Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente na UEM e doutorando na Faculdade de Educação da Universidade de S. Paulo

 

(In) Segurança: o horror econômico e político

 

O racismo e a xenofobia exercidos contra os jovens (ou contra os adultos) de origem estrangeira podem servir para desviar do verdadeiro problema, da miséria e da penúria. Costuma-se limitar a condição de “excluído” a questões de diferenças de cor, nacionalidade, religião, cultura, que não teriam nada a ver com a lei dos mercados. Entretanto, são pobres, como sempre e desde sempre, que são excluídos. Em massa. Os pobres e a pobreza. (Viviane Forrester)

Julgávamos ultrapassado o tempo dos cartazes explicativos: “x milhares de desempregados = x milhares de judeus”. Mas basta substituir judeus por imigrantes para reconhecer os cartazes da Frente Nacional. Na França, como em todo o mundo, a miséria, a raiva e a humilhação engrossam as fileiras dos inimigos da democracia. (Jacques Généreux)

As manchetes dos jornais dão o alerta: a extrema-direita avança pelo mundo. Por que 5.5 milhões de franceses votaram, no primeiro turno da eleição presidencial, por dois partidos da extrema-direita, xenófobos, anti-semitas e racistas? Como conceber que este discurso tenha a adesão de parcela importante de uma população tão culta, cuja nação lançou os fundamentos da democracia contemporânea?

Não esqueçamos que esta nação também nos deu, bem antes do advento nazista, as teorias racistas do Conde Arthur de Gobineau. Em 1858, ele publicou Essai sur l’ Inegalité des Races Humaines.[1] Como hoje, as teorias racistas se alimentaram do clima de insegurança, das incertezas que afligem a vida humana, da desesperança dos que sobrevivem por resignação ou desespero. A fama deste nobre decadente se deveu, como assinala, Hannah Arendt, à atmosfera pessimista e ao desespero das últimas dedas do século XIX.

A (In) segurança tem um papel fundamental para a política. Os filósofos políticos já percebiam a importância de garantir a paz interna e externa, condição para a própria sobrevivência do Estado. Thomas Hobbes foi quem melhor desenvolveu a teoria que vincula a existência do Estado à sua capacidade de manter a segurança. Sua concepção da natureza humana pode ser resumida na frase famosa: o homem é lobo do homem. Segundo Hobbes, os homens encontram-se constantemente em competição, movidos pela honra e inveja. Em sua clássica obra, Leviatã, afirma:

Em todos os lugares onde os homens viviam em pequenas famílias, roubar-se e espoliar-se uns aos outros sempre foi uma ocupação legítima, e tão longe de ser considerada contrária à lei da natureza que quanto maior era a espoliação conseguida maior era a honra adquirida. Nesse tempo, os homens tinham como únicas leis as leis da honra, ou seja, evitar a crueldade, isto é, deixar aos outros suas vidas e seus instrumentos de trabalho. Tal como então faziam as pequenas famílias, assim também fazem hoje as cidades e os reinos, que não são mais do que famílias maiores, para sua própria segurança ampliando seus domínios e, sob qualquer pretexto de perigo, de medo de invasão ou assistência que pode ser prestada aos invasores, legitimamente procuram o mais possível subjugar ou enfraquecer seus vizinhos, por meio da forca ostensiva e de artifícios secretos, por falta de qualquer outra segurança; e em épocas futuras por tal são recordadas com honra.

Peço ao leitor que reflita. Não há semelhanças entre o que acabou de ler e a realidade mundial pós 11 de setembro de 2001? Não é fato de que o sentimento de insegurança do povo norte-americano foi fator fundamental para legitimar a política americana? Não foi em nome da segurança que aceitou-se toda espécie de restrições aos direitos e liberdades individuais e até mesmo a imprensa, tão ciosa em assegurar a liberdade de expressão, consentiu em silenciar? Não foi a razão de Estado, ou seja, os interesses dos governantes, que se impôs?

Leio nos jornais que a maioria da população de Israel apóia a política de Ariel Sharon. Segundo a pesquisa divulgada, o apoio ao primeiro-ministro israelense cresceu 19%, atingindo 64%. Isto depois da escalada militarista nos territórios sob controle da autoridade palestina. Nem mesmo a crise econômica e a desvalorização da moeda israelense, o shekel, abalou o prestígio de Sharon. É verdade que parcela da população israelense não apóia a política de Sharon e percebe que esta não é a solução para o conflito. Vejo as imagens que mostram as conseqüências das ações do Exército israelense e, considerando o clima de insegurança de ambos os lados, tento entender.

