Por EVA PAULINO BUENO
Professora de Espanhol e English Communication na Mukogawa Women's University, em Nishinomiya, no Japao; autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM, 2000)

 

Gaijin, gaijin


Quando cheguei ao Japão, em 1999, trazia na bagagem vários filmes sobre o Brasil, e a certeza de que eles iam fazer o maior sucesso. Eu vim contratada para lecionar Espanhol em universidade de mais de 10.000 alunas.  Comigo eu já planejava que ia expandir os cursos de espanhol para ensinar Cultura e Civilização Latino Americana, e nestes eu usaria o material sobre o Brasil. Depois expandiria tudo isso, e poderia até, num futuro muito próximo ensinar literatura brasileira e cultura brasileira.

Como não? Afinal, pensava eu, o Brasil é o país onde há mais japoneses e descendentes de japoneses fora do Japão. Daí, eu achava que entre as minhas alunas o interesse pelo Português e pelo Brasil seria somente uma questão de tempo, mas um pouquinho de habilidade pedagógica, com a juda da nossa música e nossa cultura. Quem poderia resistir?

Também trazia na bagagem algumas noções sobre o Japão. Quem é que, crescendo em  Maringá nos idos de 1970 não acumulou noções semelhantes? Eu me criei com amigos “japoneses,” comendo doce de feijão na casa deles, indo nas festas de Bon-o-dori na Acema, escrevendo  meu nome em japonês (ensinado pelo avô de uma amiga), e até aprendendo uns nomes feios em japonês. Quem entre nós não escutou na rádio o tema do programa japonês que ia ao ar bem cedinho, e começava com “Sakura, Sakura. . . “  Entre as noções que vinham bem por cima da minha bagagem emocional sobre o Japão estava a de que, embora minha família não tenha nenhuma conexão direta com o Japão, eu estava de certa maneira vindo pra uma das minhas casas.

Quanto maior o pulo, maior o tombo: depois dos dois primeiros anos morando aqui, desisti de ensinar Espanhol, e arquivei os planos de ensinar Cultura e Civilização Latino Americana. Português? Este nunca tive a oportunidade de falar, muito menos ensinar. Mas pelo menos eu pude dar dois cursos sobre o carnaval no Brasil como convidada especial de uma escola de línguas em Osaka, e mostrei a uma turma de quarto ano da faculdade o filme Gaijin (que elas acharam muito esquisito, e me informaram que o nome da diretora do filme, Tizuka, está errado, e deveria ser Chizuka). Tudo meio que à revelia, forçando mesmo, porque não há interesse, no Japão, por países que não sejam os Estados Unidos (que eles chamam de “América”), e por outra língua que não seja o inglês.

Logicamente, esta é uma generalização. Por aqui tem muita gente que fala, lê, e estuda outras línguas e outras culturas além do inglês e a cultura dos Estados Unidos. Mas estes são a minoria. Absoluta. Para nós que somos, não só já “gaijin” por não sermos japoneses, mas duplamente “gaijin” porque não somos dos Estados Unidos, várias coisas podem ocorrer.

Uma delas, é uma confusão terrível, que pode ser engraçada, ou triste.  Ou trágica. Quando é engraçada, é porque os japoneses assumem que todos os não japoneses falam inglês como língua nativa. Daí que não é incomum por aqui algumas escolas particulares de língua contratarem gente loura de olhos azuis, digamos, da Grécia, para ensinar inglês, e anunciam que esta pessoa é “native speaker.” Claro, todos nós somos “falantes nativos,” mas não nescessariamente de inglês. A parte triste, é para os japoneses americanos que vêm trabalhar aqui, e não conseguem trabalho para ensinar inglês como “native speaker” porque, ora, porque a cara não ajuda. Em minha breve estadia neste país, encontrei vários exemplos dos dois casos.

