Por RAYMUNDO DE LIMA
Psicanalista, Professor do Departamento de Fundamentos da Educação (UEM) e doutorando na Faculdade de Educação (USP)

 

Que fazer com a universidade pathos-lógica*

 

Onde a luz [da razão] bate mais forte, a sombra é mais escura.[Provérbio  alemão]

Nietzsche, o filósofo academicamente incorreto certo vez reconheceu que os "espíritos livres e insolentes" caminham na contramão das escolas e universidades, apolíneas. A psicologia e a psiquiatria de hoje classificaria-os de "inadaptados" por rejeitarem tais instituições tidas como a mais racional, científica e "perfeita" dos espaços humanos.

Quem seriam os inadaptados da universidade? O filósofo alemão reconhece que aqueles seguem uma linha de conduta dionisíaca (tendentes ao prazer, ao humor) tendem a não serem bem vistos nesse ambiente apolíneo ou racional, sisudo e hipócrita. Nas escolas e universidades, a ética é reduzida a moral, visto que nelas vigoram os regulamentos, as normas e regras disciplinares, visando à repetição de hábitos e a domesticação de corpos e de mentes. O que se consegue em Ordem, disciplina, e no cânon das linhas de pesquisa e ensino, perde-se em autonomia, ousadia e criatividade. Nietzsche achava que o Estado é o "patrão de todos os egoísmos inteligentes", pois se utiliza a cultura para se promover. O cientista [apolíneo] acredita estar desse modo, fazendo algo para a cultura, quando, na verdade, está a serviço de suas próprias necessidades".

Enquanto o pensador se entrega as paixões de idéias livres de amarras, o cientista – o professor universitário que virou um pesquisador – com sua frieza e pobreza de sentimentos, trabalha visando o maior número de artigos serem publicados em revistas importantes. Se o pensador sabe o que fazer com o ócio, o pesquisador apolíneo ignora-o. Reconheçamos: a universidade contemporânea é de resultados. (a Seleção do Felipão também. Morreu a arte em nome dos resultados cada vez mais mundializados). O crescimento das universidades, a massificação do ensino, a competição acadêmica, o carreirismo, vem fazendo dessa instituição um lugar de obscurantismo, já se queixava José Américo Motta Pessanha.

No nosso cotidiano de professor e de aluno não há mais encontros para uma boa conversa, troca de idéias, porque todos estão isolados fazendo suas pesquisas e acovardados em parir palavras não sustentadas por algum autor. A universidade senão mata boicota a subjetividade. Há sempre o medo de ser queimado na fogueira da inquisição acadêmica. "Todos ferem com a língua, e com ela são feridos" (R. Romano (FSP, 13/10/96)).

Os inadaptados da acadêmica, senão enlouquecem, empreendem outros caminhos menos burocráticos e menos disciplinares. A burla é uma solução inteligente. Exemplos de ousadia inteligente vão desde a de Colombo diante da rejeição da Universidade de Salamanca, ao contemporâneo, Peter Dunsberg, com sua hipótese de que o vírus HIV não causa AIDS. Também o caso da psicóloga Judith Harris, que ao ser excluída pelo doutorismo da Universidade de Harvard, sentindo-se fora da “angústia de influência”, pode construir uma boa teoria, hoje discutida inclusive na mesma Harvard, que, terminou por reconvidá-la ao seu quadro de pesquisadores [1] .

Atualmente jovens inteligentes, insolentes, mas ousados estão abandonando as universidades por uma oferta de trabalho altamente lucrativo e mais criativo, no ramo da informática. Mas, ao contrário do idealismo dos anos 70, é lamentável que esses jovens estejam mais preocupados em melhorar seu currículo e curtir adoidado a vida (individualismo) do que se sustentar de utopia de transformação da sociedade.

