Por RUDÁ RICCI
Sociólogo, Professor da PUC-Minas e Diretor da CPP (Consultoria em Políticas Públicas). Web Site: www.cpp.inf.br

 

A lição de Jospin

 

A derrota da “esquerda sistêmica”

Para surpresa geral, Lionel Jospin foi eliminado do segundo turno das eleições presidenciais da França. A esquerda fica fora das eleições, fato que não ocorria desde 1969.  Jacques Chirac disputará as eleições com Jean-Marie Le Pen, líder da extrema-direita francesa.

Le Pen, um bretão de 73 anos, é ex-paraquedista, dirigente do Partido Nacional (PN) e é um inflamado anti-unidade européia e antiimigração. Foi deputado em 1956. Em 1965 apoiou uma campanha de extrema-direita à presidência e, em 1972, fundou o PN. Seu lema central foi a radical campanha contra a migração africana. Alguns anos atrás, durante as manifestações de comemoração do 1o de Maio, a multidão que acompanhava Le Pen pelas ruas, carregando estandartes com a imagem de Joana D’Arc, chegou a atacar violentamente turistas argelinos. Lembremos que o 1o de Maio é uma comemoração típica da esquerda francesa. A tradição sindical de esquerda é um marco da cultura daquele país. Um exemplo é a palavra greve que tem origem na praça Gréve, local em que desempregados e camponeses expropriados pelas máquinas que não encontravam emprego em Paris se encontravam e que, mais tarde, virou símbolo da luta pela inclusão social. Uma manifestação de extrema-direita, em Paris, no dia 1o de Maio foi uma demonstração de força e até mesmo petulância.

Em 1974, o PN conseguiu 0,7% dos votos para a Presidência da República. Contudo, em 1988, já saltava para 14%. No final da noite de 21 de abril, Le Pen contabilizava 17% dos votos (contra 19,9% de Chirac e 28% de abstenções).

Analisar esses resultados não é um exercício diletante para um brasileiro. A campanha de Lula aproxima-se claramente do discurso de Jospin. Esteve, inclusive, recentemente na França e fez campanha para Jospin, coincidentemente no momento em que Chávez, presidente da Venezuela, atravessava seu inferno astral. Uma sinalização, portanto, que um eventual governo Lula estaria mais próximo da vertente francesa da gestão de esquerda.

A análise mais completa das eleições, até o momento, foi a realizada pelo jornal Le Monde. Na madrugada do dia 22 (segunda-feira), uma primeira análise do jornal apontava três causas principais da derrota socialista: a) o eleitor rejeitou a campanha errática de Jospin que, de um claro discurso centrista, foi obrigado, nos últimos dias, a voltar às origens de esquerda; b) a concorrência eleitoral que os socialistas sofreram das forças trotskistas (os três candidatos trotskistas obtiveram, juntos, a surpreendente marca de 11% dos votos); c) a dispersão política dos partidos de esquerda. Jospin foi criticado nesta campanha por desmobilizar um eleitorado historicamente ativo, não conseguindo congregar a militância de esquerda. A derrota nessas eleições deve retirá-lo da vida pública.

É muito cedo, ainda, para uma análise mais complexa da revolução político-partidária resultante das eleições francesas. Contudo, vale registrar uma lição. Nos últimos anos, com a globalização das informações instantâneas, com a emergência da sociedade das imagens ou sociedade do espetáculo, cristalizou-se a opinião que uma campanha eleitoral não deve se basear na memória do eleitorado, mas na mensagem subjetiva das imagens televisivas. A memória estaria com seus dias contados. A derrota de Jospin coloca em dúvida tal convicção. Seus votos migraram para os partidos trotskistas, mais à esquerda do seu PS. A perda de consistência eleitoral foi tão brutal e as projeções de voto estiveram tão vinculadas ao discurso mais centristas (quando apresentava quedas na intenção de voto) ou esquerdista (quando subia na intenção de votos) que é possível crer que o espectro do passado continua vagando pela Europa. Uma lição, talvez, para as campanhas eleitorais do Novo Mundo.

 

O sobe e desce dos partidos políticos

Oscar Grácia, em artigo publicado no site rebelion.org, relativizou a derrota eleitoral da esquerda francesa. Apresentou, para tanto, um primeiro panorama das quedas de percentual de votos da direita e da esquerda, comparando os resultados das últimas duas eleições presidenciais. Os dados destacados são os seguintes:

Le Pen aumentou, em relação à última eleição, apenas 1,8% dos votos;

O segundo maior partido de direita (UDF) obteve 6,9% do total de votos (menos 12% que o obtido na eleição anterior);

Chirac caiu 1%;

Os partidos socialista e comunista apresentaram uma significativa queda, mas a esquerda como um todo (se somados os 11% dos três candidatos trotskistas e os 5,2% dos verdes) apresentou leve ascensão.

Assim, para este analista, a esquerda denominada “sistêmica” (ou governista) teria retrocedido, mas o mesmo não teria ocorrido com toda a esquerda francesa.

Por sua vez, Le Pen obteve em 1995, 4.826.225 votos e, nesta última eleição, 4.794.630. Porém, Bruno Megret, candidato de extrema-direita que lidera uma cisão da FN obteve uma marca histórica: 665 mil votos. Os votos da extrema-direita somados não apresentaram quedas significativas, portanto.