Mas estas pessoas que podem lecionar, de uma maneira ou de outra, são as privilegiadas. Para outras, que não estão na área do ensino, a situação é muito mais complicada, especialmente  a situação de milhares de brasileiros da geração “dekassegui”, sejam eles nissei, ou sansei. Não importa o nível de escolaridade que eles têm no Brasil, quando chegam aqui eles sofrem dupla discriminação. É aqui que começa a tragédia. E ela nos afeta a nós, brasileiros, muito de perto.

O Japão, convém a gente não esquecer, é o país que se isolou do mundo, e não admitiu que estrangeiros entrassem no país (exceto em uma pequena ilha perto de Nagasaki), de 1603 a 1867, durante o período Tokugawa. Quem tentasse entrar, era morto sumariamente. Da mesma forma, se algum japonês se atrevesse a sair, se voltasse seria executado. Ninguém saía. Ninguém entrava. A palavra “gaijin” é nome feio no Japão, e significa aquele que é de fora. Quem está for a é impuro, suspeitoso.

Depois que o país “foi aberto” em 1868 (outra história, que fica pra outra vez), o Japão descobriu que, de repente, não era tão má idéia ter um outro lugar para onde mandar o excesso de população. O resto a gente sabe muito bem: milhares de japoneses foram para o Brasil, e para o Peru especialmente. Estes pioneiros chegaram à América em condições de grande penúria. Lutaram, criaram suas famílias, prosperaram, e são parte da nossa história e da nossa sociedade e da nossa cultura.  Mas o Brasil, como todos sabemos, tem uma economia instável, e, numa das baixas mais baixas da nossa economia apareceu a chance dos descendentes de japoneses voltarem, porque o Japão, agora rico, queria contratar mão de obra barata. Detalhe: o país, ainda com sua ideologia da “pureza” da “raça japonesa” só aceitava descendentes comprovados dos japoneses que foram a estes países.

Então, como também sabemos muito bem, estes brasileiros vieram ao Japão e descobriram, entre outras coisas, que eles não tinham língua, não tinham cultura, e não eram japoneses. Eram gaijins como todos os demais. Pior; eram duplamente gaijins, porque têm feições japonesas (ou, como eu prefiro, asiáticas), mas são culturalmente brasileiros. A desconfiança contra eles é dupla. Aqui no Japão, estes são o “outro que está dentro.”  De profissionais liberais no Brasil, aqui muitos deles se transformam em operários, e têm que assumir as posições mais baixas, mais perigosas, os horários mais inconvenientes. E, o que mais dói, tudo aquilo que nos torna seres humanos especiais, que determina como reagimos no mundo, a nossa cultura, esta é completamente ignorada. Ou, quando os japoneses não podem escapar de ver, eles fazem cara de nojo—tal como testemunhei em uma festa junina num clube em Kobe, onde os brasileiros japoneses dançavam e cantavam, e os japoneses olhavam horrorizados. A linguagem corporal do brasileiro, seja ele de qualquer origem étnica, é especial, e diametralmente oposta à linguagem corporal do japonês. Daí o horror estampado em cada cara japonesa.

Haja coração. E estômago. E um sistema psicológico muito forte. Tem os que vêm do Brasil, se adaptam—brava gente brasileira!—e até prosperam, formando pequenas comunidades onde procuram manter a chama do Brasil.  Mas tem os que sucumbem, como o caso do brasileiro Paulo Mistuo Takahashi que morreu de fome, literalmente, depois de várias tentativas de se adaptar aqui no Japão.

Mas os que mais sofrem são os muito jovens, que chegam aqui e não podem freqüentar a escola pública japonesa, porque os colegas (e os professores, em alguns casos) se juntam pra bater nesses brasileiros japoneses porque eles são diferentes. Aqui, como eu já escrevi em outro artigo, aquele que se destaca é martelado até desaparecer, ficar da mesma altura que os outros.