A fuga de cérebros, principalmente das universidades públicas, acontece apenas pelos baixos salários percebidos? Não teriam peso nessa decisão, as precárias condições físicas de trabalho, a falta de perspectiva, o desprestígio da profissão? (A atual greve na FFLCH, da Universidade de São Paulo, não é por reajuste salarial, mas pelo descaso da universidade de contratar mais 259 professores para os cursos. As Ciências Humanas sofrem desprestígio até mesmo no meio universitário, denegando que sua inauguração começou com estas. "Uma universidade sem ciências humanas não é universidade", declara o Prof. Ache Ab'Saber (Jornal da USP, 14-30 jun/02, p. 3)). Não seriam fortes motivos que contribuem para o abandono da universidade, coisas como o clima "extremamente bruto", de "espionagem" e "perseguição de colegas" (sic!). Há casos de professores inteligentíssimos que "imputam loucura ao outro visando enlouquecê-lo de fato" (sic!), denunciou o professor de filosofia Ruy Fausto, o qual não suportando o mesquinho ambiente universitário brasileiro foi viver em Paris. (FSP-Mais! 6/10/00).

Sintomas que ninguém quer reconhecer

Na lista dos sintomas da pathos-logia da universitária, estão: a burocracia, o mal-estar do ambiente docente [2] , a falta de polidez entre colegas, o "ódio fraterno", a intolerância e arrogância dos doutores principalmente para com os alunos, o assédio moral [3] , o discurso fundamentalista de alguns, o "pesquisismo" [4] , a excessiva fragmentação ou disciplinarização dos saberes, etc, sinais que concorrem para a formação de um quadro grave de "esquizofrenização" (sic!) do ambiente universitário, alerta Japiassu. Ademais, observa-se que a crise da universidade tem ligação com a crise da razão teórica e instrumental do ocidente [5] .

A universidade, em vez de cumprir seu destino etimológico e ético, isto é, ser "universo dos saberes", vem sofrendo um processo de “esquizofrenização dos saberes”:

"A especialização sem limites culminou numa fragmentação crescente do horizonte epistemológico. Chegamos a um ponto que o especialista se reduz àquele que à custa de saber cada vez mais sobre cada vez menos, termina por saber tudo sobre nada (...). O saber em migalhas revela uma inteligência esfacelada (...) O especialista ocupou, como proprietário privado, seu minifúndio de saber, onde passa a exercer, ciumenta e autoritariamente, seu mini-poder" [6] .

 

Para Japiassu a paixão (pathos) nas universidades deveria ser usada positivamente para impulsionar e desenvolver o discurso, a razão, o conhecimento (logos), mas infelizmente está sendo direcionada para os interesses mesquinhos - não somente no sentido de estudar objetos vazios de valor de pesquisa ou irrelevantes, a pretexto de estar fazendo ciência objetiva - , como também no sentido de pressionar aqueles professores não vocacionados para pesquisa a fazerem uma "pesquisa decorativa". Nesse caso, o ganho secundário é narcísico do Eu (Ego) ou da própria instituição que se autoengana ser o caminho da quantidade melhor do que o da qualidade da pesquisa. Há que se fazer mais pesquisa, mas pesquisa de qualidade. “O professor que não pesquisa deveria se aposentar” (Japiassu, PUC-SP/ 2002); ninguém nega ser essa a vocação das boas universidades, mas hipervalorizar a pesquisa e desprezar o ensino e a extensão, é mais um sinal de patologização da estrutura acadêmica. Hoje, no Brasil, infelizmente, ser bom professor pouco vale diante de uma pesquisa mesmo medíocre [7] . Há ainda o problema que ninguém quer discutir: “os professores que se sobrecarregam de aulas para que alguns pesquisadores pesquisem” (Coelho, E., 1988).

O sintoma “ pesquisite"

Muitos professores trabalham com o manual de pontuações imposto pelos departamentos das ciências “nobres”. Estabeleceu-se um "culto do rendimento" da produção acadêmica que traz efeitos neurotizantes e perversos entre os docentes e alunos. Enquanto que as ciências “nobres”, se submetem aos ditames dos mercados, fazendo pesquisa “útil” de encomenda, as humanidades resistem como podem, fazendo seu ensino, pesquisa e extensão de maneira crítica e reflexiva. Alguns pesquisadores se tornaram "indiferentes", “acríticos” e “apolíticos”, quanto a tarefa de pensar as mudanças de nossa época. Fazem concessões aos tecnoburocratas da pesquisa, acomodando-se aos seus esquemas metodológicos e de procedimentos, submetendo-se aos rituais da academia pragmatista onde ou ”publica ou morre" (publish or perish),seguindo o conhecido  modelo de trabalho das universidades norte-americanas.

