Por RAYMUNDO DE LIMA
Psicanalista, Professor do Departamento de Fundamentos da Educação (UEM) e doutorando na Faculdade de Educação (USP)

 

A ascensão da extrema direita na Europa e o sinal de vitória do PT para a presidência

(Apenas um livre comentário)

 

A previsível derrota de Le Pen e da extrema direita na recente eleição é motivo apenas para uma meia comemoração. Primeiro porque os franceses ficaram encurraladas entre escolher entre a direita (Chirac) e a extrema-direita (Le Pen) já que a esquerda estava nocauteada para o executivo.

Mas, em matéria de política não existem derrotas nem vitórias definitivas. Em qualquer parte do mundo, a política parece ser regida pelo princípio neitzshiano do "eterno retorno" ou da gangorra. Também a fita de Moebius poderia ser utilizada como muleta de entendimento quanto a ascensão dos movimentos extremistas de direita e de esquerda na Europa. Lacan usou essa fita para explicar uma de suas idéias. Poderíamos usá-la livremente para tentar entender esse momento histórico em que os extremos voltam a ter visibilidade mundial, sempre se revelando pela intolerância, truculência, violência física, econômica, social, ou psicológica. (Por exemplo, a violência física do terrorismo (de grupos ou de Estado), a violência econômica do protecionismo norte-americano e europeu sobre os países como o Brasil ou os da África).

Esclareço que, esse comentário vem de um lugar de humildade. O psicanalista e sua pobre teoria, se situam um lugar de "nada saber". Não possuímos um saber largo e profundo tal como o das ciências consideradas "nobres".  Enquanto estes usam suas teorias como cobertores para explicar tudo, nós nos limitamos a apenas levantar questões, sinalizar um ou outro ponto, escutar os discursos e, se possível, levantar hipóteses para investigação mais apurada ou provocar um debate.  A psicanálise apenas nos aponta o caminho da escuta suspeitosa das falas e dos discursos e, na teoria, levantar hipóteses, mas hipóteses que não tem a pretensão de encontrar a Verdade, salvo a meia-verdade ou uma verdade ficcional.      

Voltando as eleições na França (e no fundo, a campanha para presidente, no Brasil) gostaria de apenas levantar três pontos, digamos, desalinhados.

1) Pela psicologia há uma teoria que diz: podemos sofrer diante de conflitos existentes no mundo exterior (ex.: uma guerra, a falta de comida, uma crise econômica, falta de emprego, etc) e, também, de conflitos internos, porque acontecem no íntimo das pessoas. O constrangimento e o mal estar são efeitos de uma  escolha para se sair de um conflito. Qualquer solução de um dos três tipos básicos de conflitos internos (positivo/ positivo, positivo/ negativo e negativo/ negativo) é sempre precária e frustrante.

No primeiro caso, chegamos a ficar satisfeitos com uma escolha, apesar de perder a  outra opção  (ex.: suponhamos que uma criança só pode escolher um dentre dois brinquedos, ou, um adulto que acha que está diante de dois candidatos muito bons). No outro extremo - o conflito negativo/ negativo -  está a situação difícil que nos obriga a escolher dentre duas situações negativas (ex.: a criança recebe a ordem "ou come ou apanha", ou o adulto ter que escolher entre o ruim e o pior.

No caso da eleição francesa, a maioria da população passou pelo constrangimento de ter que escolher entre a direita e a extrema direita. Dos mais de 80% que optou pela direita, possivelmente a maioria não é de direita. Tem gente de direita sim, mas também os eleitores de Jospin, os que eram apenas contra as teses da extrema direita, os de extrema esquerda, os imigrantes ameaçados, e os maria-vai-com-as outras. Como dizia um filósofo: somos o que determina as circunstâncias. Mas, o resultado é sempre constrangedor. O conflito interno continua, apesar da vitória esmagadora. O mal-estar continua ao saber que a extrema-direita aumenta mais alguns pontos a seu favor.

Portanto, como dizia, acima,  restava apenas comemorar pela metade.  Alguns sentimentos dominaram os bastidores psíquicos da maioria dos franceses. O sentimento de culpa estava lá remoendo, principalmente os que não foram até as urnas cumprir com o seu dever cívico no primeiro turno. Mas, há outros sentimentos certamente reativos à ascensão da extrema direita: Vergonha, a raiva, o medo e a angústia.

