Por EVA PAULINO BUENO
Professora de Espanhol e English Communication na Mukogawa Women's University, em Nishinomiya, no Japao; autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM, 2000)

 

A Copa da Ásia?

 

Então, um dia, ficou resolvido que Japão e Coréia repartiriam a honra de sediar a Copa do Mundo de 2002. Uns dizem que foi idéia de João Havelange. Outros não têm certeza. O fato é que, de um jeito ou de outro, estes dois vizinhos que têm tido uma história de séculos de conflito agora vão ter que fazer uma coisa juntos, e fazê-la bem.

Para nós brasileiros, para quem o futebol é um esporte tradicional, é importante lembrar que nem o Japão nem a Coréia tinham, até bem pouco tempo atrás, qualquer representatividade neste esporte. De fato, no Japão o futebol é uma aquisição recente, [1] sendo que a J-League—a Liga de Futebol Japonesa—só teve seu início três anos antes do Japão ser escolhido como co-sede da Copa. [2]

Tanto o Japão como a Coréia tomaram as providências necessárias, como a construção de novos estádios, e preparação das cidades para a chegada do milhão de pessoas previstas para a Copa. Na cidade de Osaka, o governo organizou aulas de inglês básico para policiais e outros funcionários que poderão entrar em contacto direto com os visitantes. Em Kobe, grupos de pessoas aposentadas—homens e mulheres—passaram meses estudando frases em várias línguas para poderem ajudar na saudação aos estrangeiros que virão ao país.

Em comunidades onde os times nacionais vão se hospedar, há grandes expectativas. Na pequena ilha de Awaji, por exemplo, toda a população se dedicou quase que exclusivamente nestes últimos meses a preparar tudo—desde a compra de camas mais longas para os atletas à escultura de estátua de um leão dourado – para a estadia do time da Inglaterra.

Durante a Copa, até o horário dos trens no Japão serão modificados. Considerando-se que os trens japoneses nunca se atrasam, e jamais se adiantam, a não ser no caso de acidente, então o prolongamento do horário e o aumento do número de trens ligando, por exemplo, Tokyo a Yokohama em dias de jogos, equivale a um grande acidente. (Vale notar, entretanto, que o pedido para tal aumento entre as cidades de Osaka e Kyoto durante a noite foi rejeitado, porque os cidadãos não querem mais ruído do que já têm.)

Na Coréia, preparações similares estão acontecendo. Desde meados de maio, até os trens da cidade foram decorados do piso ao forro em motivos futebolísticos. A cidade de Seoul recrutou mil pessoas para “torcerem” oficialmente para os times da França, Senegal, China e Turquia. O Bank of Korea está planejando remover dinheiro velho de circulação e substitui-lo por notas novinhas em folha, num esforço para mostrar ao mundo sua melhor imagem.

Os dois países, uma vez inimigos, agora competidores, estão tentando superar um ao outro durante este evento (os gastos com novos estádios e projetos relacionados com a Copa totalizaram oito bilhões de dólares). As grandes dores causadas pelo Japão durante a ocupação da Coréia de 1910 a 1945 ainda estão bem presentes na memória dos coreanos de todas as idades, mas, como diz Kim Yunjin, a jovem atriz representante da Coréia como “embaixatriz da boa vontade”, “Nós não podemos esquecer a história, mas temos que ir além da história.” Talvez em parte como resultado da Copa do Mundo, várias atividades culturais promovidas em conjunto estão acontecendo nos dois países: filmes de produção binacional (tais como “Rush,”, “KT,” “Lost Memories 2009,” e “Soul”), a encenação de uma ópera escrita por um japonês usando como tema um conto folclórico coreano, e o renovado interesse dos japoneses na língua e cultura coreanas. Em Seoul, no clube KJ, jovens japoneses e coreanos se reúnem para festejar, em duas línguas, suas similaridades e diferenças. Recentemente, o governo coreano levantou a interdição à venda de produtos culturais japoneses, tais como CDs e livros.

Mas nem por isso a situação entre os dois países está livre de tensões. Em primeiro lugar, há a questão política atual, originada  especialmente pelas feridas não cicatrizadas desde a ocupação japonesa da Coréia e exacerbada por dois episódios recentes sacudiram os primeiros passos de amizade e reconciliação: a questão dos livros de história adotados nas escolas japonesas, e a visita do Primeiro Ministro japonês Koizumi a um santuário Shintoísta que comemora os mortos em guerras. Neste santuário, são homenageados conhecidos criminosos da Segunda Guerra Mundial que foram responsáveis diretos pelos saques e destruições causados pelas forças japonesas em toda a Ásia, mas especialmente na Coréia e na China. Quanto aos livros de história, na versão que eles apresentam, a atuação do Japão na Ásia durante as quatro primeiras décadas do século passado é sanitizada, e os episódios mais horríveis suprimidos. Tanto a China como a Coréia têm protestado veementemente contra estes livros de história, que darão uma visão distorcida do Japão e dos conflitos na Ásia à nova geração de japoneses. As autoridades japonesas retrucam que nenhum país tem o direito de interferir em seus livros escolares.