Também tento compreender o apoio popular à pena de morte e a crescente exigência de uma política de segurança fundada na potencialização da violência. A insegurança leva as pessoas a desejarem aniquilar não as condições que geram a violência, mas os indivíduos que a praticam. De novo, é preciso compreender as razões e motivações. A pressão é tão forte que até setores da esquerda passam a adotar o discurso da direita sobre este tema.

Mas, compreender não é aceitar nem perdoar. Como frisou Arendt:

Compreender não significa negar os fatos, o chocante, eliminar deles o inaudito, ou, ao explicar fenômenos, utilizar analogias e generalidades que diminuam o aspecto da realidade e o choque da experiência. Significa, antes de mais nada, examinar e suportar conscientemente o fardo que o nosso século colocou sobre nós – sem negar a sua existência, nem vergar humildemente ao seu peso. Compreender significa, em suma, encarar a realidade sem preconceitos e com atenção, e resistir a ela – qualquer que seja. [2]

A incapacidade dos políticos em compreender, em ouvir os rumores que ressoam nas camadas mais excluídas da sociedade, privilegiando apenas a voz dos que têm voz, ou seja, dos seus eleitores mais poderosos, a elite e a classe média, os que formam a opinião pública, facilita o crescimento da extrema-direita. Não é por acaso que a demagogia política tem mais audiência entre as camadas mais miseráveis da população.

Hobbes tinha razão. O homem está disposto a trocar a liberdade pela segurança. Ele apenas equivocou-se num ponto: a razão do Estado também pode expressar a barbárie. A guerra de todos contra todos é substituída pela guerra do Estado contra todos. Os diversos totalitarismos o comprovam.

Seja nos EUA, em Israel, na França ou no Brasil, a insegurança gera a aceitação da violência patrocinada pelo Estado e sob os auspícios da democracia. Este é o terreno propício para o avanço da extrema-direita e das suas exigências xenófobas para restaurar a segurança social e econômica. Estamos diante da manifestação do ódio como arma política. É o horror em suas múltiplas facetas!

Viviane Forrester, tornou célebre a expressão O Horror Econômico, título do seu livro. Entre os méritos da autora, está a linguagem: ela analisa processos econômicos de uma forma inteligível, oposto ao sisudo economês tão comum em livros acadêmicos. Sem dúvida, o fato de ser romancista e ensaísta tem influência em seu estilo.

Em que consiste o Horror Econômico? É preciso ler a obra para ter a exata noção do seu significado. Parece-me, entretanto, que a expressão novo holocausto, cunhada por Carlos Heitor Cony na apresentação, nos ajuda a compreender:

Depois da exploração do homem pelo homem em nome do capital, o neoliberalismo e seu braço operacional, que é a globalização, criaram, mantêm e ampliam, em nome da sacralidade do mercado, a exclusão de grande parte do gênero humano. O próximo passo seria a eliminação? Caminhamos para um holocausto universal, quando a economia modernizada terá repugnância em custear a sobrevivência de quatro quintos da população mundial? Depois de explorados e excluídos, bilhões de seres humanos, considerados supérfluos, devem ser eliminados?

Este raciocínio pode parecer apocalíptico aos incautos. Afinal, há quem considere que a falha do neoliberalismo está justamente em não cumprir suas promessas, isto é, de não ter radicalizado nas privatizações, na flexibilização do trabalho, na objetivação do Estado mínimo etc. Há quem veja com naturalidade o fato das pessoas serem descartáveis, enquanto a tecnologia mundial torna possível eliminar o sofrimento dessa massa humana.

Na naturalização dos processos sociais, a culpa é atribuída às próprias vítimas – que não teriam os atributos naturais necessários para vencer a competição. Outro procedimento é encontrar os bodes expiatórios, expediente tão comum na história da humanidade. Se ontem foram os judeus que cumpriram tal papel, hoje acrescentam-se muçulmanos, latinos, africanos etc.

O horror ocupa as páginas da imprensa devido à retumbante derrota da social-democracia na França. Destaca-se o crescimento da esquerda trotskista e a fracasso do Partido Comunista. Foi a abstenção – a mais alta até aqui – e a migração dos votos dos eleitores do Partido Socialista que deram a vitória à Frente Nacional.