A “onda pesquisite" [8] [sic!] tem se sustentado principalmente através de "bolsas calaboca"[sic!], estas mais presentes nas universidades públicas, (também porque nas particulares praticamente não investe em pesquisa). O panóptico da universidade pública “vigia e pune” os que não fazem pesquisa. O discurso não-verbal é: "pesquise ou caia fora da universidade pública". Os não vocacionados, terminam fazendo de conta que pesquisam. Todos ficam ansiosos em inserir nas suas falas em que pé está sua pesquisa. Os alunos queixam de que não agüentam mais ouvir o (a) professor (a) tal falar sobre sua pesquisa, por vezes pervertendo o programa de ensino. Mas que fazer se é seu mais-gozar! Que fazer quando tal fala vem made in não-sabido (inconsciente)?

Ora, ora, os alunos? Os alunos são vistos como trambolhos que atrapalham os cientistas (não mais docentes...) na busca de excelência" (Alves, 1999). Pereira (2000) revelou existir em algumas universidades uma verdadeira resistência a dar aulas e "fazer ciência em paz". "A universidade seria ótima se não tivesse alunos", declara ter escutado.

A patologia no ato de ensinar

Segundo Japiassu, nas universidades ainda "ensina-se um saber bastante alienado e em processo de cancerização galopante (...). Ensina-se um saber fragmentado que constitui um fator de cegueira intelectual, que decreta a morte da vida e que revela a razão irracional" (1999, p. 130). Ensina-se "um saber mofado, armazenado nessas penitenciárias centrais da cultura, que são as universidades, além de ser indigesto e nocivo à saúde espiritual, passa a ser propriedade de pequenos ou grandes mandarinos dominados pelo espírito de concorrência, de carreirismo e de propriedade epistemológica" (1999, p. 130).

Os arraigados pré-conceitos neopositivistas que dominam alguns cursos na universidade, levam-na ao ostracismo e ao obscurantismo na seleção de temas de investigação e o afastamento em dialogar com a sociedade. Há ainda o problema da dissociação dos saberes, que começa no projeto, passa pela investigação teórica e resulta no ensino também fragmentado. O positivismo lógico impõe ao pesquisador "um saber sem desejo" [9] , onde o pesquisador pretende-se "neutro" e puramente "objetivo", os alunos terminam esvaziando o seu desejo e sua paixão, tão presentes assim que entram na universidade.

Os professores, que são os agentes da transmissão "esquizofrênica" [sic!] dos conhecimentos estanques, estão muito mais preocupados em manter seus reservatórios de conhecimento ou "sítios de saber" [sic!], do que procederem à sua socialização. O ensino universitário acontece como se fosse uma "ração intelectual a alunos que não tem fome"(Japiassu,1999, p. 130).; o professor ainda sustentado numa atitude canônica, de "catequista intelectual" consegue no máximo gratificar os alunos com "diploma de primeira comunhão científica"[1979, p.12].

O projeto inter e transdisciplinar, que desperta desde resistências a mal entendidos no meio universitário, “pretende-se superar o monólogo fastidioso do ensino e instaurar uma prática dialógica onde o metiê de ensinar se converta na arte de fazer descobrir, de fazer compreender, de possibilitar a invenção. Porque o mestre que não consegue ser aluno, deve ser aposentado. Seu papel é o de despertar, provocar, questionar e questionar-se, vivenciar as dificuldades dos educandos que pretendem esclarecer ou libertar através do estudo de uma ciência em mutação, e não do ensino de uma doutrina dogmática" (p. 16). [grifo nosso].

A ambiência universitária é patológica?

Enganam-se os ingênuos que imaginam que na universidade é um lugar democrático e de harmonia de idéias entre os que nela trabalham. Como qualquer instituição, a universidade é reflexo da sociedade de cada época e da cultura a que está inserida. Surgido no séc. XIII, a universidade teria herdado dessa época, o peso institucional medievalista sobre os sujeitos (a subjetividade); a profissão docente trouxe o estigma de ser sacerdócio, um sacrifício moral em nome de uma coisa maior.

