Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente na Universidade Estadual de Maringá e doutorando na Universidade de São Paulo

 

Maurício Tragtenberg e a Guerra no Oriente Médio

O que condenas não o faças a outro. Eis toda a Lei, o resto é só comentário. (Thalmud da Babilônia, cap. Sabath, 31)

 

Chega-se numa idade na qual é impossível não se indignar ou omitir-se. Como não reagir diante das imagens que vemos na TV e nos jornais? Como ficar indiferente diante de uma guerra alimentada pelo medo e ódios recíprocos? Como ficar insensível diante do terror, seja ele dos homens e mulheres bombas ou do terrorismo de Estado?

Confesso que, por um bom tempo, via tudo isso sob uma sensação de distanciamento e como algo incompreensível. As imagens, os fatos, as notícias não me tocavam diretamente. Na minha desinformação, debitava tudo ao fator religioso, aos fanatismos fundamentalistas. Passei a ter um maior interesse pela questão israelense-palestina a partir de Maurício Tragtenberg. [1] Com ele passei a me dedicar às leituras sobre este povo tão perseguido milenarmente; a me interessar pelo sofrimento e pelas realizações judaicas; a aprender e tentar compreender o que é ser judeu; e, a buscar compreender o conflito no oriente médio.

Maurício Tragtenberg foi, nas palavras de Paulo-Edgard Almeida Resende, professor da PUC/SP, o intelectual sem cátedra, o judeu sem templo, o militante sem partido. [2] Nestes tempos sombrios, como diria Hanna Arendt, fico refletindo qual seria a postura de Maurício Tragtenberg diante da guerra israelense-palestina atual. Infelizmente, não podemos contar com sua intervenção direta, seus escritos e sua voz. Mas, a julgar pelo que escreveu em outros momentos igualmente difíceis, como na escalada militar no Líbano e o massacre de Sabra e Chatila, ele seria um crítico veemente da ocupação dos territórios palestinos pela exército israelita.

Tragtenberg foi um dos signatários do Manifesto contra a violência no Líbano, assinado por vários intelectuais brasileiros de origem judaica. Isto lhe valeu uma polêmica com o Embaixador de Israel no Brasil. [3] A despeito da crítica ao militarismo expansionista do Estado de Israel, Maurício não renunciou à sua condição de judeu e nem à tradição judaica. Para ele,

ser fiel à tradição judaica é condenar mais este genocídio praticado contra o povo palestino. É necessário acabar de vez com o etnocentrismo que toma a forma de judeu-centrismo, onde o massacre de judeus brancos por brancos europeus tem um status diferente do massacre dos armêmios pelos turcos, dos negros africanos pelos traficantes de escravos, dos chineses na Indonésia. Assim, Auschwitz é elevado a potência metafísica. Sou um dos últimos a minimizar as atrocidades cometidas em Auschwitz, porém, as lágrimas de outros povos não contam? [4]

Tragtenberg foi um judeu defensor da causa palestina. "Da mesma maneira que defendemos o direito de Israel subsistir como Estado, defendemos o direito dos palestinos construírem seu Estado, terem seu lugar ao sol", escreveu. Naquela oportunidade, não lhe passou despercebido que a "máquina de guerra de Sharon", apoiada pela administração americana, então sob comando de Ronald Reagan, poderia até atingir o objetivo de "liquidar os palestinos como povo, mas é certo que liquidará os israelenses como seres humanos. Essa é a 'banalidade do mal' em sua versão atual", afirmou. Tragtenberg considerou "melancólico que um povo que conheceu o genocídio, os campos de concentração, seja utilizado como arma pela minoria governante em Israel, que serve a interesses espúrios". [5]

Por outro lado, tenho certeza de que Tragtenberg não faria coro com os que, a despeito de defenderem os direitos palestinos, fazem campanha anti-semita e dissimulam o objetivo de varrer o Estado de Israel da face da terra. Tanto quanto os palestinos, os judeus têm direito à existência com segurança, à sua pátria.

Nestes tempos sombrios, tempos de ódios recíprocos que alimentam o irracionalismo, as palavras de Tragtenberg ecoam de forma vibrante e expressam um chamamento à razão. Ele representa a coerência entre a postura judaica e a tradição humanista deste povo.

Isaac Deutscher se definiu com um judeu não-judeu, afirmando:

Se não é a raça, que é então que faz um judeu? Religião? Eu sou ateu. Nacionalismo judaico? Sou internacionalista. Dessa forma, em nenhum dos dois sentidos sou judeu. Sou judeu, entretanto, pela força da minha incondicional solidariedade aos perseguidos e exterminados. Sou judeu porque sinto a tragédia judaica como a minha própria tragédia; porque sinto o pulsar da história judaica; porque daria tudo que pudesse para assegurar aos judeus auto-respeito e segurança reais e não fictícios. [6]

Não sei se Maurício Tragtenberg concordaria com esta definição. Mas é assim que o vejo. Suas palavras e as imagens da guerra atual, falam por si mesmas.



[1] Maurício Tragtenberg (1929-1998) foi professor na PUC/SP, FGV e UNICAMP. Para mais informações biobibliográficas acesse o site http://www.nobel.com.br/~cdmt
[2] Ver o artigo, Maurício Tragtenberg: o intelectual sem cátedra, o judeu sem templo, o militante sem partido, em: SILVA, Doris Accioly e e MARRACH, Sonia Alem. (Orgs.) Maurício Tragtenberg: Uma vida para as Ciências Humanas. São Paulo, Editora da Unesp, 2001, pp. 135-47.
[3] Ver Maurício Tragtenberg. Resposta de um intelectual a um coronel embaixador. Publicado em Folha de S. Paulo, em 02 de setembro de 1982; e, também na Revista  Espaço Acadêmico, n 07, de dezembro de 2001.
[4] Ver o artigo publicado na Espaço Acadêmico, n 07: Maurício Tragtenberg. Menachem Begin visto por Einstein, H. Arendt e N. Goldman. Publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo, em 21 de setembro de 1982.
[5] Ver: Maurício Tragtenberg. Quando os “justos” têm as  mãos sujas. Também publicado na Espaço Acadêmico, n 07. Publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo, em 02 de julho de 1982.
[6] DEUTSCHER, Isaac. O judeu não-judeu e outros ensaios. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1970, p. 49.

 

 

ANTONIO OZAÍ DA SILVA
     

 


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