Por RUDÁ RICCI
Sociólogo, Professor da PUC-Minas e Diretor da CPP (Consultoria em Políticas Públicas). Web Site: www.cpp.inf.br

 

Conservadorismo e Educação no Brasil

Três notícias sobre aberrações da educação brasileira, aparentemente sem conexão entre si, circularam na internet nos últimos dias.

A primeira, arrolava uma dezena de erros grosseiros cometidos por alunos que prestaram o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Acredito que vários leitores chegaram a ler algumas das respostas inusitadas, mas não consigo vencer a tentação de reproduzir algumas delas. O que dizer de um aluno que afirma que “os desmatamentos de animais precisam acabar” ou que o desmatamento é “um problema de muita gravidez”? Por onde começar quando alguém diz que este problema (o desmatamento) é causado pelos “raios ultra-violentos”? Alguns outros, na tentativa de construir um discurso politizado, avaliaram que a culpa central é do governo federal que “vem com aquela prosopopéia flácida”. Ao ler tantas frases insólitas surgem várias dúvidas. A primeira: qual o interesse de quem decide divulgar  essas respostas ao sabermos que foram 400 mil alunos avaliados pelo ENEM? Acredito que há um interesse mórbido em reduzir os esforços educacionais recentes que envolveram todo o país. Ao selecionarmos os inúmeros erros cometidos por jornalistas e editores para divulgação, qual seria a intenção velada de tal ato? A segunda dúvida: quais os erros cometidos na formação desses alunos que resultariam em tais absurdos? Temo que a resposta fácil aumente a repressão sobre nossos alunos.

A segunda notícia está vinculada ao temor que indiquei na frase acima: nas periferias de Manaus é prática corrente o uso de palmatória em sala de aula. Alguns professores que lecionam “aulas de reforço” a alunos do ensino fundamental, como Raquel Magno Santarém, admitem que cada erro cometido ou demora em responder uma questão vale uma palmada. O pior é que os pais dos alunos agredidos concordam com a violência: Ana Keyla Reis aprova a palmatória por acreditar que a professora “é uma segunda mãe dos alunos e, portanto, tem o direito de repreendê-lo”. Todos sabemos que uma pessoa educada dificilmente lança mão da violência. Por que motivos, então, a violência aparece nesta notícia como instrumento de educação?

A última notícia vem de Brasília. Num e-mail emocionado, o professor Carlos Pio, coordenador do Curso de Especialização da Universidade de Brasília informa que reprovou 11 estudantes com mais de 25 anos, portadores de diploma universitário e empregados em empresas, por terem plagiado trabalhos finais de conclusão do curso. Os trabalhos foram copiados de portais da internet destinados a “ajudar”, mediante pagamento, estudantes universitários a completar suas tarefas acadêmicas. O professor Pio lista cinco portais que oferecem tais serviços.

Começo a pressentir uma onda de extremo conservadorismo que se esboça a respeito do futuro das políticas educacionais de nosso país e que permeiam as três notícias que citei. O movimento conservador que estou pressentindo tem duas motivações distintas: de um lado, interesses de mercado, de outro, um forte ressentimento. A motivação mercadológica nasceu nos anos 90, quando o então ministro Carlos Chiarelli procurou introduzir modelos de Qualidade Total na educação. Apenas o Chile procurou um feito similar. Nenhuma outra reforma educacional importante no mundo aproximou-se dessa aventura. Mas a Qualidade Total acabou aumentando os rituais escolares, os instrumentos de controle, a busca de resultados quantificáveis. Um exemplo de tal confusão é a relação que alguns dirigentes educacionais fazem entre índice de repetência e evasão com qualidade do ensino. Não há relação imediata entre um dado e outro. Mas a panacéia de avaliar a educação brasileira a partir de dados estatísticos permanece. Fica, então, uma leve crença que o melhor para a educação pública é o modelo empresarial (da Qualidade Total), que o melhor aluno é o esperto e agressivo, que o resultado final é mais importante que o processo de aprendizagem. O interessante é que são raras as escolas particulares que se apoiam nessa crença.

O ressentimento é a motivação mais perigosa. Existe um movimento surdo que procura valorizar a escola pública de muitas décadas atrás. Os salários de professores teriam sido melhores, os alunos seriam mais respeitosos, o conteúdo escolar mais complexo e amplo, os resultados mais positivos. Esta crença não tem qualquer fundamento na história da educação brasileira. Contudo, como é um tema dos mais polêmicos, prefiro analisar tal erro num próximo artigo. No momento, fica o alerta para o conservadorismo que vai atingindo a educação brasileira.

 

RUDÁ RICCI

     

 

 


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