Em nossa época, se substitui a influência da religião cristã (Deus), pelo cientificismo (crença na razão científica). Muitos professores se posicionam diante de seus alunos como que “fora da ciência não há salvação” [sic!] (Japiassu). Há marxistas dogmáticos que fazem o mesmo: fora da teoria marxista não há salvação para uma humanidade igualitária e feliz. Há psicanalistas dogmáticos que agem também assim, o que seria o avesso da psicanálise. Mas, a universidade, em vez de ser um ambiente de produção intelectual prazeirosa, corre o risco de se tornar um ambiente de mal-estar gozozo, cujos sinais estão nos queixumes repetidos dos professores, somatizações etc.

A universidade de hoje, a semelhança da igreja e do exército, não é lugar para expor afetos ou sentimentos. (Certa vez, numa reunião entre professores, quando eu comecei a frase "eu sinto", fui interrompido por um colega canônico para me sinalizar que ali não era lugar para "sentir", mas somente para "pensar", “raciocinar”. Eis a forte presença na universidade do neopositivismo e militarismo). Infelizmente, a universidade não é o melhor lugar para se fazer amizades autênticas, (no sentido de F. Alberoni) mas tão somente colegas.

Os grupos numa universidade são movidos pelo "espírito de rebanho" (Nietzsche), agem como se pertencessem a seitas e igrejas; seus discursos se sustentam mais em crenças, dogmas, ideologias que no discernimento da razão. Freud denominou de narcisismo das pequenas diferenças a hostilidade dirigida para aquele que é minimamente diferente, no mesmo grupo, que em relação ao grupo que possui diferenças óbvias. Ou seja, há mais ódio e inveja, mortais, para com aquele que ousa manter-se com idéias e modo de ser diferente no mesmo departamento do que para com os diferentes distantes

O espírito universitário que é veemente crítico em relação as grandes questões, ainda não sabe reconhecer e discutir as pequenas diferenças humanas. A subjetividade na universidade ainda não existe. Alguém que toma a palavra é sempre interpretado como um não-sujeito, mas um assujeitado de interesse de grupo, um representante de algo maior que ele. Nela, o sujeito -que fala em seu nome- não é reconhecido como capaz de ex-sitir na sua autonomia.

Não se trata de discutir "o particular", mas de reconhecer que nesse espaço como em qualquer instituição, há sujeitos [10] com seus desejos e paixões, sentimentos, que também tem interesses, conflitos endopsíquicos e extrasujeitos, enfim, essa "dimensão humana, demasiadamente humana" [11] . 

J. M. Esteves (1999) [12] , chama de "mal-estar docente" o estado de espírito em que vivem os professores e pesquisadores no ambiente universitário, que seguindo os ventos do neoliberalismo se vêem submetidos a uma lógica de competição incômoda e narcísica na produção, como já falamos. Quem não sentiu mal-estar e constrangimento em ter que apresentar memoriais, relatórios, prestando contar do que fez na sua função para merecer ascensão de carreira?

Pessoas tão corajosas em fazer oposição acirrada às politicagens do governo, se acovardam ter que enfrentar discutir os próprios vícios corporativistas, os esquemas de “compadrio” e outros vícios da instituição (Ler artigo de PRAXEDES, W). Vence na academia quem sabe conchavar e faz vistas grossas a tais "delinqüências acadêmicas" (Tragtenberg, M.). Boa parte do prestígio de que gozam as ditaduras, deve-se ao fato da manutenção do silêncio e do segredo, escreve E. Canetti. A universidade se sustenta de segredo e de silêncio, quer nas decisões de bancas, de seleção e até no simples atendimento de pedido de transferência de um funcionário insatisfeito de trabalhar no seu setor. Uma vez sendo transferido será um eterno devedor de quem provou ter tal poder.

