Por RAYMUNDO DE LIMA
Psicanalista, Professor do Departamento de Fundamentos da Educação (UEM) e doutorando na Faculdade de Educação (USP)

 

“O Próximo", onde estás?

 

“Ame ao Senhor  com todo o seu coração ... e ao seu próximo como a si mesmo” ( Lucas,10,27)

Em l996, o psicanalista e professor da UERJ, Jurandir Freire Costa em um artigo, “A devoção da esperança do próximo"[1], no qual se apoiava em historiadores, filósofos e cientistas políticos, constatavam que o nascimento da noção de próximo marcou significativamente  a  cultura e a moral  do ocidente. Digamos “nascimento", seguindo o pensamento do autor, porque na história da humanidade  nem sempre o outro foi reconhecido como próximo, isto é, nem sempre o outro foi aceito como um não estranho ou como um de nós.

Em verdade, esse princípio  cristão,  deveria ser a bússola de toda ética ocidental em todos os tempos; deveria  nortear a conduta e a saúde psíquica e social, melhorando assim os relacionamentos humanos, entre grupos e nações. Mas, quanta dificuldade para esse bom mandamento  ser aceito na prática por todos.

Freud, no cap. 5, em Mal-estar da civilização[2], suspeita  talvez o problema esteja na sua própria gênese e no procedimento, pois no cristianismo o amor está como um dever ("devo amá-lo") e não como uma opção ou um sentimento espontâneo e livre; mas, é fato que a idéia de próximo teve força nos projetos de humanização, principalmente no século 20, e ainda continua tendo, embora capenga ou com outras denominações e sentido mais institucional.

Decerto que há no mundo contemporâneo tantas dificuldades e complexidades e respostas tão decepcionantes, vide os efeitos da globalização, as medidas protecionistas da Europa e dos EUA, o acirramento do racismo, a intolerância religiosa, enfim, fatos que terminam reforçando a tese dos mais pessimistas que acham impossível o seu total cumprimento.

Na parábola do Bom Samaritano, o próximo é aquele que usou de misericórdia para com aquele que foi maltratado nas mãos dos ladrões; aquele homem provavelmente comerciante, estando de passagem por alí, socorre o homem caído (F. Dolto), enquanto que outros como um levita  e um sacerdote  passando pelo mesmo caminho, (portanto, fisicamente próximo de corpo, mas não em disposição de ajudar), vendo o homem caído e machucado foram insensíveis, preferindo seguir os seus caminhos. Como são as metáforas e as parábolas, é uma história imprescindível para se refletir sobre a condição humana e o sentido de solidariedade, em todos os tempos. Mas, quantas inúmeras atitudes humanas que seriam melhor chamadas "desumanas", que vão na contramão desse princípio, se repetem no dia a dia!

Em nosso época, vivemos cheios de contatos humanos e, no entanto, cada vez mais estamos ficando alheios para com o "próximo".  A vida nas grandes cidades fica cada vez mais corrida; o outro é olhado como chateação, estorvo, e até mesmo como perigo potencial. Relacionar-se com gente passou a ser tarefa difícil e cansativa, observa Freire Costa. O poder da mídia nos faz aproximar de ídolos de lugares tão distantes, enquanto a realidade concreta nos afasta de nossos próprios familiares e amigos.  Na nova rede comunicativa  nos leva a sermos íntimos de gente estranha; sentimos profundo pesar coletivo pela morte de um mito da mídia (princesa Diana, Airton Sena, Leandro, etc) e, quando diante da perda de um parente mais próximo, ou um amigo, somos quase que insensíveis.

O costume de "desaprender a gostar de gente" teria origem na cultura  individualista e narcísica-consumista do mundo contemporâneo. Vivemos numa cultura cujos vínculos de irmandade são programados segundo o grupo a que pertencemos. Mesmo assim a aproximação é relativa, condicionada, termina em impessoalidade, indiferença e aversão as pessoas que não vemos como iguais. Reforçado pela banalização da violência, somos levados a conviver com o estado de ansiedade, estresse, medo, desconfiança diante de qualquer outro, o que termina  por nos pressionar à uma vida de isolamento social e solidão preventiva.

Pesquisas recentes apontam só em São Paulo, a seis anos, haviam 22 serviços telefônicos para solitário. Como a solidão vem aumentando no mundo todo, os negócios prosperam nesse ramo. Metade desses serviços oferecem a manutenção da solidão, isto é, reforçam a idéia de que não há próximo, que só resta apenas aprender "viver solitariamente a existência".

Assim, pouco a pouco vamos nos acostumando a uma ética que recusa da idéia de próximo. a) Reforça a crença de que não precisamos de mais ninguém, pois somos preenchidos por aquilo que o sistema oferece: bens materiais, serviços, títulos, prestígio social, novos lançamentos tecnológicos ou remédios como o Prozac e Viagra. b) surge a convicção de que estar ligado a alguém é ter: compromissos, responsabilidades, tempo desperdiçado, mais trabalho, enfim, só dor de cabeça. Daí a distância psicossocial virar costume nos centros urbanos, onde criam-se hábitos  de  auto-isolamento pessoal, de fechamento familiar, formam-se 'tribos' com códigos secretos, gangues de jovens que se rivalizam entre si. Enfim, as relações viram "ralações" humanas. No trabalho é regra "ter colegas", exceção é "fazer amigos”.

Com a mudança radical na sociedade contemporânea, a família foi a maior vítima, não encontrando mais tempo para seus membros se encontrarem e conversar entre si. A insensibilidade, a indiferença e a intolerância em relação ao outro, infelizmente, estão sendo educadas no embrutecimento e a cisão  da família atual.

Nessa época em que somos todos vítimas da globalização, a escassez de emprego obriga muita gente a migrar de um lugar para outro, até nas cidades do interior a idéia de próximo é relativa à apenas aos seus membros mais conhecidos e respeitados. O  preconceito e a xenofobia fazem com que as pessoas recebam  mal  o "forasteiro",  que crêem que "tiram" os seus empregos. 

Mas, ainda bem que resta um ponto positivo: a idéia de próximo vem se institucionalizando através das diversas organizações de solidariedade, observa o pensador francês, E. Morin. Essas organizações não governamentais (Ongs) é a grande esperança para a humanidade, porque ajudam desde a criar um clima de debate sobre questões vitais para a melhoria da vida no planeta, como o que aconteceu no Fórum Mundial, em Porto Alegre, sensibilizar governantes e países ricos, levando a todos resgatar as virtudes da compaixão e generosidade para com aqueles que efetivamente são nossos próximos.

Isso é muito pouco dirão alguns. Isso é puro idealismo, dirão outros. O caminho do reconhecimento do próximo  deveria estar presente até mesmo nos projetos mais radicais ou revolucionários. A revolução francesa linha como lema "liberdade, igualdade e fraternidade". Até agora os movimentos revolucionários trataram muito da igualdade e da liberdade, poderia estar chegando a hora de reconhecer também o significado e o caminho para termos um mundo mais fraterno. Ou melhor, nos melhorando aqui e agora, as nossas relações de amizade e solidariedade quando um colega vai parar no hospital, ou quando é demitido injustamente, ou quando está simplesmente caído em depressão.

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[1] Cf.: Folha de S. Paulo, Cad. Mais, 22/09/96.

[2] FREUD, S. O mal- estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1974, p. 129-38.

Nota: nesse capítulo, Freud analisa os dois deveres mais complicados do cristianismo: "amar o próximo como a ti mesmo"  e "ama os teus inimigos", ambos incompreensíveis na análise.

 

 

RAYMUNDO DE LIMA

     


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