Vergonha e frustração: onde foi que nós, da esquerda, erramos e que fez com que o povo nos rejeitasse? Como explicar ao mundo tamanha vergonha? Raiva pelo "destino" que um povo inteligente, de boa escolaridade, de tradição democrática, estava virando para o lado da extrema-direita ou mandar um recado para a incompetência ou a falta de entusiasmo da esquerda. Faltou ir para além do "pão e vinho". Raiva, pela escolha de andar na contra-mão da democracia, já que a extrema-direita representa isso. A França que sempre foi a pátria dos exilados, o solo fértil de idéias e do respeito às diferenças humanas, como entender essa escolha? O Medo pela crescente probabilidade da extrema direita continuar ganhando terreno, como já é sintoma em vários países da Europa. E, angústia, principalmente nos partidários de esquerda. O sentimento de angústia é um sinal de antecipação do que imaginamos poder acontecer no futuro. O angustiando "prefere" sofrer desde logo, no presente, para não ter que sofrer a sua intensidade insuportável no futuro. Foi ainda angústia reconhecer que a esquerda tão tradicional no páreo democrático terá que aprender a ficar fora do poder máximo, restando apenas compensar os estragos nas eleições para o parlamento e as regionais.

Mas, a angústia sinaliza que as coisas precisam ser revisadas e alteradas na sua radicalidade. A esquerda angustiada - literalmente perdida - enfim, aprenderia a ter sabedoria, unindo-se numa sonhada e possível "frente de esquerda". Lá como por aqui, a esquerda ao dividir suas forças, termina perdendo. A angústia da esquerda francesa, entre outras, poderá forçá-la a amadurecer politicamente. Esperar que somente a prisão leve-os à união, é masoquismo e imaturidade.

2) Outra questão é: por que será que as pessoas escolhem candidatos de direita e extrema direita? Descartando aqueles que são vítimas da ignorância ou irresponsáveis pelo seu ato de escolha do melhor candidato, ouso levantar algumas hipóteses para essa questão.

As pessoas em geral - no Brasil e no resto do mundo - dão sinais principalmente nas eleições, que estão cansados da política e dos políticos. Democracia dá trabalho, delega responsabilidades e tudo isso cansa. O movimento fascistas opera camufladamente no sentido de levar a população se cansar da democracia e justificar desde golpe autoritário a medidas autoritárias de consenso. A muito tempo que o lingüista e pacifista N. Chomsky, vem alertando para o perigo do consenso ser fabricado, fato que ora se concretiza com G.W. Bush e seu discurso contra- terrorista.

3. Se por um lado, o discurso da direita é furado em ética mas caprichado em estética, o discurso de esquerda peca pelo excesso de pedagogia e carência de "espírito" psicanalítico, isto é, ele ainda não aprendeu a "escutar" da alma do povo. Falo de escutar, não de ouvir. Escutar é decifrar o sentido e o não sentido das coisas humanas, demasiadamente humanas. Não existia escuta da esquerda brasileira, nos anos de chumbo, principalmente quando achávamos, na copa de 70, que o povo estava do nosso lado, que o povo estava se despertando para fazer a revolução socialistas. Certamente faltou-nos escuta.

O bom político não precisa ser ético, mas fará bem o seu dever. O problema é que os políticos não sabem ou não querem escutar a verdade de seu povo. Ele já tem suas verdades prontas. Até mesmo quem se identifica com o sofrimento do povo, quando lá no poder, não será o povo que mandará, será uma elite pensante. Há ainda os que terminam tirando proveito próprio com a escuta que fizeram. Uma vez no poder, gozam em nossa cara.

Muita gente tapa a escuta diante dos aforismos de Nietzsche, principalmente os que estão carregados de sentido, precisando de tempo e amadurecimento para entendê-los. O pensador "ruminante", dizia que o mesmo povo que rejeita a verdade, tende a acolher  ilusão da verdade. Ou seja, o ser humano goza com a estética, não com a ética e a dura realidade.