Tanto a política neoliberal dos governos vem ajudando a matar a universidade pública, como ainda esta é reforçada pela pathos-logia de grupos de direita e de esquerda, que camuflam suas estruturas de alienação. Sem generalização, pois sabemos que o cotidiano dessas instituições é sustentado por sujeitos do mais alto nível intelectual, dedicados à justa causa da universidade pública e gratuita e do avanço do conhecimento. Só pode ser pathos-logia quanto pessoa ou grupo perdem a ternura nas lutas políticas, tratando mal os colegas por ter posição diferente da sua ou queimando-o na inquisição dos atos sofisticados aprendidos na academia.

O ponto-cego do discurso político acadêmico: a doença/saúde mental.

(Aos candidatos à reitoria: administrar ou sócio-analisar?)

A atividade política na universidade é conservadora, repetitiva e gratifica mais seus militantes do que a comunidade. Falta-lhe escutar o logos e o pathos da comunidade, faltam idéias e atitudes ousadas de administração e abertura aos novos paradigmas. “Os professores sabem muito de moral, mas serão éticos”, pergunta Imbert (2001).

Empresas particulares e estatais (Petrobrás, Copel, Banco do Brasil, Shell etc) vem promovendo programas de treinamento pessoal, por que as universidades públicas não desenvolvem com seus especialistas modelos próprios (não ideológicos) de melhoria das relações humanas? Os mesmos especialistas que tão bem fazem sucesso implantando programas sofisticados no campo pessoal para as empresas, porque não o fazem junto a própria universidade pública? Propostas ousadas e participativas da comunidade, não poderiam quebrar a resistência de setores "duros" da universidade, no sentido de diminuir o estresse e o mal-estar do ambiente? Ou a universidade pública tem que se acomodar ao destino de quanto pior melhor?

Sinalizo que o posicionamento acima, nada tem a ver com o espírito privatista que vem se impondo na universidade pública. Muito pelo contrário. Esse privatismo selvagem que desconhece para que servem as humanidades (ler o artigo da Profa. L. Perrone-Moisés,  30/06/2002) é falsamente inovador. Também nada tem a ver com a imposição do Governo Lerner, que impôs aos professores da rede de ensino freqüentar a Universidade do Professor, em Faxinal do Céu.

Candidatos a reitoria fazem discursos bonitos, academicamente corretos  ("direitos"!!), mas a experiência comprova que na prática não seguem suas idéias. Alguns jamais aprenderam a pensar a universidade como um todo, presos que estão ao umbigo de seus departamentos e cursos. Estes cuidam apenas de manter o seu "minifúndio de saber" (Japiassu). Em vez de buscar uma melhor integração dos departamentos -e a prática de uma real interdisciplinaridade que, pela afinidade de seus objetos de estudo, seria proveitosa a todos-, optou pela atomização de sua própria área de conhecimento, declarou a Profa. Leyla.

b) O autor que escreve esse artigo nunca viu um candidato a reitoria demonstrar preocupação e contar em seu programa administrativo no sentido de diminuir o "ódio fraterno"[sic!] e promover a boa convivência humana. A saúde mental nos campi é assunto muito importante para ser esquecido nas campanhas para a reitoria e chefias de departamentos. Na Universidade de São Paulo, uma administração elaborou um projeto de trabalho preventivo e terapêutico junto à comunidade discente, que segundo pesquisa, mais de 20% era dependente de drogas. Em algumas universidades, apesar da desconfiança e resistências de alguns, já se convidam os professores e funcionários para que façam regulamente exames médicos e psicológicos preventivos. Há que fazer alguma coisa quando sabemos ser freqüente: o burnout [13] , depressão, pânico, psicossomatoses e até suicídios, que terminam afetando os demais colegas. A democracia pressupõe mais do que o respeito ao outro e suas diferenças, promover a sua saúde integral de todos.

