Por

ANTONIO MENDES DA SILVA FILHO
Doutor em Ciência da Computação. Docente do DIN/UEM

 

Serendipismo: Descoberta por Acidente e Sagacidade

 

Não sou etimólogo, mas um curioso, quase ‘serendipista’. E, em uma das muitas atividades de pesquisa, deparei-me com a palavra serendipity (serendipismo em Português). Consultei o dicionário e entendi o signicado. Entretanto, algo instigou-me a buscar um pouco mais de informação da origem de seu significado e resultado divido com vocês a seguir.

A palavra serendipismo tem sua origem relacionada à estória do livro entitulado “Os Três Príncipes de Serendip”, publicado em Veneza, 1557, por Michele Tramezzino. Comenta-se que Tramezzino referenciou Serendip no título do livro porque a ilha transmitia uma sensação um tanto exótica em 1555, época em que o livro havia sido elaborado.

A estória narrada no livro remonta à tempos antigos onde havia um reino no extremo oriente governado pelo rei Giaffer, que tinha três filhos. Sendo o rei um bom pai e tendo preocupação com a educação deles, então o rei decidiu que era preciso dotar seus filhos não apenas de grande poder, mas também de todos os tipos de virtudes que um príncipe pudesse precisar. Assim, o rei viajou por toda a ilha em busca dos melhores tutores, sendo cada um deles especializado em um campo distinto bem como confiou a eles o treinamento de seus filhos.

Como os filhos do rei eram dotados de grande inteligência, logo se tornaram altamente treinados em artes e ciências. Quando o rei foi informado disto, ele reagiu com certo ceticismo e convocou seu filho mais velho a assumir o reino, anunciando que iria se aposentar. Seu filho mais velho, então, recusou-se a assumir o reino e disse que seu pai era mais sábio e deveria governar até a morte. O mesmo ocorreu com os outros dois filhos quando foram chamados pelo rei.

Embora o rei tivesse ficado surpreendido pela sabedoria apresentada por seus filhos, ele decidiu enviá-los numa longa jornada para que pudessem adquirir experiência empírica.

Os três príncipes saíram, então, de Serendip e seguiram a caminho do reino de um poderoso imperador chamado Beramo. Durante sua estada nesse reino, diversas ocorrências são elucidadas pelos três príncipes, impressionando o imperador Beramo pela sagacidade deles. Assim, Beramo os convida a permanecer em seu reino. Durante esse período, os três príncipes recebem várias tarefas do imperador, sendo todas elas cumpridas. Todavia, enquanto os príncipes estiveram ausentes do reino na execução de uma tarefa, Beramo passa por um sofrimento por causa de uma paixão. Isto é narrado no livro através de 7 poemas e ao final os três príncipes com sabedoria ajudam o imperador a superar o sofrimento. Depois disso, eles retornam a Serendip e a estória termina com os três príncipes tornando-se em sábios governantes.

Em função dessa estória, Horace Walpole (1717-97), filho do primeiro ministro Robert Walpole, antiquário e autor do romance gótico “The Castle of Otranto” (Londres, 1765), usou a palavra `serendipity’ em uma de suas correspondências para o enviado do rei George II (Florença). Pode-se dizer que este foi o primeiro registro encontrado da palavra e esta correspondência juntamente a outras encontram-se contidas nos 31 volumes de correspondências de Horace Walpole (New Haven, 1937), editado por Wilmarth Sheldon Lewis.

O interessante nessa estória é que, enquanto os três príncipes viajavam, eles estavam sempre fazendo descobertas por acidente bem como por sagacidade de coisas que não estavam sendo buscadas. A sagacidade acidental das descobertas dos três príncipes é o principal aspecto caracterizando o serendipismo.

Como professor e pesquisador, gostaria de enfatizar este aspecto àqueles que estão começando a atuar em alguma atividade (seja ela no campo profissional ou não) bem como àqueles que já se consideram maduros, experientes de que o serendipismo ou a descoberta por acidente e sagacidade é altamente compensador e benéfico. Assim, em ciência e tecnologia, como em qualquer outro campo, um pouco de serendipismo não faz mal, ajuda.

Aos leitores mais interessados no assunto, recomendo a leitura das partes 1 e 2 de “The Princes of Serendip” de Richard Boyle no site http://livingheritage.org/three_princes.htm

ANTONIO MENDES DA SILVA FILHO

     

 


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