Por RUDÁ RICCI
Sociólogo, Doutor, Professor da PUC-Minas e Diretor da CPP (Consultoria em Políticas Públicas). Web Site: www.cpp.inf.br

 

A Neopobreza

 

Márcio Pochmann, economista da UNICAMP, ao analisar os dados recém divulgados do Censo 2000 percebeu a emergência de um novo perfil de pobreza nas grandes metrópoles brasileiras. Em síntese, o novo pobre é branco, urbano, estudante ou formado, jovem (no máximo 25 anos de idade) e não migrante. O dado é surpreendente porque inverte o padrão de pobreza verificado entre os anos sessenta e oitenta do século passado. Naquele período, o pobre era um migrante, quase sempre originário de região rural, com baixo nível de escolaridade e que não conseguia emprego fixo.

Estudos recentes sobre o perfil dos empregos gerados na indústria automobilística, divulgados pela Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS) revelam que o empregado mais procurado possui ao redor de 30 anos de idade: não tão jovem que não possua experiência, nem acima de 50 anos, que poderia indicar perda de criatividade e agressividade no trabalho. Mas, para onde caminhamos, afinal?

O mercado considera um homem em plena capacidade produtiva aquele que possui ao redor de 35 anos de idade. Mas o que significa “capacidade produtiva”? Nos anos 90, estudos que coordenei sobre o perfil de agricultores que realizavam contratos de produção com  agroindústrias indicavam que as grandes empresas do setor procuravam um perfil muito bem definido: famílias protestantes, sem nenhum vínculo partidário ou sindical, ambiciosas, e assim por diante. Um corolário de mais de cem itens. Temos, então, a origem do apartheid social que se aprofunda no país. Não é apenas originário da política econômica governamental, mas de uma opção de sociedade que vai se cristalizando.

Por tantos motivos, o Brasil, em vinte anos, saltou da 9ª para a 2ª posição entre os países com maior quantidade de desempregados no mundo, atrás apenas da Índia. No “ranking do desemprego mundial”, a Índia está em primeiro lugar (41 milhões de desempregados), seguida pelo Brasil (11,4 milhões), Rússia (7,3 milhões), China (5,9 milhões), Indonésia (5,8 milhões), EUA (5,6 milhões), Alemanha (3,6 milhões) e Japão (3,2 milhões). Embora responsável por menos de 3% da população mundial, o Brasil responde por 7% de todo o desemprego do mundo. A constatação foi divulgada por Pochmann, a partir do cruzamento e análise de dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, entre outros.

A divulgação dessas informações questiona duramente a crença, muito disseminada no Brasil, que o problema do desemprego estaria vinculado ao grau de escolaridade e qualificação profissional dos trabalhadores. A culpa, em suma, seria de responsabilidade do desempregado. Já sabemos que a realidade é muito mais complexa. Ao redor de 60% dos trabalhadores brasileiros com título universitário não estão empregados na profissão que se formaram. Metade de nossos jovens, com até 25 anos de idade, que procuraram emprego (mesmo possuindo titulação) nos últimos três anos continuaram desempregados.

Não bastam a formação e qualificação profissionais se não existem políticas que fomentem investimentos privados, se não temos uma política industrial e agrícola agressivas, se a liquidez de nossa economia é mínima, se as taxas de juros retraem as expectativas de consumo e, se ainda, temos uma elite empresarial que não consegue conjugar desenvolvimento econômico com social.

Por estas e por outras que, quando viajamos para o exterior, sentimos inveja ao nos depararmos com tantas políticas de proteção social aos residentes de um país e tantos equipamentos culturais doados por empresários à comunidade local. No Brasil, paradoxalmente, cidadania é sempre um problema do outro.

RUDÁ RICCI

     

 

 


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