c) O problema de a LER/ DORT entre professores, alunos e funcionários. As universidades em geral tendem a ter carteiras inadequadas para os alunos estudarem, que muitas vezes desenvolvem sérios problemas de coluna durante o ano letivo. O mesmo se pode dizer com relação aos instrumentos de trabalho do professor: quadro negro inadequado ou inexistente, giz que causa alergia, mesa pequena – quando existe - para depositar seus livros e anotações e cadeira inadequada. A mesa e cadeira do professor atestam o quanto o lugar desse profissional, para além do físico, perdeu o status de dignidade na sala de aula. E um sinal do declínio do lugar de Mestre, segundo Lacan. Muitas instituições deixam a cargo do professor competir com seus alunos para conseguir uma mesinha "deles" e uma cadeira para sentar. Às vezes, sobram-lhes apenas as quebradas. E a luz, a falta de ventilador, de aparelhos como vídeo e tv? Os de mentalidade franciscana dizem que pedir essas coisas é luxo!

d) Como já sinalizamos, o discurso universitário contemporâneo vem privilegiando em primeiríssimo lugar, a pesquisa, depois o ensino e no lugar de patinho feio vem à extensão. Ora, é a extensão quem vai demonstrar à sociedade o valor social da universidade! Se for verdade que a universidade deve estar inserida na comunidade ou sociedade, os atos de extensão é que irão dar provas disso. A comunidade "local" quer saber  – é seu direito - afinal, para que serve a universidade? Alguém de dentro, se apressaria argumentar que a universidade não deve estar preocupada com os problemas da comunidade, que o seu saber é para o mundo ou o "universo". Tudo bem, mas há um contra-argumento: o local pertence ao universal, e, uma universidade tem um papel social a cumprir, para além do ensino e da pesquisa. Portanto, não se pode renegar a extensão a um lugar marginal ou inexistente, fato lamentável que algumas administrações tem feito. A comunidade e a universidade devem ser parceiras na letra e no espírito.

Oxalá os sinais de mudança que ora aparecem nos paradigmas de conhecimento, possam se refletir também nas atitudes e propostas dos candidatos ao poder máximo das universidades. Aqueles que se oferecem como antenas e visão desse nosso tempo, farão um novo capítulo na história da universidade. Estamos torcendo.

