Por RUDÁ RICCI
Sociólogo, Doutor, Professor da PUC-Minas e Diretor da CPP (Consultoria em Políticas Públicas). Web Site: www.cpp.inf.br

 

O Rosto de uma Nação

 

Na primeira reunião do parlamento italiano, Massimo d’Azeglio sobe à tribuna e proclama: “fizemos a Itália, agora temos de fazer os italianos”. A frase, corajosa, resume o que é concretamente uma nação. Uma nação é uma construção política e cultural. Alguns procuraram associar esta idéia à de etnia, língua, demarcação territorial. Renan, em 1882, chegou a formular que “uma nação é um plebiscito diário”.

O Brasil construiu-se como nação a duras penas. José Murilo de Carvalho, em seu livro “A Formação das Almas” revela a disputa de bastidor entre florianistas e deodoristas na tentativa de construção do perfil do herói brasileiro. Florianistas apostavam na figura republicana de Tiradentes. Daí porque a imagem pintada e esculpida de Tiradentes associar-se claramente à figura de Cristo: cabelos compridos, a bata branca, o olhar distante, o esquartejamento do mártir. As boas intenções dos florianistas não contemplavam a idéia que um país se constrói por atos concretos e não por imagens.

O Estado e os governos federais se sucederam na tentativa de construção da afirmação da Nação, do nacionalismo getulista ao triste lema de amar ou deixar o país, passando pela defesa e crença no Plano Real como defesa e crença no país. Por este motivo, os símbolos nacionais sempre caíram na alma brasileira como símbolo de ordem e respeito ao governo. Sempre soube que há algo mais profundo que memorizar o hino nacional. Era emblemático assistir jogadores como Edmundo cantarem o hino nacional para, poucos minutos depois, distribuir canelas e palavrões pelo campo, envolvendo até mesmo seus companheiros de time. O hino para Edmundo nunca passou de uma obrigação formal, preâmbulo para o seu repertório de atos violentos.

Mas se o Brasil nunca conseguiu se construir a partir dessas imagens oficiais, também não se fez pelas mazelas. O Brasil não se identifica com o índice de analfabetismo, a fragilidade da moeda nacional, a inflação a espreitar nossa economia, as taxas de desemprego e de juros às alturas, o convívio com a corrupção.

Então, o que faz do Brasil uma Nação? Talvez, seria a imagem que Drummond criou com “Canto Brasileiro”: “Meu país, esta parte de mim fora de mim/ constantemente a procurar-me/Por que Brasil e não outro qualquer nome de aventura?/ Brasil fiquei sendo serei sendo/nas escritas do sangue”.

Esta parte de mim fora de mim, enfim, apareceu nas ruas de todo o país, festejando a vitória da Seleção Brasileira de Futebol como se fosse uma vitória pessoal de cada brasileiro. Talvez tenha sido, realmente. Porque a vitória do Brasil – assim como a vitória pessoal de Ronaldinho – é sempre assim, cheia de dificuldades, resvalando na descrença e na solidão, caminhando pela persistência, na conquista diária de cada vitória até atingir a explosão. A folia nas ruas brasileiras sempre nasce ou convive com uma tragédia particular. Por que seria assim?

De fato, a vitória da Seleção Brasileira é uma vitória pessoal, na difícil construção do rosto de nossa nação. O que os nossos governantes não percebem é que é exatamente assim que se constrói o país: não nos seus discursos, não nos seus atos desesperados de parecerem únicos, não no eterno reinício a cada eleito novo, não na transformação das eleições em disputa entre torcidas perplexas. O Brasil se constrói como uma vitória pessoal de cada um dos brasileiros.

 

RUDÁ RICCI

     

 

 


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