Os pais destes jovens brasileiros, muitas vezes trabalhando até 14 horas por dia em fábricas insalubres, levando bronca o tempo todo—ninguém nunca sabe o que é uma bronca se não ouviu um japonês distribuindo este artigo a um estrangeiro—voltando para apartamentos que são verdadeiras caixas de fósforo com armários, nem sempre têm paciência pra lidar com os problemas dos filhos. Resultado: o número de delinqüentes juvenis brasileiros está aumentando assustadoramente no Japão.

E de quem é a culpa de tudo isso? Não só uma pessoa, não só uma instituição, claro. Mas podemos dizer que, acima de tudo, a culpa por esta alienação e pelo sofrimento de tantos brasileiros que retornaram ao Japão é da ideologia japonesa que, de certa forma aiinda continua isolacionista, desconfiada de tudo que não é exatamente o mesmo que todo o resto. Segundo, a culpa é das empreiteiras que contratam do Brasil e do Peru estas pessoas que vêm quase como gado, sem saber nem onde vão morar, nem o que vão fazer, nem o quanto vão ter que trabalhar. A engambelação se completa com os números diante  do salário por cada hora trabalhada. Muita gente no Brasil faz os cálculos e acha que ganhar o equivalente de 10  a 15 dólares por hora é bom negócio ( para mulheres--logicamente!—o salário e de 8 dólares, embora elas trabalhem tanto como os homens, nas mesmas condições de insalubridade e perigo). Quando chegam aqui, descobrem que estão devendo milhares de dólares à empreiteira (algumas cobram até 100% mais do que pagaram pelas passagens), que as condições de moradia são piores que as de uma favela brasileira, que não tem escola, nem creche para os filhos. E, bem rapidinho, descobrem que o salário que do Brasil para eles parecia uma fortuna, aqui é uma miséria: os preços de TUDO—comida, roupa, moradia, trem--no Japão é incrivelmente alto. Atualmente, é impossível para um operário brasileiro (diferente de um japonês, que ganha pelo menos o dobro por hora, e tem regalias trabalhistas e sociais que o brasileiro não poderá jamais atingir) fazer economia.

Quando os brasileiros e peruanos começaram a retornar ao Japão, não havia a menor infra estrutura para suas famílias. As crianças tinham que ficar em casa, sozinhas, sem escola, sem atendimento. O aumento da criminalidade no Japão por parte dos filhos de brasileiros dekasseguis é o retorno do reprimido. A sociedade japonesa está pagando—e vai ter que pagar ainda mais—pela maneira insensível e cruel com que recebeu a estes retornantes. Acho que o governo do Japão olhou para outro lado enquanto as companhias exploraram não só os trabalhadores, mas também os seus filhos, crianças que sofreram –e estão sofrendo ainda—um nível de discriminação que seus antepassados, quando chegaram ao Brasil, jamais imaginariam. Agora, todos têm que pagar. Nestes últimos dias, passando pela estação de trens de Umeda, em Osaka, tenho notado que o número de homens sem casa que dormem no cimento está aumentando. Muitas vezes, passando por eles, me pergunto se são brasileiros à deriva, vivendo da caridade pública, com medo de voltar ao Brasil, onde seriam vistos como fracassados. Ficam por aqui, rolando de déu em déu, até que sua nave chegue a algum porto, ou afunde de vez.

 

Esta coluna, não posso terminar numa nota positiva. A notícia de como o corpo de Paulo Mitsuo Takahashi foi encontrado, em posição fetal, em um apartamento abandonado em Toyohashi, é muito chocante. Antes de morrer, ele havia começado a escrever uma carta—não se sabe dirigida a quem—em que ele escreveu, em português, “Nada de bom aconteceu pra mim no Japão.” A história de Paulo, divulgada na imprensa japonesa (em inglês) em quatro artigos, é como uma parábola, que serve para avisar aos demais que não venham. O passado ainda vive, a mensagem é clara: vocês que saíram, fiquem fora.

 

EVA PAULINO BUENO

     

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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