Por EVA PAULINO BUENO
Professora de Espanhol e English Communication na Mukogawa Women's University, em Nishinomiya, no Japao; autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM, 2000)

 

Dalai Lama, Budismo Tibetano, Falun Gong e a China

 

Em 20 de novembro de 2001, 36 membros internacionais da Falun Gong fizeram um apelo pacifico na Praça Tiananmen em Beijing. Todos foram presos em cinco minutosO que existe em comum entre um grupo de pessoas distribuindo panfletos da Falun Gong em várias cidades do mundo e o Dalai Lama? Muita coisa, claro. Mas as mais importantes têm a ver com a relação do Dalai Lama e dos membros da Falun Gong com o governo da China, ou, pra darmos o nome completo, da República do Povo da China.

Revendo rapidamente alguns momentos da história recente da Ásia: em 7 de outubro de 1959, oitenta mil soldados do Exército da Libertação do Povo ( People’s Liberation Army, PLA) da China  atacou o Tibet e anunciou ao mundo sua “liberação pacífica,” enquanto soldados destruíam monastérios e casas, matando monjes, monjas e pessoas da população civil. Eventualmente, para poder continuar viabilizando a existência do Tibet enquanto entidade política (e religiosa) separada da China, o seu governante supremo, o Dalai Lama, conseguiu escapar do Tibet e se refugiou na India. Apesar das óbvias conseqüências futuras, Nehru, o Primeiro Ministro da India, aceitou a anexação do Tibet em 1954. Desde então, o pequeno, pacífico e religioso país do Tibet, que havia sempre funcionado como uma zona de pára-choque entre a India e a China, não pôde mais exercer tal papel.

Os resultados não foram totalmente supreendentes: em 1962 a China atacou a India, e diz que não reconhece a Linha Mc Mohan como a fronteira demarcadora entre os dois países. Desde 1962, a China tem reclamado Arunachal Pradesh e Sikkim como parte do seu território nacional. Os desígnios expansionistas chineses são bastante claros.

Além disso, não podemos esquecer que, dentro da própria China, entre os chineses tem existido uma seleção étnica constante. Embora o país costume se apresentar como uma nação de muitas etnias, basta um estudo superficial da história interna (quando disponível, e não purgada e reescrita para a conveniência do momento) para se ver que a etnia Han é a que domina todas as outras, e seus membros recebem mais vantagens educacionais, econômicas, políticas.

Sim, a China proclama que respeita as várias etnias nacionais: de vez em quando há shows folclóricos em que pessoas vestidas com os trajes desta ou daquela etnia se apresentam em público. Mas são todos da etnia Han, “fantasiados” das outras etnias. Esta é uma política que sempre foi seguida na China. A presença de refugiados das etnias minoritárias chinesas em países como Tailândia e Myanmar atestam este fato. Muitos destes refugiados chegaram a esses outros países mais de cem anos atrás, buscando liberdade e melhores condições de vida. Nem todos foram bem sucedidos, e muitos ainda vivem segregados. Outros continuam chegando, impelidos pelas mesmas condições que acossaram seus antepassados, e outras novas.

O fato é que, na China, ainda fiel ao totalitarismo do modelo maoísta, embora hoje com arrotos de entrada na sociedade democrática e na economia de mercado, quanto mais as coisas mudam, mais elas continuam na mesma. Um exemplo disso é o que está ocorrendo com os membros da seita Falun Gong, que estão sendo perseguidos, torturados, e mortos na China.

Para os que ainda não tiveram a experiência de encontrar membros desta seita aqui vai um breve relato. A seita é uma das formas de praticar o “qigong,” e pertence à mesma categoria que o tai chi e outras formas de exercícios físicos, em geral praticados em público, em grupos, e em parques. Mas, alguêm pode perguntar, o que há de errado com tai chi? Muitos chineses não praticam tai chi todos os dias?

Sim, os chineses praticam o tai chi todos os dias, sem problemas ou perseguições. Mas o Falun Gong (também conhecido como Falun Dafa) está proibido, porque, além de exercícios físicos, esta forma de “qigong” prega também a melhoria mental através da meditação e—o que deve realmente deixar as autoridades chinesas lívidas—o estudo dos escritos de Li Hongzhi, o divulgador/fundador da Falun Dafa. Para as autoridades chinesas, que arrasaram o Tibet, destruíram seu sistema milenar de governo, enviaram milhões de chineses para ocupar as terras tibetanas, e ainda continuam aprisionando, torturando e matando monjes budistas, a mera possibilidade de obediência a alguma outra pessoa que escreveu um livro (exceto Mao Tse Tung), é claramente inadmissível, e punível com todas as armas do governo.

Em uma viagem a Hong Kong em fevereiro de 2001, pude observar pessoalmente o que acontece com os praticantes da Falun Gong. Uma tarde, na estação da balsa ligando Hong Kong a Kowloon havia um grupo de cinco pessoas (três homens e duas mulheres) distribuindo panfletos aos que chegavam. Estas pessoas não tinham nada diferente das outras, a não ser, talvez, um insistente sorriso. Elas me fizeram lembrar os membros da Hare Krishna que aborreciam as pessoas nos aeroportos especialmente nos anos 70 e 80, cantando canções esquisitas, usando saris sujos, e tentando enfiar papéis nas nossas mãos. Mas os membros da Falun Gong naquela tarde em Hong Kong não insistiam; ofereciam seus folhetos, e se você não queria pegar, eles simplesmente iam oferecer a outra pessoa. No dia seguinte, a estação estava cheia de policiais armados literalmente até os dentes, e nem sinal dos membros da Falun Gong. Teriam sido presos? Torturados? Mortos? Quem sabe?

O que se sabe com certeza é que a China, recém admitida na World Trade Organization, membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, tem muito que explicar sobre seus problemas com os direitos humanos. Infelizmente, este país fenomenal, com gente alegre e cantadeira, forte e talentosa, está sob o mando de um governo que espreme e destrói todos que não estão de acordo com a linha do partido. Os membros da Falun Gong, assim como os seguidores do budismo tibetano, são dois exemplos desta situação.

Como os Jogos Olímpicos de 2008 vão ser sediados em Beijing, será interessante ver que medidas o governo chinês vai tomar para impedir a entrada de material “subversivo” no país. Na Conferência Internacional de Mulheres em 1994, os participantes que eram membros de ONGs –Organizações Não Governamentais--foram confinadas em um bairro da cidade, praticamente impedidos de deixar o recinto da conferência sem supervisão de chineses especialmente designados para manterem estas pessoas isoladas da população. Os Jogos Olímpicos serão uma ocasião muito maior, mais abrangente, que o evento de 1994. Só nos resta esperar e torcer para que os Jogos  Olímpicos sejam um momento de confraternização entre as nações e abertura política para a China. Mas talvez isso seria esperar demais.

 

EVA PAULINO BUENO

     

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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