento para as localidades, acaba ampliando a miséria e o desespero das populações nativas e regionais. Criam-se uma discriminação étnica que poderíamos chamar de um verdadeiro apartaid do turismo estimulado pelos grandes empreendimentos nacionais e estrangeiros que isolam a população nativa do convívio para com o turista.

Colônia, Monarquia e República: a continuidade do processo de dominação

Geopolítica da dominação

A noção de América Latina surge em decorrência do processo de colonização que ocorreu no mundo, quando os colonizadores europeus aqui chegaram para se diferenciarem dos habitantes do chamado novo continente denomina-os de latino americanos. Havia uma forte tendência em considerá-los possuidores de uma cultura inferior e marginal, compreendidos na luta do velho mundo para com o novo mundo. Os latinos americanos foram povos que sofreram sérias fraturas em sua cultura e organização política em decorrência da dominação espanhola, portuguesa, holandesa  e das tentativas de invasão francesa e inglesa.

Como explica o historiador Marc Ferro, quando afirma:

A colonização é associada à ocupação de uma terra estrangeira, à sua exploração agrícola, à instalação de colonos. Assim definido o termo colônia, o fenômeno data da época grega [2] .

Nesse sentido, todo processo de colonização se constituí em um movimento histórico de base imperialista onde o Estado europeu  acaba impondo novos padrões de sociabilidade aos nativos da terra, fragilizando e muitas vezes eliminando por completo as culturas autóctones por meio da violência física, simbólica e material.   O mencionado processo é baseado nos princípios de empresa captadora de riquezas, alimentada pela necessidade do Estado absolutista em obter o ouro, prata e pedras preciosas, com o objetivo de manter a aristocracia  e expandir o cristianismo no mundo.

O importante é entender que o fenômeno turístico vem se apresentando no interior da história da humanidade sob designações diferentes segundo o desenvolvimento das relações de produção. Portanto, se assim for compreendido, devemos percebé-lo presente no transcorrer do desenvolvimento da sociedade, pois, quando aparece  a palavra viagem agregada ao ócio, lazer e tempo livre significa que o turismo enquanto fenômeno já estava sendo  sinalizado.

Com essas referências é que devemos estudar o fenômeno turístico, como produto das relações de produção, pois só assim entenderemos sua riqueza teórica e sua fragilidade prática e a sua enorme aderência para entender a demanda de mercado. A história se  encarregou de demonstrar que o fenômeno do turismo  vem sendo gestado e moldado segundo os interesses dados pelas etapas do desenvolvimento da sociedade. Esse motivo nos faz entender o período da Colônia, da Monarquia e da República.

 



* O presente texto será publicado em partes. Continua no próximo número.
** Bacharel em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e Turismólogo pelo Centro Universitário ibero-americano. Mestre em Educação e pela PUC-SP e Professor e coordenador do curso de Turismo das Faculdades Nobel. Professor do curso de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Maringá. Professor  de turismo da Universidade Norte do Paraná - UNOPAR. Fundador da Associação Brasileira de Bacharéis de Turismo do Estado de São Paulo – ABBTUR-SP e do Instituto de Análises sobre o Desenvolvimento Econômico Social – IADES.
[1] Organización Mundial del Turismo. Agenda para Planificadores Locales: Turismo Sostenible y Gestión Municipal - Edición para América Latina y El Caribe. Madrid: OMT, 1999, prólogo.
[2] Ferro, Marc. História das colonizações: das conquistas às independências, séculos XIII a XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p.17.

JOÃO DOS SANTOS FILHO

     

 


http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2003 - Todos os direitos reservados