Ora, o que faz a extrema direita senão oferecer uma "ilusão de verdade", proferir uma retórica vazia, mas que no momento, funciona como mágica que  soluciona o problema que aflige aquelas pessoas ou grupos. Hitler e todos os fascistas, sem exceção,  ganharam as eleições com discursos vazios de conteúdo, mas cheios de vigor ou virilidade, de esperança, de otimismo, de boa perspectiva no futuro.  Estética ganha da ética. Os cristãos dizem que: nem só de pão e vinho vive o homem. O político de direita e de extrema-direita trabalha com um discurso que gratifica o que a parte mais carente, faltosa, "defeituosa" do ser humano precisa de reparos urgentes. Estamos diante do "eterno retorno", onde se repete o discurso nazi-fascista: nos anos 30 diziam: a culpa do fracasso de nossa economia são as "traças, os piolhos, os vermos", que mais tarde Hitler nomeava serem os judeus. Hoje, é o mesmo discurso que culpa o desemprego a onda de imigrantes, mas omitem debater que a causa é outra, global e o inimigo é outro mais complexo de ter derrotado.

4) Qualquer discurso político - de direita ou de esquerda - tem uma intenção pedagógica. Eles querem sempre ensinar um saber ao povo. "É preciso educar as massas", diziam o revolucionários de antigamente. O povo ainda é visto como infantil, retardado ou muito afastado de sabedoria. Uma nova onda de experts - políticos formados em universidades de elite, pensam que sabem tudo de sua área; consideram-se autoridades no assuanto pelo título que conquistaram.

O político de direita usa seu discurso vazio, mas carregado de sentimentos vibrantes e de símbolos que encantam e embalam, pelo menos até a hora do voto. Já os políticos de esquerda, levaram em excesso a teoria (a principal era o marxismo) à população; sem dúvida destacam-se pela racionalidade, discernimento quanto os problemas, sabem elaborar as mazelas sócio econômicas, apesar de muitos serem repetitivos, teóricos conservadores e quase nada práticos.

Mas, a nova esquerda brasileira desenvolve um novo estilo. Reconhece que uma pitada de malícia da direita poderá ajudá-la a chegar ao poder.  Antes, ela aprendeu que tinha que romper com o teoricismo e oferecer ao "povão" algo mais que "pão e vinho".   A "ilusão de verdade" passa a fazer parte da estratégia da propaganda política.

O PT saiu na frente, deixando-se maquiar seu candidato e sua estética de campanha.  O novo marketing da propagada política do PT não quer somente gerar comentários, polêmica, quer fazer resultados nas próximas eleições. Basta comparar rapidamente a campanha para presidência - lembram do "LULA - LÁ " ? - e a de agora. Naquela época havia um tom excessivamente sério, com explicações sobre a  política econômica dos governos. Na hora do debate, ganhou a retórica quase-fascista do Collor de Mello, o seu cinismo, insinuações, enfim o jogo baixo e sujo tradicional na direita deixou o Lula desarticulado. Lembrava o discurso cínico de H. Göering diante do Tribunal Internacional de Nuremberg, para julgar os carrascos nazistas. 

Hoje, uma excelente peça de propaganda política faz aparecer a vida pessoal do Lula, com sua esposa, filhos, netos... "O Lula já avô, cara!!" comentava um aluno. E responde a colega: "Você viu quanto tempo ele tem de casado?!" Se fosse nos EUA, as pessoa iriam pensar: "se o cara é tem tanto tempo de casado, é bom marido, bom pai de filhos e ainda é um jovem avô, certamente tem tudo para ser um bom presidente e merece nosso voto". Olha lá, o próprio Lula falando de paixão, se emocionando, enfim, se humanizando. "Esta é a sua vida..."

O povo brasileiro gosta de novela, não importa se de ficção ou um reality show. Enfim estão sabendo escutar o povo e como gratificá-lo, não mais com balinhas. Estão trabalhando a "Ilusão de verdade" dando a entender ser a "Verdade da realidade".

A ascensão da direita lá acontece graças a mecanismos publicitários e oportunismos  de época, mas por aqui, uma certa esquerda, enfim, aprende a perder o pudor de usar tudo que for possível para ganhar as eleições, inclusive algumas estratégias discutíveis quanto a ser ainda uma ética da esquerda.

 

 

 

RAYMUNDO DE LIMA

     


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