Por CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO
Doutoranda em Filosofia (Universidade Paris X - Nanterre)


 

A Europa amarelou

 

Toda a Europa, que no início da copa do mundo/2002 não contava com o Brasil e a Alemanha para a final, festejou o triunfo auriverde com muita alegria. Os comentários, nos maiores jornais, não poderiam ser melhores: "Brasil, o futebol de ataque de 5 potências!", "Porque o futebol brasileiro continua sendo o melhor?", "Ronaldo superestar", "Brasil: casa espiritual do futebol".

Na verdade, todos admitiram o merecimento da tão cobiçada taça, que serviu de questionamento em vários sentidos para os europeus. Pergunta-se o que fazer para melhorar os times. Como os brasileiros conseguem superar a fatiga e as deficiências físicas, e também: "O que mais eles precisam fazer para provar que merecem sediar mais uma copa?". Os argumentos contra são ensaiados (violência, falta de estrutura, etc.) e, além do mais, se cogita a copa de 2010 em um país africano que, qualquer que seja, apresentará as mesmas condições do Brasil. Assim sendo, quando será que os "verdadeiros brasileiros" terão a oportunidade de ver uma copa de perto?

Com tanta criatividade e arte prevalecendo sobre a lógica e o pragmatismo, o futebol brasileiro é considerado o segundo time preferido pelas pessoas do mundo inteiro, ou seja, cada um torce primeiramente para o time de seu país e em segundo lugar para os "amarelos". A solidariedade européia é quebrada pelo "futebol-samba" e pela alegria sul-americana dos brasileiros que fazem das partidas uma festa.

Os agradecimentos cristãos após cada vitória deixam a Europa, tipicamente atéia, estarrecida e é impossivel evitar comentários do tipo: "Como os brasileiros são corajosos em mostrar sua fé!".

Criatividade, espiritualidade, samba, sorrisos, tudo isso e muito mais, é traduzido no "jeitinho brasileiro" de todos nós que, durante a partida, aguentamos com classe as provocações dos alemães, nos lugares públicos da grande Paris, e ainda improvisamos palco para festejarmos com muito ritmo na Av. Champs Elysées, onde muitos choraram em 1998. Esquecemos as tristezas, a saudade, queríamos nossos compatriotas, nosso povo sofrido para comemorarmos juntos, extravazarmos, gritarmos que somos os melhores.

Agora foi a nossa vez, a hora em que até os "azuis" amarelaram e ainda não se cansam de felicitar, nas ruas, nos bares, essa torcida que sabe ser feliz, esse país que merece ser o primeiro, mesmo sendo terceiro mundo.

CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO

     


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