Por

ANTONIO MENDES DA SILVA FILHO
Doutor em Ciência da Computação. Docente do DIN/UEM

 

Cepticismo Presente, Ética Ausente

 

O que é cepticismo? O Dicionário Aurélio define cepticismo como a “atitude ou doutrina segundo a qual o homem não pode chegar a qualquer conhecimento indubitável, quer nos domínios das verdades de ordem geral, quer no de algum determinado domínio do conhecimento”. Será que temos vivido num estado de incredulidade? Crise e cepticismo têm sido palavras quase onipresentes ultimamente. Por acaso têm eles apagado a fé das pessoas e investidores? Qual pode ser o resultado de tal crise de (ou) cepticismo?

A atual crise vivida no Brasil é um reflexo da política econômica conduzida pelo atual governo seguida de uma crise de valores morais e princípios de conduta observados durante o exercício da profissão, sejam dentro do âmbito empresarial ou político. Em outras palavras, a ética tem sido um componente ausente nesse processo e isso surge como um indicativo para justificar o ceptcismo atual. Esse momento não é apenas peculiar ao Brasil. Os Estados Unidos também passam por um momento crítico. Os escândalos corporativos e recentes quedas das Bolsas resultaram em forte mobilização em Washington para legislar contra alguns dos abusos empresariais mais notórios. Isto parece indicar que a postura do EUA em relação aos negócios está mudando. Mas a economia na terra do Tio Sam não anda bem das pernas. Segundo relato do Editorial do Financial Times de 10 de agosto, com as revisões de números da economia americana, constatou-se que ela cresceu a uma taxa anual de aproximadamente 3% na primeira metade deste ano, e não os esperados 4%. Além disso, o crescimento de produtividade de 2001 ficou pouco acima da marca de 1%. contra a marca melhor, ainda que modesta de 2,9% em 2000. Mas, onde entra tecnologia nisso tudo?

Passada a onda da empresas .com (empresas da Internet) que foram a febre no final da década de 90 e, em parte, responsável pela ‘bolha’ do mesmo período e apesar dos esforços empreendido nos EUA e outros países objetivando recuperar as economias, os gastos com tecnologias e-business tem estado em declínio de 2001 a 2002 de acordo com um estudo da Forrester Research (www.forrester.com).

Na pesquisa realizada pela Forrester, foram consultados quase 900 executivos de tecnologia da informação e negócios, responsáveis por tomarem decisões estratégicas num universo de 3500 grandes empresas de atuação global. A média de orçamento para o setor de tecnologia nessas companhias tem expectativa de ser reduzido em quase 30% de 2001 para este ano. Interessante observar que ao mesmo tempo em que gastos com tecnologia tem caído, a vendas resultantes de compras via Internet tem crescido e totalizaram 5.7% do total da vendas das companhias consultadas. Há uma previsão que este percentual chegue a 7.3% este ano. E mais, estudos indicam que em cinco anos, este as vendas online representaram 20% do total dessas companhias. Um outro diagnóstico desse estudo diz que muitas companhias estão avessas aos riscos de adquirir novas tecnologias esse ano. Em função da crise de credibilidade pela qual a economia americana passa atualmente, o estudo constatou que as unidades de negócios terão mais influência sobre o rumo e estratégias de tecnologias tomados este ano comparativamente aos anteriores.

Esse solavanco na economia mundial e forte queda nos EUA foi minado em grande parte pela expectativa criada com as empresas de Internet. Agora, com os pés mais no chão, observa-se que não só isso é causa do atual abalo nas economias, mas também a falta de confiança nos executivos e auditores das grandes empresas. A ética, antes considerada intrínseca a esses profissionais, agora desperta o cepticismo das pessoas e, principalmente, dos investidores. A crise de credibilidade atual também tem outro ingrediente, o político. Estará o dinheiro está comprando a política ou o contrário? Kevin Phillips, em artigo intitulado “No ciclo de escândalos financeiros, chegou a hora da moralização” pro The New York Times, 18 de julho de 2002, relata:

Durante a Era de Ouro, os barões das estradas de ferro compraram legislaturas e líderes empresariais pagaram para ter cadeiras no Senado americano. Nos últimos anos do século 19, um senador propôs ingenuamente um projeto de lei para afastar os parlamentares cujas cadeiras foram compradas. Isto provocou a resposta séria de um colega: "Nós poderemos perder quórum enquanto aguardamos a ação dos tribunais" ... Os legisladores que votam as regulações empresariais e financeiras não podem esquecer o 1% dos americanos mais ricos, que realizam 40% das contribuições individuais de campanha federal... O dinheiro está comprando a política... Os anos 1980 e 90 imitaram a Era de Ouro nos excessos intelectuais da adoração ao mercado, laissez-faire e darwinismo social.”

E o Brasil com tudo isso? Como costuma-se dizer, quando os EUA espirra, pode-se esperar que o Brasil terá gripe. Se a economia lá vai mal, a nossa também irá pois os EUA é importante parceiro comercial. Resta torcer para que a nova legislação americana permita reaver a credibilidade lá abalada e nosso futuro presidente e congressistas façam as devidas correções, atuando com brasileirismo.

ANTONIO MENDES DA SILVA FILHO

     

 


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