Analisar as estatísticas eleitorais, assim, é procurar a ponta do novelo de lã. Mas é possível destacar algumas conclusões óbvias: os grandes derrotados foram os socialistas (2,8 milhões de votos a menos que em 1995) e os comunistas (uma queda de 1,5 milhões de votos em relação a 1995). Dos partidos trotskistas, Olivier Besancenot, da LCR, não havia disputado eleições em 95 (obteve 1,2 milhões de votos neste ano) e Laguillier, da Luta Operária, manteve os votos das últimas eleições (1,6 milhões de votos).

Outros analistas apontaram, ainda, uma divisão do país em três blocos: a direita governista (totalizando 33,7% dos votos), a esquerda governista (totalizando 32,4%) e o bloco de partidos radicais, de esquerda e direita (totalizando 33,8%). Para o geógrafo Jacques Levy, este terceiro agrupamento reeditaria uma característica da política francesa, inaugurada na revolução de 1789, que denominou de “movimento de protesto”. A partir desta teoria, este pesquisador sugere que as eleições criaram um mapa do país dividido a partir desses três grandes blocos. De certa maneira, sugere, contam três versões da história nacional: a direita e esquerda “sistêmicas” ou “governistas”, acompanham as regiões rurais e pós-industriais da França. Assim, toda faixa que percorre o centro-oeste do país teria votado em Chirac, ao passo que a região sudoeste teria votado majoritariamente em Jospin. O voto de Le Pen estaria majoritariamente concentrado no extremo nordeste e sudeste da França, disputando com os votos trotskistas e de outras facções da extrema-direita. As grandes regiões metropolitanas teriam se cindido em dois blocos: Lyon, Nice e Strasbourg estariam com a direita; Lille, Toulouse e Bordeaux teriam ficado com a esquerda. Paris dividiu-se em duas partes. A Bretanha, se consolida como região de direita e de afirmação de um discurso de autonomia regional.

Já o “voto de protesto”, estaria concentrado nas regiões compostas por aglomerações têxteis e de exploração mineral, acompanhando um eixo de migração popular. O voto de extrema-direita acompanha, por sua vez, a “França Profunda”, atualmente mais fragmentada e diversificada do ponto de vista urbano, constituindo espaços públicos frágeis.

O cenário, assim apresentado, revela uma clara frustração do eleitorado francês. É a partir deste prisma que devemos compreender a leve migração de votos de socialistas e comunistas para as correntes mais radicais do espectro partidário (trotskistas, verdes e extrema-esquerda) e um percentual incrível de abstenções (7% a mais que em 95 ou 2,6 milhões de eleitores).

 

A culpa pela derrota

O jornal Libération, na semana seguinte a derrota de Jospin, organizou uma mesa redonda a respeito do papel dos intelectuais franceses no que denominou “retrocesso político” do país.

Tal debate faz sentido num país em que seus intelectuais foram sempre convocados para as lutas sociais e políticas. Nos anos 70 e 80, à título de ilustração, a liderança de Sartre foi amplamente discutida pela imprensa engajada – assim como nas universidades -, chegando a se “eleger” um sucessor, Michel Foucault, que não aceitou tal papel.

A partir da pergunta: os intelectuais são responsáveis pela crise atual? , Marcel Gauchet destacou que não há um único responsável, o que torna a crise mais grave. Por seu turno, Pierre Laborie foi mais contundente e afirmou que o discurso intelectual é, por essência, desmobilizador. Estaria em contradição com a forma da ação política que implicaria em certo maniqueísmo, uma lógica da denúncia e da legitimação, ao contrário da lógica intelectual, marcada por um ideal ascético, contemplativo. Neste sentido, os intelectuais não poderiam ser responsabilizados pelo resultado da ação política francesa, justamente porque não operam nessa dimensão da vida social. 

A mesa redonda organizada pelo Libération recompôs a trajetória intelectual do país. Os participantes do debate destacaram o claro compromisso intelectual com as causas populares, no século XVIII, passando pelo século seguinte, com Hugo e Zola. No século XX, a intelectualidade francesa reencontrou esse engajamento com a Resistência. Atualmente, contudo, os intelectuais não possuiriam um mote. Não obstante a democratização do saber - com a articulação entre o ensino e a cultura e a televisão - ocorrida no pós-guerra, surge um contra-movimento na década de 80 que desvaloriza a educação, amplia as barreiras entre classes sociais, reinstalando o fosso cultural que aparta a população. Este seria o momento em que os intelectuais teriam perdido o contato com as causas populares.

Durante o debate que se travou nessa mesa redonda, vários intelectuais destacaram que durante toda a campanha Jospin não fez qualquer pronunciamento declaradamente direcionado aos trabalhadores. Estaria, assim, mergulhado numa “cultura ou vontade da neutralidade” que envolve certas esferas da sociedade francesa.

As passagens deste debate, reproduzidas acima, revelam um país abalado em sua identidade histórica. Costumamos comentar o impacto da globalização sobre nosso país ou sobre a América Latina, mas dificilmente analisamos o impacto sobre sociedades centrais, como a européia ou norte-americana. A eleição francesa deste ano nos revela, com todas as tintas, mais esta faceta do impacto das recentes mudanças tecnológicas e de gestão pública em nosso planeta.

Esta, talvez, seja a lição mais importante da derrota de Jospin.

 

 

RUDÁ RICCI

     

 

 


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