Além destes problemas específicos à relação entre os dois países co-sede, há o problema de como o Japão e a Coréia vão reagir à chegada de milhares de torcedores de outros países. É bem possível que, para a maioria dos japoneses, esta responsabilidade é vista com muita apreensão. Logicamente, além dos possíveis benefícios trazidos por uma eventual reaproximação cultural e política, vai haver um resultado econômico de toda esta movimentação de gente e produtos. Mas, por outro lado, esta presença massiva de estrangeiros não é uma coisa que os japoneses processam muito bem.

Desde fevereiro deste ano, tem sido possível ver-se a polícia japonesa em treinamento para “receber” os torcedores mais exaltados, chamados “hooligans” em inglês (e “furigan” em japonês). Estes são os que — em geral depois da ingestão de bebidas alcoólicas — começam a brigar com os torcedores do outro time, a quebrar assentos, a jogar garrafas, a botar fogo em tudo. Os mais famosos — ou infames — são os da Inglaterra, daí o home “hooligan.” [3]

O problema é que o Japão não tem muita experiência com estrangeiros. Contando com menos de 1% da sua população de não japoneses (a maioria dos quais composta de chineses e coreanos que estão no Japão há várias gerações mas não podem obter a cidadania japonesa automaticamente), é provável que a polícia interprete mal a atitude festiva de torcedores de outros países, que serão muito mais expansivos que os do Japão. Problema similar pode ocorrer na Coréia, onde a polícia está acostumada a lidar com demonstrações públicas muito mais frontalmente que a polícia japonesa, e pode reagir com canhões de água e bombas de gás lacrimogêneo.

No final da Copa, seria bom todos podermos olhar para o evento e ver que esta foi uma boa Copa, com imagens bonitas dentro do campo, vitórias para os que merecem, confraternização entre os países participantes, um momento de alegria para o mundo todo, que anda bem precisado de alegria. Além de tudo, seria bom podermos ver como o futebol ajudou a diminuir as desavenças, a cicatrizar algumas feridas, e abrir novas portas de comunicação e harmonia entre o Japão e a Coréia. Mas algumas verdades sobre o que o Japão infligiu a outros países da Ásia não poderão jamais ser esquecidas. E nem devem, caso contrário, as mesmas barbaridades poderão ser repetidas.

* Professora de Espanhol e English Communication na Mukogawa Women's University, em Nishinomiya, no Japao; autora de Mazzaropi, o artista do povo - EDUEM, 2000

 

NOTAS

[1] Em 1950, Tetuji Hotta introduziu o futebol na escola primária onde ele trabalhava. Hoje, sua cidade, Shimizu, de 240.000 habitantes, tem 30.000 jogadores inscritos nos seus clubes de futebol. Alguns destes jogadores têm 3 anos de idade! Este interesse pode ser atribuído ao entusiasmo de Hotta e ao patrocínio da Pepsi Cola. Hotta usou o dinheiro recebido para promover um torneio de futebol entre as escolas primárias da cidade, para expandir o programa de treinamento de técnicos, e para fundar um jornal local destinado ao futebol. A cidade de Shimizu hoje tem dois times na J-League.

[2] A J-League, iniciada no momento em que a economia japonesa estava no seu apogeu, também sofreu as conseqüências da mudança da economia nacional. A assistência aos jogos diminuiu, e clubes tiveram que se unir porque os patrocinadores não podiam sustentá-los sozinhos. Mas, ainda assim, este esporte—o terceiro profissional no Japão—atrai grande atenção. A proximidade da Copa do Mundo tem ajudado na recuperação do interesse público, que em 2001 aumentou 50%.

 

[3] E, como se diz que a necessidade é a mãe da invenção, Yutaka Minami, da cidade de Toyama, inventou um escudo especial, feito de policarbonato, para uso da polícia japonesa, especialmente para esta ocasião. O policarbonato é o mesmo material usado em CDs, só que com 5 milímetros de espessura. Este escudo é transparente, e extremamente forte, resistindo até bala. Os testes preliminares indicam que a polícia vai ter mais condições de conter os torcedores exaltados usando estes escudos.

 

 

EVA PAULINO BUENO

     

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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