A derrota da onda rosa européia pode ser explicada por vários fatores. Um deles, quiçá o principal, foi sua metamorfose na chamada terceira-via e sua não diferenciação da direita. Na França, isto pode ser explicado pela política de coabitação. Devemos aprender que uma política de direita defendida pela esquerda não conquista os eleitores da direita; mas, fundamentalmente, confunde o eleitorado de esquerda e leva à apatia e à abstenção. Afinal, prá que votar nesta esquerda se é possível optar pelo original?

Eis o Horror Político: a redução da política aos ditames das leis de mercado; a sua transformação em uma técnica que privilegia os meios de alcançar e manter o poder. “O fim não precisa mais justificar os meios, pois os meios se transformam em fins”, escreve Jacques Généreux. Este, ao contrário de Viviane Forrester, concluiu que o horror é político e não econômico. Pois, se vivemos num mundo onde se caminha para um novo holocausto, torna-se imprescindível perguntar:

Como é que o horror pôde se expandir tão vitorioso em uma democracia, ou seja, em suma sociedade onde as políticas, na pior das hipóteses, só deveriam atender os interesses da maior parte dos cidadãos? Como é que os governos indicados pelos eleitores puderam promover (...) um modelo de sociedade contrário aos interesses da maioria?” (GÉNEREUX: pp. 23-24)

É a própria prática democrática contemporânea que o autor de O Horror Político questiona. Trata-se de uma questão tão antiga quanto os clássicos da política. Estes, desde os gregos, se perguntam: para que serve a política? A política almeja o bem-estar comum, a coisa pública. Isto significa colocar freios sobre os interesses egoístas dos indivíduos.[3]

Quando a política não corresponde mais às expectativas alimentadas pelo jogo democrático, isto é, deixa de expressar a possibilidade de, mesmo no âmbito do sistema político-econômico vigente, garantir as condições para uma vida melhor; quando estas condições se degradam cada vez mais, a despeito das sucessivas eleições e do sobe-e-desce dos governantes; quando os mais ricos isolam-se em suas ilhas de prosperidade e o individualismo egoísta e consumista da classe média torna-se um véu que encobre a realidade social; quando, enfim, há a recusa em partilhar, estabelece-se a tirania do mercado político e a democracia se reduz ao debate técnico e às técnicas de conquistar o governo; então, temos em sua completude o Horror Político.

A crise da esquerda é a crise da política. Não é de hoje que se observa o desencanto com a política. Nos países onde o voto é facultativo, a abstenção dos eleitores cresce a cada eleição. Este é o principal fator que explica o beco sem saída em que a esquerda francesa se meteu, vendo-se obrigada a declarar o voto no candidato da direita contra o mal maior. O repúdio à política leva a maioria silenciosa a gerar as condições para que os extremos se imponham.

É imperativo que a esquerda se questione quanto à sua capacidade de desenvolver mecanismos de circulação de informação, mecanismos que efetivamente ampliem a possibilidade de intervenção dos cidadãos. Uma esquerda que não se diferencia da direita é, no máximo, apenas mais um governo que somos obrigados a suportar até que chegue a próxima eleição. Melhor ou pior, o governo torna-se alheio ao cotidiano das pessoas. Às vezes tenho a impressão de que a vida seria melhor sem governantes. Observo que, a despeito deles, a vida continua. Contudo, com tanto horror, a vida não prossegue em brancas nuvens. É preciso que a esquerda compreenda e faça autocrítica.

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Bibliografia:

ARENDT, Hannah. O sistema totalitário. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1978.

FORRESTER, Viviane. O horror econômico. São Paulo, Editora da Unesp, 1997.

GÉNÉREUX, Jacques. O horror político: o horror não é econômico. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1998.

HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo, Abril Cultural (Coleção: Os Pensadores)


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* Docente na Universidade Estadual de Maringá e doutorando na Universidade de S. Paulo.

[1] Ensaio sobre a desigualdade das Raças Humanas.

[2] Hannah Arendt escreveu esta palavras no prefácio de O Sistema Totalitário (publicado no Brasil sob o título Origens do Totalitarismo). Era o ano de 1950.

[3] Um corte profundo nessa perspectiva da política como expressão do bem-comum foi instituído pelo paradigma classista, que concebe a política como expressão dos interesses de grupos e classes sociais em permanente disputa. Então, seu objetivo e significado mudam conforme evoluem estes interesses e considerando-se a correlação de forças entre eles.

ANTONIO OZAÍ DA SILVA
     

 


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