Por CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO
Doutoranda em Filosofia (Universidade Paris X - Nanterre)


 

Pornografia X Puritanismo

 

A pornografia tem bombardeado a mente adolescente francesa como, certamente, tem feito no mundo inteiro. De acordo com o jornal “Libération” de 23 de maio último, uma a cada duas crianças entre 10 e12 anos já assistiu a um filme pornográfico. O acesso a esse estilo de programação é muito fácil: parabólicas, canais a cabo, cassetes emprestadas entre amigos ou em distribuidoras automáticas (onde 27% dos filmes são pegos, sem controle, por adolescentes), internet e a própria televisão, com  programas como “Loft story” (parecido com “Casa dos artistas” no Brasil). Segundo psicólogos, esse último tem despertado o espírito “voyeur” nas pessoas, sobretudo, evidentemente, nos adolescentes.

Entretanto, o que tem aterrorizado os profissionais da área médica e educacional, é constatar que os filhos encontram total liberdade dentro de casa sendo muitas vezes estimulados pelos próprios pais.

De acordo com pesquisas realizadas nos últimos tempos, a maior parte das pessoas com graves desvios sexuais (estrupradores, etc.) tiveram acesso, desde tenra idade, a transgressões como essas. Existem crianças cuja única referência ao amor e à sexualidade é esse tipo de relação pornográfica, que eles vêem como normal e afirmam, até mesmo, que seus pais vivem assim.

Tem-se observado que houve uma desvalorização considerável do outro como “sujeito-parceiro”. Já não é mais importante quem seja, quantos sejam, ou se há um parceiro real, o que importa é a satisfação do apetite sexual-carnal de modo totalmente irracional.

Travando uma árdua batalha contra essa maneira de educar temos, em terreno adversário, os franceses adeptos ao puritanismo, que condenam radicalmente qualquer excesso, por menor que nos pareça, como por exemplo: mulheres que usam blusas de alcinhas, shorts ou biquini, ainda que o calor seja tentador; eles não permitem brincadeiras “picantes” e escandalizam-se com a extroversão de certos estrangeiros.

Entre os dois opostos, temos a minoria considerada “morna”, que, segundo alguns, “serão vomitados”, pois não descem do muro. O problema seria permanecer firme em cima do muro ou desviar-se, ora para um lado, ora para outro? Eu diria que os que procuram um equilíbrio têm menos chance de cair. Provou-se, com o passar dos tempos, que os extremos não são tão bons quanto parecem, visto que nenhuma das duas faces obteve resultado satisfatório.

Lutar para que os distribuidores automáticos de preservativos sejam retirados das escolas de segundo grau não resolve, pois, de acordo com a atual realidade, isso acaba sendo necessário. No entanto, algo deve ser feito pela educação dessas crianças que são violentadas diariamente por tais atentados visuais, condenando-os a tornarem-se verdadeiros “kamikasis sexuais”.

 

CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO

     


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