Por RUDÁ RICCI
Sociólogo, Professor da PUC-Minas e Diretor da CPP (Consultoria em Políticas Públicas). Web Site: www.cpp.inf.br

 

A Era Lula

 

Lula acaba de vencer as prévias internas do PT. Alguns anos atrás a disputa entre Lula e Suplicy não seria imaginada nem mesmo pelos mais criativos militantes petistas. Primeiro, porque entre os dois existem poucas diferenças ideológicas e programáticas. Segundo, porque a liderança de Lula no PT era, até então, inquestionável. A novidade, acredito, sinaliza uma mudança nas práticas políticas brasileiras, em especial, aquelas vinculadas aos movimentos sociais iniciados nos anos 70 e 80 do século passado, das quais Lula é herdeiro direto.

Nos anos 80, na esteira do processo de redemocratização do país, movimentos sociais pipocaram por diversas regiões. O mais pujante de todos foi o movimento sindical, com destaque para as greves protagonizadas pelos metalúrgicos, seguidos por petroquímicos, bancários, professores e trabalhadores rurais. A ditadura militar havia imposto tal limitação à ação pública, além de um modelo de desenvolvimento tão seletivo, que os movimentos sociais que emergiam no cenário político eram marcados pela desconfiança e revolta. Seus líderes, invariavelmente, adotavam um semblante fechado, eram irônicos, discursavam raivosamente, denunciavam os desmandos dos governos e não aceitavam participação em nenhuma instância de governo. Rejeitavam quase todas formas de representação política e privilegiavam as formas de democracia direta, como plenárias e assembléias. Os pesquisadores sociais denominaram tal ideário de "antiinstitucionalismo".

Ocorre que as reviravoltas por que passou o mundo na virada de século alteraram profundamente o perfil das lideranças sociais. No Brasil, tal mudança foi ainda mais acentuada já que várias lideranças antiinstitucionalistas acabaram se elegendo nos anos 80 e 90 para cargos que antes desdenhavam. Tornaram-se vereadores, prefeitos, deputados e senadores. Obviamente que os novos cargos redefiniram seus valores políticos. Inicialmente, alguns novos parlamentares afirmaram que o Legislativo era uma tribuna de denúncia. Aos poucos, contudo, muitos deles revelaram-se especialistas no regimento interno dessas instâncias da política brasileira. Finalmente, criaram múltiplas alianças políticas, alargando o espectro ideológico inicial.

A globalização parece ter provocado mudanças mais significativas. Vou citar duas delas, como mote para entendermos o que se passa no interior do PT:

o recuo da capacidade dos governos regularem a economia globalizada gerou um certo vazio político. É fato que a pauta neoliberal que assolou o mundo nos anos 80 contribuiu para uma "orfandade" política crescente. Mas mesmo os governos que não compactuaram com a agenda neoliberal reduziram a intervenção estatal, ainda que não totalmente. Por este espaço aberto esboçaram-se vários movimentos sociais que passaram a elaborar estratégias políticas de participação nas gestões públicas. Os exemplos são vários. Desde transferência de recursos públicos para ONGs implementarem ações públicas até modelos de co-gestão em reassentamentos rurais;
as mudanças súbitas e a flexibilidade constante de produção impostas pela globalização geraram uma nova sociedade que Anthony Giddens resumiu num conceito: sociedade reflexiva. O que Giddens queria afirmar é que a nova sociedade, extremamente dinâmica, cria dilemas novos a cada dia para todos nós, o que nos obriga a tomar decisões - a refletir - a todo instante sobre tudo. Somos, então, mais reflexivos que em toda história da humanidade.

Se juntarmos as duas novidades citadas acima, podemos entender que as lideranças sociais deste novo século devem ser mais propositivas, reflexivas e institucionalizantes. Necessitam, ao menos, saber manusear informações gerenciais, elaborar projetos e propostas, gerir projetos e fiscalizar. Obviamente que esta mudança de perfil implica numa mudança da ação do Estado, mais aberto à co-gestão e à participação direta da sociedade civil.

Mas o interesse maior recai sobre a nova exigência dos atributos dos líderes de movimentos sociais contemporâneos. Não basta a capacidade de mobilização e convencimento, mas a capacidade de formular e negociar, além da capacidade de governar.

Acredito que este é o pano de fundo para entendermos o que ocorre no momento com o PT e com Lula. Estamos vivenciando uma sutil transição no comportamento político. Não por outro motivo, na semana em que se anuncia a vitória de Lula - defensor da aliança política com o PL - sobre Suplicy, Tarso Genro é proclamado candidato ao governo gaúcho pelo PT, derrotando Olívio Dutra (outro herdeiro direto dos anos 80. Há algo de mais profundo que mero maquiavelismo político. São sinais de mudança de uma Era.

Enfim, imagino que esteja chegando o momento em que lideranças populares e de esquerda serão obrigadas a redesenhar o Estado brasileiro. Não bastam mais as conquistas de cunho "participacionista" inscritas na Constituição de 88. Os tantos conselhos de gestão criados estão em lugar incerto na tomada de decisão dos governos. A descentralização da gestão pública ainda é tímida e sempre é acompanhada de movimentos contrários.

Se uma nova Era do comportamento político de movimentos sociais e lideranças de esquerda parece se desenhar, ainda resta aguardar o novo desenho de suas propostas políticas.

 

 

RUDÁ RICCI

     

 

 


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