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* Parte de artigo foi elaborado originalmente para orientar a apresentação do Seminário sobre o tema "A crise das Ciências Humanas" (1994), de Hilton Japiassu, na disciplina Didática e Psicanálise: principais conexões e contribuições  para a formação do Educador, coordenado pela Profa. Dra. Leny Mrech, da Faculdade de Educação, da Universidade de São Paulo, em 18/ 04/ 2002.  
[1]   Ver interessante trabalho produzido nesse período: Diga-me com quem andas. Ed. Objetiva, 1998. Tb. o documentário de tv "Os pais tem importância? " (GNT- Sist. Net, 2000)
[2] Cf.: ESTEVES, J., O mal-estar docente (1999). Cf. tb.: LIPP, M. (org.). Stress ocupacional do professor. In: Pesquisas sobre stress no Brasil(1996). 
[3] CF.: HIRIGOYEN, F. Assédio moral, (2000) .
[4] O "pesquisismo" [sic!] se sustenta de "bolsas calaboca" [sic!] (PUC-2002). Leia também, PARANHOS, F. A pós-graduação e a mais-valia.
[5] Cf.: JAPIASSU, H.Desistir de pensar? Nem pensar (2001).
[6] JAPIASSU, H. A questão da interdisciplinariedade. Palestra proferida na Universidade Estadual de Maringá, no Curso de Especialização em Epistemologia "Investigação epistemológica", em 29/08/97. Publicado na revista de METEP; QUESTÕES EPISTEMOLÓGICAS. Maringá: Eduem, n. especial, 1999.
[7] Cf.:  PEREIRA, J. D. A formação de professores: pesquisa, representações e poder(2000). Tb.: PARANHOS, F. A pós-graduação e a mais-valia
[8]   Nota:  “Assim, os "pesquisadores" se sentem obrigados a "fabricar" rapidamente alguns artigos ou "papers" a serem publicados em revistas especializadas, lido apenas por um grupo muito restrito de pessoas. (...)Parece que fomos hoje invadidos por uma onda de 'pesquisite' ". Tudo isso é sustentado por outra patologia acadêmica, o "projetite", ou mania de projeto, baseado numa visão burocrática, fixista e pedagogizante da metodologia científica”. Japiassu dá um exemplo do reducionismo absurdo: um aluno do curso de Mestrado em Psicologia, teria dispensado três anos visando demonstrar cientificamente "A influência do condicionamento operante no processo de aprendizagem do marimbondo canadense". (Cf.: JAPIASSU, H., 1979, p. 91).
[9] Nota: Na verdade, esse modelo moderno de ciência, teve origem desde a tradição da filosofia que Nietzsche chama "apolínea". Com Descartes e Galileu, entre outros projetistas da ciência, é que as paixões (sentimentos, afetos, desejos ) ou, numa palavra, a subjetividade é expurgada em nome da objetividade.
[10] Nota: O conceito de sujeito em psicanálise é de "sujeito do inconsciente" ou de sujeito dividido entre  consciente e inconsciente. Portanto, a psicanálise não reconhece o indivíduo, conceito da sociologia que entende o ser humano como um ser in-dividido ou não-dividido, mas ao contrário, o sujeito humano é um sujeito dividido. Também o sujeito psicanalítico, não pode ser confundido com a pessoa, conceito esse que tem a marca do cristianismo que vê algo nele do divino, logo, especial em relação aos outros indivíduos.   Ainda não se deve confundir o sujeito psicanalítico com o Eu (Ego). O Eu (Ego) se localiza na dimensão do registro  Imaginário, daí a sensação de corpo mitificado, produzido pelo percurso especular (narcisismo), já "o sujeito é aquele que não sabe o que diz, nem mesmo que o diz... mas, o sujeito ex-siste na linguagem". Ele é efeito de linguagem que serve para combinar ou substituir, para produzir efeitos de significação. Alguns pensam que, com o reconhecimento da idéia de sujeito, a psicanálise procede ao alargamento de sua responsabilidade até a posição inconsciente. 
Por vezes, escutamos na universidade, o pseudo-argumento de que  o bem coletivo deve estar acima da subjetividade. A história recente nos alerta quais os resultados desse ponto de vista se levado às últimas conseqüências: o "coletivismo" forçado ou a "dessubjetivação pela uniformização imposta", ou seja, no primeiro caso, tivemos o trágico exemplo da revolução cultural chinesa e, no segundo, o também trágico exemplo do nazi-fascismo. Também não fica longe da uniformização capitalista, via macdonização dos costumes impostos.
[11]   Nota: Quantas vezes percebemos durante as reuniões, certos movimentos, gestos, mímicas e discursos que suspeitamos existir ali um mais-gozar do sujeito inconsciente. Criar dificuldade "sem motivo" na aprovação de um relatório do colega, ou fazer um movimento cuja intenção é prolongar a reunião exaurida na pauta, também a compulsão de falar mal pelas costas do colega , etc, são alguns dos inúmeros e variados momentos em que o Eu-criança ou o Eu-perverso se manifesta. O momento de grupo é mais propício do que qualquer outro para a manifestação dessa dimensão da patologia humana; demonstra que ao tornarmos adultos não superamos o nosso Eu-criança-perverso, mas apenas este se recalcou, retornando sempre a revelia do sujeito. Daí ser necessário uma psicanálise para escutar-e-tratar os sujeitos, que repetem  movimentos patológicos.
[12] Cf.: ESTEVES, J. M., (1999).
Nota: por "mal-estar docente", termo intencionalmente ambíguo, o autor quer referir-se ao “desolamento ou incômodo indefinível”. Não se trata de sentir dor no corpo, nem se trata de sofrimento psíquico.  O "mal-estar" aponta que algo não vai bem, mas não somos capazes de definir o que não funciona e por quê.
[13] Nota: burnout designa o estágio mais acentuado do estresse. Uma pesquisa do Laboratório de Psicologia do Trabalho da Universidade de Brasília, divulgada há 15 dias, que revelou que 30% dos professores de escolas particulares do Brasil sofrem da síndrome de "burnout".

 

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Referências bibliográficas

 

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JAPIASSU, H. Desistir do pensar? Nem pensar. Rio: Letras & Letras, 2001. Tb. Crise na razão no ocidente. Www.Editoraeletronica.Com.br

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RAYMUNDO DE LIMA

     


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